domingo, 30 de novembro de 2008

Países imaginários

Aproveito o domingo para republicar mais uma pensata, esta originalmente postada há pouco mais de um ano, em outubro de 2007.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, desfeito o Império Turco-Otomano, as potências européias apossaram-se de regiões até então quase que desconhecidas para elas. Nesta ocasião foi necessário criar fronteiras para determinar as “colônias” nas áreas recém conquistadas.
Por extrema ignorância histórica, preconceito e prepotência raciais, tais fronteiras foram estabelecidas sem o menor conhecimento de quem as habitavam, seus costumes, etnias e religiões. Anteriormente, os mesmos colonizadores já haviam feito na África subsaariana divisões do gênero, sem o menor estudo de suas tradições, e até suas diversidades culturais e antagonismos. Ao final, juntavam-se povos que anteriormente eram inimigos entre si dentro de uma fronteira criada ao sabor de interesses dos conquistadores. Guerras civis prolongadas e sangrentas, foram a conseqüência mais notada após a independência destes territórios, principalmente a partir da segunda metade do século XX. Angola é um dos exemplos mais evidentes disso.
Conta a lenda que o mapa do Iraque foi traçado em um gabinete na cinzenta, sisuda e distante Londres, usando-se réguas e lápis coloridos, sem a menor compreensão de quem ou porque estava dentro daquelas linhas. E neste caso, três etnias e religiões foram ali colocadas sem a menor possibilidade de permanecerem juntas. Se formos fazer uma análise não tão profunda, o Iraque deveria ser constituido de pelo menos três países. Um xiita, um sunita e um terceiro curdo.
Para nós brasileiros, habituados a uma visão multiracial e multireligiosa, este tipo de pensamento pode parecer absurdo. O problema, no entanto é mais complexo em locais onde as diferenças são milenares e muito mais complexas. Agravando-se o fato de que tenham sido impostas de fora para dentro, ou seja pelos poderes colonialistas.
Por isso, estamos assistindo à invasão pelos turcos (1) do território iraquiano. No caso aos curdos do Iraque, que fazem parte de um grupo étnico que se considera como sendo nativo de uma região referida como Curdistão, e que inclui partes do Irã, Iraque, Síria e Turquia. Além disso, comunidades curdas também podem ser encontradas no Líbano, Armênia e Azerbaijão. Como os Bascos (da Espanha), eles desejam formar o seu país em definitivo. Com fronteiras demarcadas, hino e bandeira. A Turquia, sentindo-se pressionada, chegou ao ponto desta intervenção armada.
Tudo herança direta da imaginação de ingleses, franceses, espanhóis, portugueses e outros povos europeus que acharam que brincar de fazer mapinhas com “inocentes” réguas de madeira não teriam efeitos no futuro.

(1) Esta postagem foi escrita durante uma invasão da Turquia à região curda no Iraque.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Prato feito

A grande imprensa, mormente a televisiva, tem chamado a atenção pelo sensacionalismo. Primeiro foi o “caso Isabela”. Recentemente o seqüestro no ABC paulista. E agora caíram de sola nas inundações em Santa Catarina.
Aí há de se dizer que a função da imprensa é informar. Mas não se trata disso, e sim do teor que dá a essa informação. Vira um assunto quase que único nos telejornais... uma obsessão. Um verdadeiro prato feito para o lado marrom da notícia.
Sente-se no ar um quê de sadismo, de busca do “furo” a qualquer custo, no melhor estilo dos tablóides ingleses. Acho que a imprensa deve ser livre, tem que ser livre. O problema é que ela não nos proporciona liberdade no jogo sujo do sensacionalismo barato.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mais uma do Groucho

Continuando a falar de Marx, o Groucho, republico este artigo que foi anteriormente postado em 3 de agosto de 2007 no antigo “Pensatas”.

