domingo, 8 de janeiro de 2012

Pensatas de domingo. Criatividade com simplicidade. Capítulo/Paulinho Costa



Publiquei esta postagem no meu blogue “Casos” da Propaganda em 02/12/2011. No entanto, sinto necessidade de republicá-lo aqui em defesa de seu autor, meu grande amigo --infelizmente falecido-- Paulinho Costa, pois circula por aí que oportunistas reivindicam exclusivamente para si a autoria; excluindo e/ou omitindo o nome de Paulinho das fichas técnicas. Conversando outro dia com sua viúva, ela confirmou esses rumores.

O jingle reproduzido acima foi criado para o (hoje extinto) Banco Nacional. E foi um grande sucesso. Durante muitos anos marcou a presença daquela instituição nas casas dos telespectadores durante as festas natalinas. E existe um grande recall dele até hoje.
Aliás, o criativo que o bolou, foi um dos melhores e mais competentes do Brasil em todos os tempos. No entanto conheci poucas pessoas tão discretas quanto Paulo Cezar Costa, o Paulinho Costa, ou simplesmente Paulinho para os mais chegados.
A começar pela razão (muito rara) de ter tido apenas três empregos em cerca de 40 anos de sua trajetória na publicidade: a JMM, a McCann-Erickson e a VS. Enquanto a gente pulava de emprego em emprego numa época em que as propostas choviam em “nossa horta”, Paulinho ficava quieto no seu canto... Criando, criando e criando. Sempre criando! Era desses de madrugar na agência...
Na JMM, para alem de tantas outras peças como esta marcante do Banco Nacional, ainda foi a imagem do “Retrato do dono” (1) inserido no cartão do banco. Dali foi para a McCann, onde, como Diretor de Criação foi o autor da frase “Coca Cola é isso aí”, que simplesmente rodou o mundo todo, traduzido para dezenas de línguas. E esta frase foi uma das que mais marcaram ao longo da comunicação daquele produto.
Foi um dos primeiros a chegar na VS, lá pelos idos de 1982... E um dos últimos a sair quando a casa fechou as portas em 2006. Mas ali deixou o slogan da Veja: “Indispensável”, um dos melhores e mais simples conceitos criativos que jamais conheci. Fiz parceria com Paulinho durante mais de cinco anos e sei do seu valor. Quando o Caio Domingues faleceu ele, sacou um título memorável (reprodução ao lado) que eu tive a honra de leiautar. A propósito, Caio era conhecido pelo seu temperamento cordial, finíssima educação e bondade..
É bom que se conheça um pouco da história de um dos maiores criativos (embora completamente low profile) da publicidade deste país.

1. Quando o Banco Nacional lançou o seu cartão, o particularizou como o único com o retrato do correntista que ajudava a identificar seu proprietário e o slogan: “O cartão com retrato do dono”. Pois bem, imagem era do Paulinho.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Algumas poesias do Sr. Personna


Segundo sua própria definição: Lucas C. Lisboa "é um poeta da cidade de Belo Horizonte com forte inspiração Oulipista, que escolheu trabalhar tendo como norte a Literatura Potencial por enxergar nela uma forma alternativa à ditatura corrente do verso livre.

Se Italo Calvino lhe serve como esteio ideológico ao trabalhar a forma e a estrutura de seus versos é com Florbela Espanca, Glauco Mattoso, Marina Colasanti, Augustos do Anjos e Mário Quintana que se inspira  para compor em sua temática que se baseia em explorar os sentimentos humanos mais obscuros aliado à uma atmosfera que flerta com o onírico, o mitológico e os contos de fadas.

Formado em Filosofia pela UFMG escolheu a poesia como seu meio de expressão principal pois crê em Marcuse quando diz que a poesia torna possível o que já se tornou impossível na prosa da realidade”

Leia a seguir poesias de Lucas:

Poeme-se
Poesia nas praças,
becos e avenidas.
Poesia pra ser
cantada e vestida!

Poeme-se a rua
de pedras floridas
Poeme-se os carros
em lenta corrida

Poema é um nada
lotado de tudo

Poema é piada
de choro profundo

Poema é estrada
correndo pro mundo

Coração Mineiro
Bom dia belo horizonte!
Bom dia minas gerais.
Pra minha terra de amantes.
Meus suspiros e ais!

