domingo, 8 de dezembro de 2013

Degustatas de domingo



Tenho falado ao longo dos tempos neste blogue, da culinária portuguesa. Acho que complementar uma boa refeição com um vinho adequado é uma forma de degustar qualquer prato. Os vinhos portugueses, além de serem reconhecidamente de boa qualidade, teem regiões demarcadas que veem a ser um conjunto de áreas que produzem vinhos com características específicas, obtidos de uvas provenientes de castas colhidas naqueles locais. Apesar de serem produzidos em todo o pais, as principais regiões demarcadas são as do Douro, do Dão, da Bairrada e dos Vinhos verdes. Vamos falar um pouco de cada uma delas.

O Douro produz o famoso vinho do Porto. Suas origens remontam a séculos de cultivo e fama, além de ser uma região belíssima em que os vinhedos são localizados em encostas às margens do rio do mesmo nome. Conheci bem esta área, pois, muito próxima à cidade do Porto, passei por ela inúmeras vezes em passeios ou até mesmo a trabalho. Aliás, viajar pelas estradas que acompanham o belo rio é uma experiência gratificante que recomendo a qualquer um que tenha a oportunidade de fazê-lo. O Douro foi a primeira região vinícola demarcada em Portugal.

O clássico vinho do Porto tinto é conhecido e tido como um dos melhores digestivos do mundo. Mas há também o branco, igualmente muito saboroso e que deve ser tomado como aperitivo, e que os portugueses até acompanham em refeições. São diversas as marcas deste precioso vinho. Porém o mais curioso é que as suas caves estão localizadas na cidade de Vila Nova de Gaia, que fica bem em frente à cidade do Porto, separada apenas pelo rio Douro, num trecho bastante estreito.

Os vinhos da região do Dão, são vinhos de mesa maduros bastante conhecidos no Brasil. O Dão é produzido na região que também é cortada pelo rio do mesmo nome, além de outro muito conhecido em Portugal de nome Mondego. É uma região bastante montanhosa, bem próxima à serra da Estrela. Suas marcas mais difundidas são Grão Vasco e Duque de Viseu, ou o Aliança Garrafeira Grão Tinto, mas eu recomendo o Reserva Dão Tinto. Um vinho inesquecível. São todos de primeira qualidade para acompanhar uma boa refeição.

Também assim são os vinhos da Bairrada, região bem próxima ao Porto, indo em direção a Coimbra e que é famosa pelo seu leitão, muito semelhante ao nosso à pururuca. Vinhos excelentes, cultivados em um delicioso clima temperado, e que também são exportados para todo o mundo, tendo sua qualidade reconhecida em larga escala. Há um que conheço, o Angelus. Vale a pena provar. Não são tão difundidos no Brasil quanto os Dão, mas podem ser encontrados aqui com certa facilidade, em casas especializadas.

E o vinho verde? Este sim, um vinho autenticamente português. Uma verdadeira exclusividade daquele país. E, por sinal, delicioso. Deve ser servido com a garrafa em rápido movimento ascendente em relação ao cálice para que possa borbulhar e liberar alguns gases. É uma operação difícil, mas ao final de algum tempo de treino dá certo. É produzido no extremo norte de Portugal, no Minho, uma das áreas mais lindas e verdes daquele pais. O seu nome, deve-se ao fato de ser pouco maturado, tornando-se assim o oposto dos vinhos maduros. Mas, suas uvas excelentes propiciam um sabor e leveza fora de série. Os vinhos verdes são os meus preferidos. Pena que por aqui o mais famoso deles não é um dos melhores. O Casal Garcia é considerado por lá apenas razoável, sendo os mais apreciados o Quinta do Azevedo, o Gazela, o Quinta de Aveleda ou o Loureiro, somente para citar alguns. Na verdade, existe uma infinidade de outras boas marcas que podem ser encontradas no Brasil.

Isto feito, podemos sentar à mesa, fazer um bom brinde e saborear o melhor dos pratos...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Uma despedida...