Lembrei-me de um livro chamado “Memórias de um pinga-amor”. Um título bem lusitano para um livro também muito engraçado, com ótimas ilustrações a traço em p&b do conceituado cartunista Leo Hershfield. Trata-se de uma publicação da Assírio e Alvim. O original é “Memoirs of a mangy lover”, que em português brasileiro seria algo no gênero de “Memórias de um galinha”.
São cerca de trinta casos curtos, e tem uma nota de introdução bem no espírito sarcástico de Groucho: “Este livro foi escrito durante as horas em que esperei que a minha mulher se vestisse para sairmos. E se ela nunca se tivesse vestido, este livro não teria sido escrito”.Groucho era um individualista ferrenho. Fruto da cultura estadunidense e capitalista, o “bem sucedido” noveau riche, desenvolveu uma filosofia de vida típica de seu tempo. É perdoável, porque a sua contribuição ao lado galhofeiro da vida suplanta tudo isso. O referido livro é composto de cinco partes, mais o prefácio e o epílogo. Os capítulos são: “L’amour, esse folião”, “A história não natural do amor”, “Notas sociais de um pária social”, “Aconteceu a outros oito rapazes” e “A filosofia marxista, segundo Groucho”. É difícil saber qual a melhor.
Eu particularmente gosto demais da terceira em que tece comentários sobre “visitas” e suas conseqüências. Dentro deste capítulo há um que fez-me rir às pamparras. Trata-se do “de como as visitas se despedem”. Groucho, e seu sarcasmo intrínseco tece uma boa dose de tipos que se despedem em festas que é digno de nota. Por exemplo: “a bruxa de meia-idade”, “os visitantes de fim de semana”, “o convidado solitário” ou “o chato que sempre chega muito antes da hora marcada”.
Mas, o melhor de todos é mesmo o tal casal que chegando lá pelas tantas, o marido olha o relógio, dá um salto da poltrona, vira-se para mulher e exclama: “Meia noite! Vamos mulher, tenho uma entrevista logo de manhã cedo...” Naturalmente os anfitriões vão até à porta levá-los para se despedir. Mas aí é que começa o papo. A mulher do sujeito começa a falar sobre um novo método de fazer permanente no cabelo. O visitante começa a contar sobre um plano em que vão construir um lago em sua propriedade para poder pescar à vontade. Resumo da ópera. Na porta de saída a conversa se estende por infindáveis trinta minutos, o vento frio batendo, enquanto lá dentro os demais convidados ficam sem a presença deles. E isso tudo, sem um bom charuto, uma dose de uísque nova, e por aí afora.
Vale a pena procurar por este livro sui generis. Eu o comprei há muitos anos atrás na Livraria Camões, no Edifício Avenida Central. A edição era de 1980. Não sei se houve outras de lá para cá. Mas, num bom sebo deve se encontrar. Vale o sacrifício. Pelas risadas. E pela análise hilariante de uma sociedade do ponto de vista de um Marx. Mesmo que seja o “menos marxista deles” (sic).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Das 1001 Noites...

Todas as vezes que leio ou assisto a algum programa sobre Dubai, claro que me vem à cabeça as 1001 Noites. Aquilo é uma ostentação de “sonhos” e outros badulaques. Ontem mesmo, li a notícia da inauguração de mais um hotel 1001 Estrelas construído numa ilha artificial, com uma festa extravagante de 20 milhões de dólares. Coisa pra Schahriar (1) nenhum botar defeito...

Do outro lado do mundo as 1001 noites vão ficando cada vez mais rasas e mais estúpidas. O affair do ex-marido de Suzana Vieira, que nitidamente procura se promover com os acontecimentos é o cúmulo da sem vergonhice. O sujeitinho invadiu os programinhas baixo astral da Rede TV (e outras emissoras nanicas) ao lado da namorada, a tentar justificar suas atitudes e tirando proveito delas. Lixo... puro lixo!

E já que hoje estamos a falar de lixo cultural: a ex-miss Brasil Natália Guimarães afirmou à edição de dezembro da revista “VIP” que se apaixonou por Leandro do KLB durante um programa “Domingão do Faustão”. E prosseguindo nas 1001 noites tupiniquins, o cantor Falcão não escondeu seu novo amor. Depois de um longo namoro com Deborah Secco e flertes com Maria Rita, Falcão era só afagos com uma loura no show do Skank, no Rio, no último domingo.

Agora falando sério, Pedro do Couto, ontem, na Tribuna da Imprensa fez uma brilhante análise das possibilidades do sr. da Silva na sucessão presidencial. Aponta as alternativas que tem, não somente com Dilma, mas ao lado de José Serra. Eu ainda continuo a acreditar que vai se fazer tudo para que a reforma política possibilite um “Lula 2010” em mandato único de cinco anos. Seriam as 1001 noite do PT, a UDN de tamancos (2). Vamos aguardar!

Estão de vento em popa os planos para a reforma do Porto do Rio de Janeiro. O prefeito eleito da cidade já anunciou que vai despachar ali no início do seu mandato. A construção de um grande shopping e de bares com mesas dispostas de frente para o mar foi anunciada na mesma ocasião. Serão as 1001 noites cariocas...