O Homem de preto disse não à poesia
Nos trilhos do metrô Eu fui barrado
disseram-me: poesia não tem vez
sem um certo papel protocolado
vai embora poeta d'uma vez!

Sim, eu assino sou muito culpado
de não aceitar a insensatez
de ver o verso meu ser censurado
por ganância de pura estupidez

Eu só lhe digo: Ei seu segurança
porque estraga a leitura dos viajantes
que liam-me com sorrisos em seus rosto?

Sei que só querem que eu siga sua dança
de querer coisas bem desimportantes
sem magia, sem lirismo, só desgosto!

A moça desnuda
no degrau da escada
de joelhos chora
a morte amada
que veio sem demora

E mais... Muito mais em
http://srpersonna.blogspot.com/

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Golpe de Estado contra a democracia


Vacilante, a democracia faz triste figura e tende a naufragar; em pano de fundo, um bipartidarismo institucionalizado ao serviço dos credores.

Jérome Duval 
Transcrito de Controvérsia (1)
A austeridade contra a democracia
Toda a Europa caminha para uma mesma política de austeridade desejada pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu. Apesar de o exemplo grego provar que a austeridade não funciona (pelo menos para a população grega), quando finalmente se abrem as urnas de voto, são aplicadas as mesmas políticas, seja quem for o eleito. O povo já nada escolhe. A política económica é tecida de antemão pelos credores, como na Irlanda ou em Portugal, na véspera das eleições. A Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) impõe suas políticas; ao candidato vencedor nas eleições cabe aplicá-las, enganando o eleitor sobre alguma inexistente diferença entre os partidos, em matéria de economia.
Na Espanha, Mariano Rajoy, herdeiro de Aznar, não se atreveu a divulgar as futuras medidas de austeridade, que lhe prejudicariam a campanha eleitoral. Mal acabou de ser eleito, ainda a ser pressionado para revelar a composição do seu governo e antes mesmo de tomar posse, ei-lo já a reunir com os grandes banqueiros espanhóis - Isidro Fainé da Caixa, Francisco González do segundo banco espanhol, o BBVA, e Rodrigo de Rato, presidente do Bankia e ex-director geral do FMI... Os grandes bancos credores da dívida espanhola seguram as rédeas, Mariano Rajoy gesticula.
Trata-se sem qualquer dúvida de uma ditadura que se vai impondo, como na Grécia, onde a extrema direita fascista (partido Laos) se imiscui no poder, sem mandato recebido das urnas. Entretanto assistimos ao licenciamento de responsáveis políticos que, em vez de serem julgados pelas suas políticas antissociais, as quais jamais mencionaram nos programas eleitorais, são salvos da vingança do povo, depois de terem feito o trabalho sujo. Aconteceu com Berlusconi, que encontrou uma saída airosa, apesar de muitos, com certeza, preferirem vê-lo atrás das grades pelo muito que fez sofrer o povo, condenado também a reembolsar todo o dinheiro que desviou e roubou do contribuinte italiano.
   
Banco Central Europeu, Itália, Grécia, a dança das cadeiras dos ex-responsáveis da Goldman Sachs
   
Um paladino da privatização, à testa do Banco Central Europeu
Custe o que custar, incluindo sacrifícios humanos inauditos, a ideologia capitalista ávida de lucros reforça sua dominação em toda a Europa. Durante o mês de novembro de 2011, muitos responsáveis pela débâcle financeira europeia foram empossados, mesmo sem terem sido eleitos. Mario Draghi acaba de ser nomeado para o Banco Central Europeu; Lucas Papadémos caiu de pára-quedas na chefia do Estado grego; e Mario Monti substitui formalmente um Berlusconi já excessivamente impopular para dirigir a Itália. Nenhum desses personagens jamais recebeu um voto, nenhum se comprometeu a cumprir um programa, nada de campanha eleitoral que permitisse discussão ou debate. Mas sobre cada um deles pesa uma parte da responsabilidade pela crise que pretendem resolver, nomeadamente por terem feito parte da atmosfera sulfurosa do banconorte-americano Goldman Sachs, rei das burlas astronómicas. Mario Draghi, enquanto vice-presidente europeu do Goldman Sachs Internationale, Lucas Papadémos, enquanto presidente do Banco Central da Grécia, e Mario Monti, enquanto conselheiro internacional do Goldman Sachs, todos três provocaram, em diferentes graus, a crise europeia, ajudando a falsificar as contas da dívida grega e especulando sobre ela. Carregam pesadas responsabilidades na criação da crise em curso na Europa; por isso, deveriam ser demitidos dos cargos que ocupam e responder pelos seus actos perante a justiça.
   
