sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Macarthismo voltou aos EUA: triunfará o golpe de estado?


Jorge Vital de Brito Moreira

É absolutamente grave e alucinante constatar que a derrota da candidata Hillary Clinton, do Partido Democrata e do presidente Barack Obama nas eleições presidenciais; e que a luta antidemocrática das elites e dos eleitores democratas para impedir que Trump tome posse como novo presidente dos EUA, poderiam conduzir a um golpe de estado no estilo que os Estados Unidos impuseram recentemente contra Honduras, Paraguai e Brasil. 

Avaliando a situação a partir do surgimento do que parece ser um novo surto de Macarthismo (1) no país, produzido pela patética decisão do presidente Obama de exigir uma investigação da CIA para culpar a Rússia pela derrota de Hillary Clinton, tudo parece indicar que o governo está querendo criar um pretexto ficcional para aplicar um golpe institucional para cancelar a eleição e a vitória de Donald Trump no país. Este seria um golpe organizado por instituições como a CIA (e outras agências de espionagem) com o claro objetivo de deslegitimar o próximo governo, acusando Trump de ser um cúmplice de Rússia, o acusando de ser um traidor (2).

O mais alucinante de toda essa situação criada pelo governo Obama é que não existe nenhuma prova real para legitimar tal afirmação. Tudo que tem existido até agora é uma vaga declaração feita durante as eleições presidenciais, pelo Director of National Intelligence (o Diretor de Inteligência Nacional), James Clapper, já reconhecido por suas declarações mentirosas aos senadores estadunidenses negando que houvesse espionagem sobre os cidadãos n´s EUA (3). Depois disso, a imprensa burguesa, a imprensa liberal, e a imprensa de centroesquerda (sobretudo associadas ao Partido Democrata), estão envolvidas repetindo todas as acusações de traição, conspiração russa, sem mostrar qualquer prova responsável ou definitiva de tal acusação. Aliás este blog já mostrou a imagem e a fala de Steve Pieczenik no Youtube denunciando o golpe de estado preparado pela administração Obama e por Hillary Clinton para impedir a vitória e a posse de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos (4). Nesta denuncia, traduzida para a língua portuguesa pelo blog Novas Pensatas (5) Steve Pieczenik informa que todos os dados sobre a corrupção da Fundação Clinton revelados por Julian Assange em Wikileaks, foram proporcionados, não pela Rússia, mas pelos serviços de inteligência dos EUA, que se opunham à corrupção da administração do atual presidente.

Observando a nova campanha da mídia corporativa para culpar a Rússia pela vitória de Donald Trump, e observando as novas marchas de protestos financiadas pelo renomado especulador financeiro George Soros para impedir a posse  de Donald Trump, podemos suspeitar que as elites responsáveis pelo projeto expansionista Obama/Clinton estão planejando perpetrar um golpe de estado nos EUA.

Como podemos constatar através das noticias diárias da mídia coorporativa, o neo-Macarthismo, está sendo propagado pela persistente e escandalosa campanha jornalístico-midiática da mídia contra Trump com o objetivo de preparar a opinião publica para a realização de um golpe de estado a favor de Hillary Clinton. 

Isso não será nenhuma novidade dentro da administração do presidente Barack Obama pois já estamos informados por documentos desclassificados sobre o papel da sua administração e Hilary Clinton, em particular, nos golpes de estado em Honduras, no Paraguai, e mais recentemente, no Brasil: o golpe de estado do PMDB (Michael Temer, Eduardo Cunha) e do PSDB (Aécio Neves, José Serra, etc.) contra o governo constitucional da presidenta Dilma Rousseff, que foi eleita pelos votos de 54 milhões de brasileiros. 

Nos EUA, também podemos observar que a campanha Macarthista, está sendo liderada pelas cadeias de notícias (os jornais Washington PostNew York TimesLos Angeles Times, etc.) e pelas grandes emissoras de TV (MSNBC, CNN, Univisión, Telemundo, etc), a favor de Hillary Clinton. Tampouco devemos esquecer que as companhias de noticias acima mencionadas são as mesmas corporações de desinformação (e manipulação) que foram responsáveis pela propagação das mentiras que culpavam o Iraque e Saddam Hussein de possuírem bombas nucleares, Weapons of Mass Destruction (armas de destruição massiva) para atirar contra os EUA.  Mentiras que provocaram a invasão e a guerra infame dos estadunidenses contra o povo do Iraque.