Homenagem a este homem, que foi, antes de mais nada, uma unanimidade na luta pela igualdade e a liberdade!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Pensatas de domingo, o papa e a falência do capitalismo




No documento "Evangelii Gaudium”, lançado esta semana, o papa Francisco pediu uma renovação na Igreja Católica, chamou o capitalismo desenfreado de uma "nova tirania" e pediu aos líderes mundiais que combatam a pobreza e o crescimento desigual. 
  
Anteriormente, em setembro, o mesmo papa Francisco já havia criticado duramente o modelo econômico capitalista em discurso de improviso feito em Cagliari, capital da Sardenha (Itália), a um grupo de 20 mil trabalhadores. Segundo o Papa “a economia não pode se basear no deus chamado dinheiro”. O pontífice comentou as taxas de desemprego e pediu aos fiéis que lutem por trabalho.
  
A instabilidade criada pela irresponsabilidade do sistema financeiro dos EUA se alastrou pelo mundo a partir de 2007 e afeta toda a economia mundial. Durante algum tempo tentaram de todas as formas subestima-la, como se não passasse de um desequilíbrio restrito a um setor, mas hoje ninguém duvida da sua gravidade econômica e sistêmica.
   
Tanto que a mais oportunista instituição da história, a igreja católica romana, que sobrevive por tantos séculos adaptando-se a mudanças sociais e políticas inevitáveis, já prepara uma estratégica virada anti-capitalista.
  
É evidente que a atitude do papa salienta que o sistema capitalista aprofunda a sua crise econômica com uma tambem profunda crise moral. Uma crise que já está levando a direita mundial, particularmente a estadunidense a taxar Francisco de “comunista”.
  
Por muito menos do que isso, João Paulo I foi, segundo grande parte das fontes, assassinado, Daí, fica a pergunta no ar: até quando dura Francisco no poder?

domingo, 24 de novembro de 2013

Pensatas de domingo




Podemos afirmar que os antigos dirigentes do PT até 2005 (quando foram afastados em virtude do escândalo do “Mensalão”) se degeneraram bem antes do início do governo Lula, e que, de “socialistas” não tinham mais nada há algumas décadas.
Dirceu se integrou ao regime da ”democracia” burguesa no Brasil (em pleno governo do general Figueiredo), quando a partir de 1979 na companhia dos sindicalistas do ABC, fundou o PT rejeitando a tese Marxista do socialismo científico, advogando a implantação do social reformismo no país para executar as “reformas necessárias” para desenvolver um capitalismo mais dinâmico e “avançado socialmente”.
Genoino rompeu com o PCdoB em 1980, após participar da guerrilha do Araguaia, para empreender a fundação do PRC que viria a se dissolver no PT no início da década de 1990 como tendência “Democracia Radical”. O projeto programático do PRC nunca foi revolucionário, apesar da formalidade nominal, quando ganharam a prefeitura de Fortaleza em 1985, elegendo Maria Luiza (que depois viria a romper com Genoino) e governaram para favorecer os empresários locais.
Mas se Dirceu e Genoino já há muito tempo não representam os interesses sociais do proletariado, executando no governo central do PT uma plataforma neoliberal em sintonia com as oligarquias dominantes, nem por isso “merecem” ser encarcerados pelo principal foco da reação política no Brasil, a fascistizante aliança entre o Partido da Imprensa Golpista (PIG) e os sinistros ministros do STF. Se foram presos, e isto deve ficar absolutamente cristalino, não foi em função do crime de corrupção, no caso específico do “Mensalão” cobrança de comissões de grandes empresas prestadoras de serviços para o estado desviadas para o “caixa 2” do PT, foram submetidos a este dantesco circo midiático da reação em razão de seu passado, e o mais importante, para depurar o PT e ajudar a impor no partido uma nova direção totalmente “afinada” com o governo Dilma.
Não é demais lembrar que Dirceu seria o candidato do PT à presidência da república em 2010, quando foi “abatido por fogo amigo” na crise do “Mensalão”. Agora as hienas do PIG comemoram as prisões dos dirigentes do PT como um símbolo no marco histórico da “moralidade pública”, como se não fossem apenas uma quadrilha de corruptos e sonegadores associados aos piores traficantes e bandidos capitalistas deste país.
Na verdade, porem, Dirceu, Genoino, etc, veem a ser mesmo presos políticos deste regime, uma “democracia” dos ricos, que assim como o antigo regime militar é apenas a forma política como se apresenta institucionalmente a ditadura do capital.
E o “Mensalão mineiro”, bem como o do “Propinoduto” Tucano, como é que ficam?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desamericanizar¹ o mundo