Na Grécia, o falsificador das contas apresenta-se para saneá-las
Apesar de ter tentado a todo custo manter-se no poder e adiar as eleições gerais, motivo pelo qual propôs um referendo ao povo grego, que clamava pela sua demissão, Georges Papandreou teve de curvar-se sob pressões que vinham de todos os lados, até de dentro de seu próprio governo. Não esqueçamos que um mês apenas depois de Papandreou ter sido eleito em outubro de 2009, Gary Cohn, número 2 de Goldman Sachs, desembarcou em Atenas, acompanhado de investidores, entre os quais John Paulson, que reaparecerá no centro do que ficou conhecido como "o escândalo Abacus"...
Favorito do mundo dos negócios, dos banqueiros e parceiros internacionais, Lucas Papadémos deixa a vice-presidência do Banco Central Europeu para tornar-se novo primeiro-ministro da Grécia, sem ter sido eleito. Foi presidente do Banco Central Grego entre 1994 e 2002 e, nesse cargo, participou da operação de adulteração das contas perpetrada por Goldman Sachs. Note-se que o gestor da dívida grega é um tal Petros Christodoulos, ex-corretor do Goldman Sachs.
Já não cabe duvidar da perda de soberania da Grécia: no seguimento das missões periódicas da Troika (BCE, CE, FMI) que visitavam os ministérios na capital, haverá agora uma missão permanente, domiciliada em Atenas, para implantar, controlar e supervisionar a política económica do país. O governo que se porte bem! Para melhor firmar o jugo, a Troika prevê um novo plano de endividamento, uma vez que o primeiro memorando (cerca de 110.000 milhões de euros, em maio de 2010), anticonstitucional, pois não foi aprovado pelo Parlamento, não foi totalmente reembolsado. A garra da dívida fecha-se inexoravelmente sobre o povo grego.
   
Na Itália, depois de uma década de decadência da democracia, o conselheiro da Coca Cola aplica o golpe de misericórdia
Ao longo de quase nove anos na presidência do Conselho, o império Berlusconi, terceira fortuna da Itália, marcou profundamente a vida política. O seu reinado marca a decadência e a agonia de uma democracia exaurida. Coberto de ridículo pela imprensa internacional graças aos seus casos de alcova, soterrado sob histórias infindáveis de corrupção e com a popularidade em queda livre, Berlusconi renuncia à presidência do Conselho, dia 12 de novembro de 2011, para não ter de convocar eleições antecipadas. No dia seguinte, o presidente italiano Giorgio Napolitano nomeia o ex-comissário europeu Mario Monti para que assuma imediatamente. Poucos dias antes, dia 9/11/2011, Napolitano já nomeara Monti senador vitalício. Monti obtém larga maioria na Câmara de Deputados no dia 18/11/2011 (556 votos contra 61, de 617 votantes). Sem se intimidar ante o cúmulo de funções, já primeiro-ministro, autonomeia-se também ministro da Economia. Mario Monti não tem qualquer legitimidade para impor qualquer política de austeridade aos italianos. Houve um putsch!
Conselheiro para negócios internacionais do Goldman Sachs desde 2005 (na qualidade de membro do Research Advisory Council do Goldman Sachs Global Market Institute), Mario Monti foi nomeado comissário europeu para o mercado interno em 1995, depois comissário europeu para a Concorrência em Bruxelas (1999-2004). É presidente da Universidade Bocconi em Milan, membro da direcção do poderoso Clube Bilderberg, do think tank neoliberal Bruegel fundado em 2005, do præsidium Friends of Europe, outro influente think tank com sede em Bruxelas, e conselheiro da Coca Cola. Em maio de 2010, chegou à presidência do departamento Europa da Trilateral, um dos mais poderosos cenáculos da elite oligárquica internacional.
Como escreveu Giulietto Chiesa no jornal de esquerda Il Fatto Quotidiano, veio para "reeducar" os italianos na religião da dívida. Dentro do governo cercou-se de banqueiros; o seu ministro dos Assuntos Estrangeiros, Giulio Terzi di Sant’agata, foi conselheiro político da OTAN, antes de ser embaixador em Washington. Para rematar, um novo superministério encarregado do Desenvolvimento Económico, da sInfraestruturas e dos Transportes foi entregue a Corrado Passera, PDG do banco Intesa Sanpaolo.
Por todos os lados, os interesses privados da oligarquia financeira ultraconservadora e amiga de Washington estão postos acima e antes dos interesses das populações. Esses governos fantoches obedecem aos diktats da finança, forçando os cidadãos a pagar uma dívida injusta pela qual não são responsáveis e que jamais lhes valeu qualquer benefício. A salvação só poderá vir de baixo. Façamos nossa a palavra de ordem dos gregos: "Não devemos, não vendemos, não pagamos!
   