A partir da publicação do artigo “Russian propaganda effort helped spread ‘fake news’ during election” ("O esforço de propaganda russa ajudou a espalhar 'notícias falsas' durante a eleição") de Craig Timberg, no Washington Post (4) sobre as denominadas “fake news” (notícias falsas), reiniciou-se a campanha (reproduzindo características das práticas macarthistas) das cadeias de notícias da mídia corporativa onde elaboraram uma lista com os nomes dos blogs e dos jornalistas de oposição que tem tido a coragem de revelar não somente o escândalo de corrupção da candidata Hillary Clinton (da  sua Fundação Clinton e do Partido Democrata) mas também de outras mentiras propagadas diariamente pela mídia corporativa para denegrir a Rússia, Putin, China, Líbia, Síria, e Palestina.

Em outras palavras, se a noticia não for publicada por The Washington Post (que antes era um jornal decente que denunciou o escândalo Watergate, porém hoje pertence ao grupo neoconservador de Jeff Bezos, o proprietário da Amazon.com), por The New York Times,  ou por CNN, não pode ser verdade, será apenas “fake news” (falsas noticias). Assim, estes grandes meios de (des)informação massiva, e a maioria das principais plataformas das redes sociais tais como Google, Facebook, Twitter são as fontes de poder que reclamam o direito de autorizar  ou desautorizar o que é “verdade” e o que “não é verdade”, porque estes conglomerados multinacionais e corporativos serão, de agora em diante, parte integrante da validação da informação (do que é verdade e do que não é verdade). Em poucas palavras, estamos, mais uma vez, diante da “caça às bruxas”, ou seja, diante de uma das mais infames técnicas de repressão, de amedrontamento e de censura totalitárias proveniente da doutrina e prática do Macarthismo que pertence à história da inquisição nos EUA.

Dado que Trump, o presidente eleito, está respondendo à tentativa de golpe de estado, ocupando as posições e as funções de poder no novo governo com a nomeação de militares e multimilionários (para neutralizar as instituições que o presidente Obama tem lançado contra ele), fica evidente, que existe uma luta de classes (dentro da classe dominante) entre as elites dos EUA pelo controle do projeto imperialista dos Estados Unidos.

Assim, voltamos a nossa pergunta inicial sobre a função da volta do Macarthismo nos EUA: triunfará o golpe de estado (no estilo latinoamericano) de Barack Obama, de Hillary Clinton e do Partido Democrata contra a vitória e a futura presidência de Donald Trump (5)?

NOTAS

1) Macarthismo (em inglês McCarthyism) é um termo que se refere à prática paranóica do senador dos EUA Joseph McCarthy de acusar a determinados  cidadãos  de subversão ou de traição sem provas ou respeito pelas evidências. 

2) Acredito que, para evitar ambiguidades ou qualquer mal entendido, necessitaria  informar aos novos leitores que nunca fui, nem tenho sido eleitor de nenhum candidato do Partido Republicano ou do Partido Democrata. Acredito que, fora das pequenas diferenças superficiais, não existe, no nível fundamental, diferenças significativas entre os dois partidos. Em poucas palavras, tanto Hillary Clinton, do Partido Democrata, quanto Donald Trump, do Republicano defendem integralmente os interesses da plutocracia estadunidense (uma minoria de menos de 1% da população lçcal) e estão a serviço da continuidade do capitalismo imperialista estadunidense. Portanto, não me parece que exista nenhuma solução humana digna para a maioria da população trabalhadora dos EUA ou do resto do planeta. seja com Hillary Clinton ou com Donald Trump. 