Noam Chomsky
* Tradução para o espanhol de Jorge Anaya para Rebelion
Publicado em Brasil de Fato


Durante o mais recente episódio da farsa de Washington que deixou o mundo atônito, um comentarista chinês escreveu que se os Estados Unidos não podem ser um membro responsável do sistema global, talvez o mundo deva se separar do Estado pária que é a potência militar reinante mas que perde credibilidade em outras áreas.
A fonte imediata do desastre em Washington foi a virada acentuada à direita dada pela classe política. No passado, os Estados Unidos foram descritos, com algum sarcasmo, mas não de forma imprecisa, como um Estado de um partido único: o partido dos negócios, com duas facções chamadas republicanos e democratas.
Não mais. Ele continua a ser um Estado de partido único, mas agora tem uma única facção, os republicanos moderados, chamados Novos Democratas (como a coalizão no Congresso os designou): não é uma organização republicana, mas há muito tempo abandonou qualquer pretensão ser um partido parlamentar normal. O comentarista conservador Norman Ornstein, do American Enterprise Institute, descreveu os republicanos atuais como “uma insurgência radical, ideologicamente extremista, que zomba dos fatos e acordos e despreza a legitimidade de sua oposição política”: um perigo grave para a sociedade.
O partido está em serviço permanente para os muito ricos e o setor empresarial. Como não podem ganhar votos com essa plataforma, se viram forçados a mobilizar setores da sociedade que são extremistas, pelos padrões mundiais. Insanidade é o novo padrão entre os membros do Tea Party e vários outros grupos informais.
establishment republicano e seus patrocinadores corporativos esperavam usar esses grupos como um aríete no ataque neoliberal contra a população, para privatizar, desregular e limitar o governo, mantendo as áreas que servem à riqueza, como as forças armadas.
Ele teve algum sucesso, mas agora descobre, para seu horror, que não pode controlar as suas bases. Assim, o impacto sobre a sociedade do país torna-se muito mais grave. Um exemplo é a reação contra a Affordable Care Act e o desligamento virtual do governo.
A observação do comentarista chinês não é totalmente nova. Em 1999, o cientista político Samuel P. Huntington advertiu que, para a maior parte do mundo, os Estados Unidos tornaram-se “a superpotência desonesta”, sendo vistos como “a principal ameaça externa às sociedades”.
Nos primeiros meses da presidência de George Bush, Robert Jervis, presidente da Associação Americana de Ciência Política, alertou que “aos olhos de grande parte do mundo, o Estado primordialmente desonesto hoje são os Estados Unidos”. Tanto Huntington quando Jervis advertiram que tal rumo é imprudente. As consequências para os Estados Unidos podem ser danosas.
Na edição mais recente da Foreign Affairs, a publicação líder do estabilishment, David Kaye examina um aspecto da forma como Washington se separa do mundo: a rejeição de tratados multilaterais “como um esporte”. Explica que alguns tratados são rejeitados de imediato, como quando o Senado “votou contra a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2012 e o Tratado de Proibição de Testes Nucleares, em 1999”.
Outros são descartados por falta de ação, incluindo as relativas a questões como direitos trabalhistas, econômicos ou culturais, espécies ameaçadas de extinção, poluição, conflitos armados, a preservação da paz, armas nucleares, direito do mar e discriminação contra as mulheres.
A rejeição das obrigações internacionais, escreve Kaye, “tornou-se algo tão arraigado que os governos estrangeiros já não esperam a ratificação do Washington ou a sua plena participação nas instituições criadas pelos Tratados. O mundo segue adiante, as leis são feitas em outro lugar, com participação limitada (se houver) dos Estados Unidos”.