Coletivo de tradutores Vila Vudu, revisto por Rui Viana Pereira
   

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Um poeta de metrô...


Juro que a primeira pessoa que lembrei foi de Ana Cristina Cesar (1) que começou seu breve porém marcante percurso na poesia brasileira vendendo impressos, então “mimeografados” nos bares da vida.
Mas encontrei Lucas C. Lisboa num vagão de metrô já meio vazio, tipo 10 e meia da noite vendendo seus livretos xerografados com oito páginas (incluindo capa e contra capa).  Chamaram-me a atenção o fato dele ser mineiro de Beagá e citar Marcuse, o mais novo da Escola de Frankfurt (2) de quem sou admirador incondicional.
Consegui bater um papo com ele sobre o seu trabalhoe Marcuse, sabendo na ocasião, ser blogueiro e estar no FaceBook.

1. Leia em “Viajando com Ana Cristina Cesar” publicado neste blogue em 20/11/2008.
http://novaspensatas.blogspot.com/2008/11/viajando-com-ana-cristina-csar.html

2. A “Escola de Frankfurt” (Frankfurter Schule) foi o movimento mais importante da esquerda Materialista Histórica no Século XX, e, ao lado de Trotsky opôs-se ao “mecanicismo vulgar” do pensamento de Marx, proposto pelo stalinismo. Participarem desta corrente, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Erich Fromm e Herbert Marcuse entre outros que estiveram no “Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt” (Institut für Sozialforschung) fundado por Carl Grünberg em 1923, como um anexo da Universidade de Frankfurt.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tempo, espaço, tempo



Quando postei “Movimento” em 7 de janeiro de 2008 (1), tentava reconstruir por lembranças um capítulo de ‘Tempo, espaço, tempo’, romance que comecei a escrever em 1967 e nunca terminei. Depois, remexendo em meus alfarrábios, encontrei os manuscritos originais. Segue abaixo um trecho de algumas das 151 páginas que cheguei a esboçar mas nunca consegui costurar...

E naquele emaranhado de pessoas com os rostos enfaixados, eu continuava a correr sem saber para onde. Uma profunda angústia era tudo o que sentia. Não podia me comunicar com ninguém. Eram inatingíveis, indecifráveis. Eu podia cogitar que fosse alguém, mas nunca afirmar com quem iria falar. E em meio a pensamentos confusos eu tentava encontrar alguém que ainda pudesse ter um rosto, alguém que pudesse distinguir. Um ser humano, como eu!”