3) Dois congressistas estadunidenses acusaram a James Clapper de perjúrio por declarar a uma comissão do Congresso dos Estados Unidos (em março de 2013) que a National Security Agency (NSA) não espionava ou recolhia qualquer dados sobre milhões de estadunidenses. Um senador pediu a sua renúncia, e um grupo de 26 senadores exigiram respostas de Clapper durante um interrogatório. Observadores dos meios de comunicação dos EUA, têm descrito Clapper como mentiroso, por ter mentido sob juramento, ter  obstruída a justiça e ter prestado falso testemunho. Isto pode ser lido no link:   https://en.wikipedia.org/wiki/James_R._Clapper

4) A denúncia de Steve Pieczenik intitulada The Hillary Clinton Takeover of the United States” pode ser vista nas imagens de Youtube.com no link: https://www.youtube.com/watch?v=ov5kvWSz5LM

5) A denuncia de Steve Pieczenik (traduzida do inglês para  a língua portuguesa pelo blog Novas Pensatas),  pode ser acessada no link:

6) Para aqueles que queiram ampliar a informação e os dados  sobre a possiblidade de um golpe de estado nos EUA, vejam o artigo “Constitutional Crisis, Movement to Undermine President-elect Donald Trump’s Accession to the White House?” do professor canadense Michel Chossudovsky que foi publicado por Global Research, em 9 de dezembro de 2016) e  que se encontra no link:
Também existe uma tradução deste artigo para a língua portuguesa com o título de  Crise constitucional e golpe para impedir que Donald Trump chegue à Casa Branca” que se encontra no link:http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/crise-constitucional-e-golpe-para-impedir-que-donald-trump-chegue-a-casa-branca/14122016

Clique para ampliar

domingo, 11 de dezembro de 2016

Pensatas de domingo, ou como conheci Ana Cristina Cesar


A intenção era apenas republicar uma postagem do meu antigo “Pensatas”, de fevereiro de 2007. No entanto eram tantas as necessidades de atualização da obra da autora, que até aproveitei o conteúdo de “Viajando com Ana Cristina Cesar”, mas o reescrevi com dados mais recentes.

Um dia, transcorria o ano de 1990, entra em nossa sala na V&S o Marcos Ferraz, redator que trabalhava comigo, com um livro debaixo do braço. Joga-o apressadamente sobre sua mesa, e vai ao banheiro. Eu vejo a publicação. Tratava-se de uma antologia de Ana Cristina Cesar, poeta brasileira de prim eiro time.
 
Lembrei-me então, que conheci Ana Cristina em 1972. Viajamos juntos para “Beagá”, porque ela era muito amiga da Patrícia, prima da Virgínia, então ainda minha namorada. Lembro-me que fomos de ônibus, e voltamos no meu carro. Às vezes, eu ia a Belo Horizonte, deixava o Fusquinha lá, e voltava de ônibus. Na semana seguinte, fazia o contrário; ia de ônibus e voltava de carro. Isso porque essa maratona de ida e vinda, sozinho ao volante no mesmo fim de semana, era bastante exaustiva.
  
Na ocasião, eu não sabia que ela escrevia (aliás, poucos já o sabiam), que tinha neste particular uma grande atividade. Ana Cristina era muito retraída. Tinha, porém, de timidez, o que possuía de beleza. Esta, suave e também poética. Belos olhos e olhar, complementados por cabelos dourados, levemente cacheados e naturalmente caídos sobre seus belos ombros.
  
Lembro-me que, embora em outra fila do ônibus acordei com ela, debruçada sobre mim, ansiosa para falar com a Patrícia, que estava na poltrona da janela ao meu lado. Era algo sobre uma lente de contato perdida, ou que arranhava... já não me lembro exatamente. Estava um tanto quanto aflita, nervosa, angustiada com o fato. Quase que chorando.
  
Já em Belo Horizonte, saímos todos com ela uma noite, e fomos a um barzinho (acho que o Tom Chopim), para tomar uns “golos”.
  
Vim a saber de sua morte, alguns anos depois, também por intermédio da Patrícia. Ela havia se jogado de uma janela de seu apartamento. Tinha somente 31 anos. Confesso que fiquei extremamente chocado e muito triste.
  
Não conheço muito da sua obra¹, mas confesso que o pouco que li, me agradou sobremaneira. Pesquisando, no entanto, aprofundei o meu conhecimento sobre ela. Em sua breve existência (2 de junho de 1952 a 29 de outubro de 1983), Ana Cristina morou mais de uma vez em Londres, e conheceu diversos países da Europa e da América do Sul, tendo também exercido o jornalismo quando escreveu para algumas revistas e diversos jornais alternativos.
  