(1) Schahriar, rei da Persa, vitimado pela infidelidade de sua mulher, a mandou matár e resolveu passar cada noite com uma esposa diferente, que ordenava degolar na manhã seguinte. Ao receber Sherazade, esta iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir a continuação na noite seguinte. Esta Penélope das Arábias, pela ligação dos seus contos, conseguiu encantar o monarca por mil e uma noites, sendo assim poupada da morte.
(2) A UDN (União Democrática Nacional) foi um partido surgido após o Estado Novo, que reunia a aristocracia e a pequena burguesia (leia-se classe média tradicional), de tendência claramente golpista em sua formação. A expressão UDN de tamancos foi de Leonel Brizola.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Palavras de um gênio

Mais uma publicada no “Pensatas”. Mais precisamente em 2 de agosto de 2007. E como estou nesta fase de reeditaro que consider o as melhores postagens, aqui vai.

Sempre fui um grande admirador da figura cômica de Groucho Marx (nascido Julius Henry Marrix), um dos gênios do humorismo no século XX, que ficou famoso por suas frases irônicas. Afirmava numa delas “ser o menos marxista dos Marx”.Juntamente com seus irmãos Chico, Harpo, Gummo e Zeppo*, compôs o grupo que marcou com cenas inesquecíveis em filmes como: Uma noite na ópera, Casa de doidos, Diabo a quatro, No circo e outros.
Invariavelmente Groucho começava seus shows com uma outra frase memorável. Apresentava-se como uma pessoa que veio da Europa para fazer fortuna no novo mundo, e dizia que desembarcara em Nova Iorque, 30 anos antes, sem nem um dólar no bolso. Fazia uma breve pausa encarando o público. Em seguida, retirava do bolso uma moeda, e a exibia com um sorriso: “... agora eu tenho um dólar...”
Mas existem outras frases famosas. Pincei algumas que seguem abaixo:
“Jamais aceitaria pertencer a um clube que me aceite como sócio.”
“Estes são os meus princípios. Se você não gostar, eu tenho outros.”
“Passei uma noite maravilhosa. Mas não foi esta.”
“Bebo para achar as outras pessoas interessantes.”
“Só há uma forma de saber se um sujeito é honesto: perguntando. Se ele responder que ‘sim’, fique sabendo que é um corrupto.”
“Sou tão velho que conheci a Doris Day antes dela ser virgem.”
“Filho, a felicidade é feita de pequenas coisas: um pequeno iate, uma pequena mansão, uma pequena fortuna...”
“Não pense mal de mim, senhorita. Meu interesse por você é meramente sexual.”
“O matrimônio é a principal causa do divórcio.”

(*) Chico e Harpo foram os que mais realizaram filmes com Groucho. Havia um sexto irmão de nome Manfred que morreu ainda na infância.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Democracia e utopia

Republico mais esta postagem do “Pensatas” de março deste ano. Com as recentes eleições nos Estados Unidos ela se torna atual.

Já falei aqui sobre o embuste da “democracia” ocidental. Principalmente nos Estados Unidos, cuja intenção igualitária à época de sua independência em fins do século XVIII – comandada pela então revolucionária burguesia – com o passar do tempo transformou-se num reacionário poder da máquina industrial-financeira, manipulada pela grande mídia. O que existe hoje e de fato é uma “ditadura da burguesia”. Com vícios e contradições semelhantes aos que a história propiciou na prática às teses de Marx (1). Na verdade a livre manifestação de opinião, tão decantada pelo sistema, só existe enquanto essas opiniões não ameaçam verdadeiramente a manutenção do status quo. Tudo é aparência, tudo um jogo de propaganda que visa enganar o cidadão comum, dando-lhe a sensação de estar vivendo uma situação democrática.
A origem da definição de demokratia (democracia) é encontrada em Aristóteles no seu livro Politica. Na Grécia antiga talvez tenha funcionado, mas daí em diante as tentativas foram desastrosas. Tanto na França pós-queda da Bastilha quanto nos EUA e outros países da Europa, as “aventuras” redundaram em fracassos, que, em grande parte das vezes culminaram em regimes totalitários, como foram os exemplos da própria França revolucionária a qual sucedeu o império napoleonico, quanto mais recentemente o da República de Weimar na Alemanha, em que uma constituição considerada das mais democráticas de todos os tempos deu lugar ao governo nazista.
No entanto a grande maioria dos países nunca conseguiu alcançar nem mesmo a farsa democrática. Na América ibérica, não indo muito longe, no Brasil, democracia (mesmo em arremedo) é uma realidade que jamais conhecemos. Falam em prosa e verso que vivemos um período democrático, mas, na verdade nossa tradição de excessões vem desde os tempos da colônia (2) e impede que alcancemos ao menos uma encenação (como a estadunidense). No império ela era um “teatro mambembe” em que somente votavam a nobreza e as classes dominantes em partidos que também as defendiam. A história de república é uma sucessão de votos de “bico-de-pena”, levantes e golpes militares, além de longos períodos de ditadura explícita.
Enquanto isso, os estadunidenses tentam impor à força das armas o que “pensam” ser um pensamento democrático em países como o Iraque ou o Afeganistão, que nem sabem o seu significado e teriam que procurar seus próprios caminhos para alcança-lo. Na realidade, tão utópica quanto o socialismo, a democracia ainda é um sonho a ser alcançado pela humanidade. Talvez um dia, se resistirmos à destruição do planeta, que nós mesmos estamos ajudando, conseguiremos chegar lá. E digo isso porque democracia e socialismo são metas a serem alcançadas em um conjunto de “liberdade, igualdade e fraternidade”. Um conceito inexiste sem o outro.