Apesar de não ser nova, a prática tornou-se mais acentuada nos últimos anos, juntamente com a aceitação silenciosa dentro do país da doutrina de que os Estados Unidos têm todo o direito de agir como Estado pária.
Para tomar um exemplo típico, há algumas semanas as forças especiais dos EUA sequestraram um suspeito, Abu Anas Libi, nas ruas de Trípoli, capital da Líbia, e levaram-no a um navio para interrogá-lo sem permitir a presença de um advogado nem respeitar seus direitos. O secretário de Estado John Kerry disse a repórteres que a ação foi legal porque estava de acordo com as leis estadunidenses, sem causar maiores comentários.
Os princípios só são valiosos se são universais. As reações seria um pouco diferentes, é inútil dizer, se as forças especiais cubanas sequestrassem o proeminente terrorista cubano Luis Posada Carriles em Miami e o levassem à ilha para interrogá-lo julgá-lo de acordo com as leis cubanas.
Apenas os Estados desonestos podem cometer tais atos. Mais precisamente, o único Estado desonesto que tem poder suficiente de agir com impunidade, nos últimos anos, para conduzir ataques a seu critério, para semear o terror em grandes regiões com ataques de drones e muito mais. E para desafiar o mundo de outras maneiras, por exemplo, com o persistente embargo contra Cuba continuar, apesar da oposição do mundo inteiro, fora Israel, que votou com seu protetor quando as Nações Unidas condenaram o bloqueio (188-2) em outubro passado.
Pense o mundo o que pensar, as ações americanas são legítimas porque assim dizemos que são. O princípio foi enunciado pelo eminente estadista Dean Acheson, em 1962, quando instruiu a Sociedade Americana de Direito Internacional de que não há impedimento legal quando a América responde a um desafio ao seu “poder, posição e prestígio”.
Cuba cometeu um crime quando respondeu a uma invasão dos EUA e, em seguida, teve a audácia de sobreviver a um ataque orquestrado para trazer “os terrores da Terra” para a ilha, nas palavras de Arthur Schlesinger, assessor de Kennedy e historiador.
Quando os Estados Unidos conquistaram a sua independência, procuraram juntar-se à comunidade internacional de seu tempo. Assim, a Declaração de Independência começa expressando preocupação em relação ao “respeito decente pelas opiniões da humanidade”.
Um elemento crucial foi a evolução de uma confederação desordenada para uma “nação unificada, digna de celebrar tratados”, de acordo com a frase da historiadora diplomática Eliga H. Gould, que assistiu às convenções da ordem europeia. Para obter esse status, a nova nação também ganhou o direito de agir como quisesse na esfera doméstica. Assim, poderia agir para se livrar de sua população indígena e expandir a escravidão, instituição tão “odiosa” que não poderia ser tolerado na Inglaterra, como decretou o ilustre jurista William Murray em 1772. A avançada lei inglesa foi um fator que levou a sociedade proprietária de escravos a sair do seu alcance.
Ser uma nação digna de ratificar tratados conferia, portanto, muitas vantagens: o reconhecimento externo e a liberdade para agir sem interferência no seu território. E o poder hegemônico traz outra oportunidade, a de se tornar um Estado pária, que desafia livremente o direito internacional enquanto enfrenta crescente resistência no exterior e contribui para a sua própria decadência, com as feridas que inflige a si mesmo.

1. O termo “desamericanizar” (eu teria usado “desestadunizar”) veio no original do documento.

Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no MIT, em Cambridge, Massachusetts, EUA. Seu livro mais recente é o Power Systems: Conversas sobre revoltas democráticas globais e os novos desafios à Empire EUA. Entrevistas com David Barsamian (Conversas sobre revoltas democráticas no mundo e novos desafios para o império dos Estados Unidos).