Por conta própria, publicou “Luvas e Pelica” e “Cenas de Abril”, entre outros. Fazia parte da chamada “Geração Mimeógrafo”, “Udigrudi” (de undergound) ou “Marginal”, que vendiam seus escritos a percorrer  os bares da vida. Depois publicou um livro sobre literatura no cinema intitulado “Literatura não é Documento”. Ainda participou da antologia “26 poetas hoje” (1976). Deixou poesias, diários, cartas, desenhos e diversas traduções. Suas publicações foram reagrupadas e republicadas em novas edições. Também foram revelados os seus documentos inéditos. Tem trabalhos traduzidos para o espanhol e o inglês.
Ana Cristina Cesar foi a homenageada na 14ª Festa Literária Internacional de Paraty “Flip” 2016. O Antena MEC FM entrevistou a poeta Annita Costa Malufe, que falou sobre a sua participação dentro da programação oficial.
  
Com o título "A teus pés", Annita, Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia se reuniram em uma das mesas do evento e conversaram sobre a influência que a poeta Ana Cristina César tem sobre a poesia contemporânea brasileira, mesmo transcorridos 33 anos de sua morte.

Existem à venda alguns livros com ou sobre suas obras, como “Inéditos e Dispersos”. Documentos e desenhos do período que vai de 1961 a 1983, “Crítica e Tradução”, reunindo “Literatura não é documento”, “Escritos no Rio” e “Escritos em Londres” (póstumos, organizados por Armando Freitas Filho), “Correspondência Incompleta” (organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e Armando Freitas Filho)  “Ana Cristina – Poética” Companhia das Letras, 2013.

Para completar, transcrevo abaixo um poema de sua autoria.
  
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor

1. Não sou muito de ler poesias, fora as de Maiakovisky, Castro Alves, Gonçalves Dias e algumas dela, Ana Cristin Cesar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A burguesia e o pesadelo brasileiro



Publicado neste blogue em 19 de setembro de 2012.

Tem sido tão comum incêndios nas favelas de São Paulo... Curiosamente não as da periferia, mas aquelas bem localizadas no perímetro urbano da cidade. Aquelas que podem gerar um condomínio de bom tamanho para a nouvelle classe moyenne do país.
Enquanto isto, não faltam, neste cenário dúbio os burgueses apologistas do Brasil contemporâneo. É o caso de Nizan Guanaes. Em artigo publicado na Folha de São Paulo nesta terça-feira (18/09/2012), o publicitário tece elogios e defende um tipo de sociedade condenada desde os movimentos ecológicos à notória falta de perspectivas do ponto de vista social e humano.

Exemplos disso em suas próprias palavras:
“(...) Assim como os americanos (sic) se desenvolveram de forma extraordinária a partir dos anos 1950, o potencial de transformação positiva no Brasil hoje com a formação de nossa nova classe média é brutal...”
Brutal mesmo... Mas em outro sentido! O mais grave nesta plataforma é a distorção de valores, objetivos na comparação à sociedade estadunidense, esta comprovadamente doente – até pela existência destes fenômenos sociais – e a defesa de uma classe que nem em classe social se constitui. A chamada “classe” média vem a ser uma “camada social” inexistente como classe, indefinida, oscilante e despersonalizada que vaga pra cima e pra baixo ao sabor das marolas, nas crises do sistema capitalista.
Sim! Sem ela não teria existido o nazismo, o macartismo ou a Marcha da
Família com Deus pela Liberdade!

E continuando: “... Nos EUA dos anos 1950, filmes de Hollywood como comédias de Doris Day e Rock Hudson mostravam a classe média “americana” (sic) ascendente, feliz e confiante com seus carrões na garagem e suas confortáveis residências suburbanas...”
Alem do mais um argumento babaca, pequeno burguês, sentimentalóide... Doris Day e Rock Hudson, Confidências à Meia Noite é meio demais... Por que ele esqueceu do Tony Randall?
Quanto a “... seus carrões na garagem e suas confortáveis residências...” é tudo muito poluitivo, idiota e vazio... Um pensamento tão idiota quanto a existência de um Nizan Guanaes para o futuro da humanidade!