(1) O termo “ditadura do proletariado” não significava em suas origens a ditadura de um só partido, mas uma forte presença revolucionária para extinguir o poder das diferenças sociais geradas pela exploração ao longo de séculos. O que aconteceu na URSS foi a instalação de uma ditadura de partido único que burocratizou, corrompeu e apodreceu o regime.
(2) No Brasil Colônia eram proibidos tanto o ensino universitário quanto a imprensa. Somente a vinda da família real portuguesa – que transformou este país tropical na sede do reino – possibilitou uma abertura para o ensino e a publicação de livros e jornais.

domingo, 23 de novembro de 2008

Pensata para mais de um domingo

Estava ontem a pensar em Belo Horizonte e nos seus bares, seu chope cremoso, talvez o melhor do Brasil. Aí lembrei de um desses bares. Um que inclusive originou a “Pensata de Domingo VI” postada em 11 de março de 2007. Saí procurando em meus backups, encontrei e resolvi republicá-la. Segue, portanto:

O Lucas. Sem dúvida, um dos melhores bares e/ou restaurantes de Beagá. E olha que essa é uma cidade de muitos e bons bares e restaurantes.
Um lugar ambíguo, de um lado é barulhento, do outro tranqüilo. Coisas de bons botequins. Afinal, muita gente enche a cara ali, e acaba falando alto demais. O importante é o clima, poder-se-ia dizer que o “astral” de um bar você sente logo ao entrar. É algo que está mesmo no ar. Tem bar que é lindinho, faz de tudo para agradar o freguês, mas, na hora “agá”, não convence. Fica faltando alguma coisa.
Já o Lucas consegue manter a tradição na noite de Belo Horizonte há cerca de quarenta anos. E é tido como o Lamas mineiro. Sim, porque tem as mesmas características do afamado similar carioca. É um paraíso para os boêmios porque fica aberto até altas horas da madrugada. Tinha um garçon, o Seu Olympio (1), antigo militante comunista, que andava com um broche do “Che” na lapela, e, com mais de oitenta, ainda trabalhava.
Os pratos mais solicitados são o filé à surprise e o espaguete à parisiense. Mas tem também uma truta bem saborosa, e bons tira-gostos, além das torradas de entrada, que são fininhas, amanteigadas. Muito boas.
Conheci este local na década de oitenta, a primeira vez em que trabalhei naquela cidade. Tenho um grande amigo, o Luís Márcio Vianna, que era (e ainda é) freqüentador assíduo. Volta e meia a gente pensava em ir a algum lugar e, se houvesse alguma dúvida ou hesitação, ele logo sugeria o Lucas. Assim, eu fui lá até pra curar ressaca com a excelente canja que eles servem.
Além disso, fiquei apaixonado pelo bar. Da última vez que fui fazer um trabalho em Beagá, em maio de 2004 (2), acabei indo lá três vezes. Uma vez com o Maurilo, um amigo meu, quando fomos conversar sobre a contratação dele para um trabalho que eu estava a realizar e duas vezes sozinho. Jantar, só para matar as saudades.
Conclusão. Se você for a Belo Horizonte não pode deixar de conhecer o Lucas. Uma casa imperdível!

(1) Seu Olympio faleceu em 2003.
(2) Agora é a penúltima, pois a última foi este ano. Não poderia deixar de ir ao Lucas, mas, desta vez fui só uma vez. Infelizmente!