Mais ainda: “... O consumo explodiu. E o consumo é não só um dos pilares da expansão econômica e social, como também uma forma de afirmação cultural. Goste-se ou não, em muitos sentidos, a forma como consumimos é a forma como vivemos. Cada vez mais. Cabe a nós todos, e aos homens e às mulheres de marketing em particular, direcionar esse consumo –necessário, seminal, transformador– para um consumo ainda mais benéfico, sustentável e culturalmente produtivo...”
Claro que como publicitário, Nizan baseia-se no consumismo e no marketing como o eixo central da existência humana... Nada de supreender neste monte de palavras vazias!

“... Tem sido recorrente nas pesquisas o brasileiro sempre se dizer mais otimista com seu futuro pessoal do que com o futuro do Brasil como nação. Talvez o que falte ao sonho do brasileiro seja o sonho brasileiro.” Finalizou o publicitário.
O legado do pensamento patriótico burguês que leva à xenofobia e ao chauvinismo estão na essência deste pensamento em um mero jogo de palavras pretenciosas, mas na verdade, apenas e tão somente “engraçadinhas” ao tentar tocar (subliminarmente) no chamado “american dream”... Na realidade um grande “american nightmare”!
Como o pesadelo brasileiro de cada dia! Este sim, muito real...


Clique na imagem para ampliá-la

domingo, 4 de dezembro de 2016

Pensatas de Domingo. “Elis” o filme, uma tentativa de crítica


Assisti nesta quinta-feira (01/12/16) “Elis” de Hugo Prata, estrelado por Andreia Horta no papel-título.
Este filme tem uma característica que muito me agradou: a ausência de pieguismos num roteiro intensamente dramático. Até o suicídio da personagem, sem dúvida uma cena muito pesada, que até pode levar às lagrimas aqueles que a admiravam muito, é conduzido em um clima, que mesmo triste, não pode ser considerado piegas.

Elis Regina nasceu em Porto Alegre (RS) em 17/03/1945 e veio a falecer em São Paulo (SP) em 19/01/1982), foi uma cantora brasileira conhecida por sua competência vocal, musicalidade, presença de palco, ela é considerada por muitos críticos a melhor intérprete popular do Brasil, dos anos 1960 ao início dos anos 1980. Para muitos, a melhor cantora brasileira de todos os tempos, comparada a destaques internacionais como Ella Fitzgeralld, Edith Piaff ou Sarah Vaughan.
Embora a voz que ouvimos a cantar todas as canções de “Elis” seja da própria cantora, Andreia Horta treinou muito para assumir o gestual da intérprete, sua bossa única e o seu marcante “sambalanço”. Desejava também que as veias de seu pescoço ganhassem o relevo característico de Elis quando cantava.

A película traça a trajetória da cantora, desde a sua chegada ao Rio de Janeiro acompanhada do pai, em 1960, até o dramático fim aos 36 anos de idade (19/01/1982), passando por seus dois casamentos, o primeiro com Ronaldo Bôscoli, em 1967 e posteriormente com César Camargo Mariano no ano de 1973. E teve três filhos, João Marcelo Bôscoli (1970) do primeiro casamento, e outros dois, Pedro Camargo Mariano (1975) e Maria Rita Camargo Mariano (1977) do segundo.
Nesta questão, é focado o temperamento explosivo da “Pimentinha”, como era chamada por muitos, após Vinícius de Morais tê-la apelidado assim por ser baixinha e estourada. Entretanto, no caso de Bôscoli, esses estouros se justificavam devido a suas aventuras extra-conjugais e à pouca atenção dispensada ao filho. Assim o casamento desintegrou-se entre “tapas e beijos”.

Em paralelo, seguia a sua luta por um “lugar ao sol” em disputado mercado de trabalho, à época em que surgiam muitos novos nomes, como Nara Leão, Maísa Matarazzo, Gal Costa, Maria Betânia e outras. E, ao mesmo tempo, apareciam compositores do nível de Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivan Lins ou Geraldo Vandré.
Em 1964, é levada por um conhecido para o “Beco das Garrafas”, então sob a direção de Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, aos quais foi então apresentada. E acompanhada pelo grupo “Copa Trio”, cantava na na boate Bottles, reduto onde nasceu a bossa nova, e conhece o dançarino e coreógrafo estadunidense Lennie Dale, que a ensinou a mexer o corpo para cantar, ajudando-a na criação do famoso nado que ela tinha com os braços.
Em São Paulo participou do espetáculo “O Fino da Bossa” organizado pelo Centro Acadêmico da USP. Ao final do mesmo ano (1964) conheceu o produtor Solano Ribeiro, idealizador e executor dos festivais de MPB da TV Record. Um ano que ainda traria a proposta de apresentar o programa “O Fino da Bossa”, ao lado de Jair Rodrigues.  O programa dirigido por Walter Silva, ficou no ar até 1967 na TV Record (SP) e originou três discos de grande sucesso: um deles, “Dois na Bossa”, foi o “primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias”.

É sábido que Elis Regina criticou muitas vezes a ditadura brasileira, nos repressivos “Anos de Chumbo”, quando muitos músicos foram perseguidos, presos e exilados. A crítica tornava-se pública em meio às declarações ou nas canções que interpretava. Em 1969, durante entrevista na França, teria afirmado que o Brasil era governado por “gorilas”. A popularidade a manteve fora da prisão, mas foi obrigada pelos “milicos” a cantar em um estádio durante as “Olimpíadas do Exército”, fato que despertou desprezo por parte da esquerda brasileira. O filme foca na charge do Henfil no Pasquim que a põe num túmulo.
Mas sempre engajada politicamente, Elis participou de uma série de movimentos de renovação política e cultural brasileira, com voz ativa na campanha pela “Anistia” de exilados brasileiros. O despertar de uma postura artística engajada e com excelente repercussão acompanharia toda a sua carreira, sendo enfatizada por interpretações consagradas de “O bêbado e o equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc, a qual passou a ser considerada como o hino da anistia. A canção coroou a volta de personalidades brasileiras do exílio, a partir de 1979. Um deles, citado na canção, era o irmão do Henfil, o Betinho, importante sociólogo brasileiro, fato qe ajudou na aproximação entre ela e o cartunista.

No seu casamento com César Camargo Mariano houve uma relação, sem dúvida muito menos conturbada, porque ele a amava muito. Mas, naquela ocasião, Elis caiu em profunda depressão, fruto de suas insatisfações com a forma com que era conduzida sua própria carreira, as renúncias que tinha que fazer e as interferências na sua vida particular, o que cerceava a sua liberdade de ser. Após inúmeras tentativas de fazer subir a sua moral, ele separava-se, deixando-a sozinha com seus três filhos, apesar dele não tê-los abandonado¹, como o fizera Ronaldo Bôscoli.

Assim, “Elis” o filme constitui-se numa obra muito segura e bem realizada por Hugo Prata², que, apesar de pouco rodado como diretor conseguiu firmar-se no cenário do cinema brasileiro.

1. César Camargo Mariano é pai de quatro filhos: o músico Marcelo, com a primeira mulher, a cantora Marisa Gata Mansa. Os cantores Pedro e Maria Rita, com Elis; e a caçula Luiza, com a atual esposa, Flávia. Além disso, considera João Marcello, filho de Elis com Ronaldo Bôscoli, como o quinto filho.
2. O diretor Hugo Prata, que tem mais de 60 videoclipes no currículo, fez sua estreia no cinema com “Elis”. Mas foi responsável, em 2008, pelo DVD “Samba Meu” de Maria Rita, filha de Elis. O roteiro foi de Nelson Motta (amigo de Elis) e Patrícia Andrade, de “Dois Filhos de Francisco”, que também escrevem o roteiro de um musical sobre a “Pimentinha” para o teatro.
 
Clique na imagem para ampliá-la

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O “caso” do homem Minister


Antes de iniciar este “causo”, quero contar que nunca, em toda a minha vida, trabalhei em outra atividade que não fosse publicidade. Conheço casos de colegas ou amigos, que, ou por força das necessidades ou por outros motivos foi artista plástico, jornalista ou até vendedor em lojas ou magazines. Havia um diretor de arte português que iniciou sua carreira em publicidade com mais de 40, e faturou dezenas de prêmios por suas criações.

Um dado curioso é que grande parte dos publicitários nas décadas de 1970/80 eram de esquerda, consequência dos “anos de chumbo” da ditadura militar que, em geral oferecia empregos nas áreas de ciências “exatas”, menosprezando as “humanas”, não somente devido à visão tecnocrata para a execução das obras faraônicas cuja finalidade era impressionar a pequena burguesia (hoje chamada de classe média), maravilhada com o “milagre econômico” brasileiro, como também para gerar lucros para as multinacionais que financiaram o golpe de 1º de abril de 1964.

Mas... que tal irmos ao caso:?
 
Quando atendia a conta da Souza Cruz na Salles, lá pros idos dos anos 1980, executávamos jobs para diversas das suas marcas. O Eric Nice era o designer exclusivo de todas as embalagens do fabricante. Nos seus mais de setenta anos, aquele mestre, em sua salinha na Salles/São Paulo elaborava meticulosamente mockups de novas caras para produtos antigos, ou caras inéditas para produtos idem. Era o bam-bam-bam da história. E, tiro o meu chapéu para reverenciar o seu trabalho e a sua memória.

Mas, voltando à vaca fria. À Salles Rio, que na época atendia produtos da Souza Cruz e Brahma, além claro de outras contas como a Sul América Seguros, a Texaco ou o Banco do Brasil, o DNER e a Embratur, isso somente para enumerar algumas das mais expressivas. Ali, fizemos bons trabalhos para diversas marcas da Souza Cruz. Lembro-me de um filme para os cigarros Continental usando aquela música “Eu voltei... porque aqui é o meu lugar... e lá, lá, lá... lá, lá, lá...”, que emocionou o Brasil e decerto marcou presença na história da publicidade neste país.

Mas a Souza Cruz também tinha as suas pedrinhas no sapato. E uma delas era uma marca pioneira em cigarros com filtro, outrora um símbolo de status, e que de repente começava a despencar vertiginosamente em vendas. Lembro-me perfeitamente da primeira reunião que tivemos com o Domingos Logullo (à época o Diretor Nacional de Criação da agência) em que ele falava da necessidade que teríamos de criar uma campanha, para alavancar e reerguer a marca, pois o fabricante não queria desativá-la. Paulistamente falando, uma dupla de criação de Sampa vinha nos “ajudar”. E veio. Prefiro nem citar nomes, pois eram sujeitos do cacête com quem nos demos otimamente, apesar dos sentidos paternal e intervencionista intrínsecos...

O certo é que de imediato começamos a fazer reuniões atrás de reuniões. Longos brainstorms a portas fechadas para achar uma solução. Foram dias, semanas de um esforço em que saíram as ideias mais estaparfúdias e as mais criativas quase que simultaneamente. Um exercício criativo de causar inveja a qualquer Jerry Della Femina¹ da vida.

Mas a coisa alongou-se por este período sem uma solução aparente. Examinando números e o mercado, suas novidades como produtos light e otras cositas más, ficava difícil reerguer a agora condenada e outrora gloriosa marca. Mas, um belo dia, alguém que não me lembro mais do nome, saiu com a ideia do “Homem Minister”. Um fator novo que balançou o coreto. Mas, quem seria este homem? Quais as características que fariam alguém ser o homem Minister?

Depois de muitos vais e vens, de se terem rifado “ene” alternativas, chegamos finalmente a um nome: Tarcísio Meira. Bonitão, ator de novela, comprovadamente “macho”, casado há anos com a Glória Menezes. Por quê não? E ficamos nele. Por unanimidade a agência inteira aplaudiu. Até que um “advogado do diabo”, que também não me lembro o nome, mas que se morreu, com absoluta certeza deve estar ardendo nas profundezas do inferno, levantou aquela lebre: “Mas, e se o cara morre? Afinal ele pode ter um acidente, vive na ponte aérea e blá, blá, blá...”

Assim morreu o “Homem Minister”. E algum tempo depois, a própria marca. Quanto ao Tarcísio Meira, acho que a última vez que foi visto estava vivinho da silva, fazendo um papel em alguma nova novela da vida... Duro na queda, sô!

1. Jerry, considerado nos anos 1960/70 dos mais criativos publicitários da época, foi um dos sócios da “Della Femina Travisano & Partners”, também uma das agências mais criativas dos Estados Unidos, e tinha uma característica ‘sui generis’ em sua forma de atuar, chegando uma ocasião a afirmar que sua agência não aprovaria nada com seus clientes. Estes veriam os anúncios publicados, os filmes no ar, etc. Porque ele acreditava que, por saber o que fazia, o cliente tinha que confiar nele e em sua equipe. E...  fim de papo!

Clique na imagem para ampliá-la