Para Antônio, Cléia não era somente a prostituta que satisfazia na cópula necessária à fúria de sua virilidade juvenil. Cléia, era sim, a mulher e o amor. A madrugada e a alcova. A carícia e o beijo apaixonado.
“Não consigo admitir esta idéia. Cléia foi para mim o despertar de um novo dia. Foi o amor total e completo, sem preconceitos, sem meios termos. Eu amei Cléia porque ela era uma flor no deserto da minha vida”.
– Será que um dia vamos viver juntos... e seremos felizes?
Cléia esboçou um sorriso. Seus belos olhos negros e brilhantes irradiavam alegria e esperança, mas também desconfiança e tristeza.
– Eu te quero, querido, eu... te quero... quero muito! Sussurou, com os lábios colados ao seu ouvido.
Ela deixava-se enlevar em seus braços, entregando-se por completo. Cléia era meiga. Seu corpo moreno e jovem... lindo, sua voz, suave. Seus longos cabelos desciam docemente, brilhando por ombros delicados, enlouquecendo Antônio, que a queria. Cabisbaixo, pensativo, Antônio não respondeu, ficando a fita-la, pensativo. Pensava o quanto a amava. Mas o quanto desejava que ela mudasse de vida.
Cléia, compreendendo o seu silêncio, deixou as lágrimas escorrerem de seus olhos. E chorou por um longo tempo nos braços de seu amado. Naquela noite não houve sexo. Apenas o tocar delicado em carícias, o respirar, o sentir um ao outro. O deitar a cabeça nos ombros... o consolar.

A verdade é que depois daquela noite, Antônio nunca mais viu Cléia. Por força das circunstâncias teve que sair às pressas. Mais uma vez. Para ele, fugir era uma rotina, um pesadelo sem fim, desde que tudo começara.

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“As ondas eram enormes. E eu no topo delas, podia ver o mundo abaixo de mim, os prédios, as pessoas pequenininhas, perdidas na imensidão, a meus pés, esperando o espatifar de todo aquele colossal acúmulo dágua.”

No canto da pequena sala, uma mesa tosca e uma vela, personalidades no ambiente do “aparelho”. Não eram apenas objetos, mas personagens que quase falavam e participavam.
Sentado na cadeira, estava Simão, o livro embaixo do braço e batendo ininterruptamente sobre a madeira da mesa. De vez em quando dava uma olhadela no relógio, franzia a testa e suspirava, demonstrando impaciência.
A luz da vela iluminava o ambiente de forma curiosa. Sua própria chama projetava sombras em movimento, mudando de intensidade de acordo com o vento que soprava da janela entreaberta. E nela, Josias olhava a sua própria, com os olhos meio cerrados. Ação essa que de tempos em tempos também era interrompida por uma consulta ao relógio.
– Eles não vêm mais! Exclamou levantando os braços e em seguida baixando-os para bater nas coxas enquanto levantava.
– É melhor que fique quieto... Interceptou Antônio em tom grave. – ...afinal, isso tudo pode ser uma cilada!
– Ele é um contato de confiança! Respondeu Josias indignado.
– Ninguém é de confiança... pôrra! – Simão estava sério e olhava em torno. – Ele tem razão. Disse apontado para Antônio. – Temos que prever tudo, companheiros. Não podemos estar sendo levados por fatores emocionais em momentos com este. Temos que manter a cabeça fria.
O silêncio pairou sobre a pequena sala por algum tempo, até que Antônio o interrompeu.
– Eles marcaram às oito, não foi?
Josias balançou a cabeça afirmativamente, voltando a vista para Antônio que estava sentado no chão fumando um cigarro.
– Já passam quinze minutos! Exclamou Simão levantando-se impaciente. – Não podemos tolerar um atraso desses! E as normas de segurança?
– Pode ter sido um acidente.
Josias estava nervoso. Sua expressão era de insegurança começando a beirar o medo.
– É... se fosse uma cilada... eles já teriam chegado e...
– E nós... Interrompeu Simão fazendo um gesto com o dedo na garganta, como que sendo cortada.
Fez-se um instante de silêncio profundo.
– Como foi a venda do jornal? Perguntou Josias tentando quebrar o gelo.
– Farei o relatório na reunião de amanhã, companheiro. Respondeu Antônio secamente.
Mais um momento de silêncio.
– Vamos esperar até as oito e trinta. Asseverou Simão.
Antônio bateu os punhos na mesa e respondeu:
– Decidido!
A sala testemunhava novamente. Por mais cinco minutos de espera. A eterna espera dos que não vêm, às vezes nunca se sabe por quê. As quedas, os companheiros que partem e não se sabe se voltam. Mas sempre com um sorriso nos lábios, uma missão a cumprir, um objetivo a seguir. As malas, os pacotes, os ônibus, as estradas sem fim.

“No fundo acaba sendo uma rotina. A gente vai... da primeira vez é difícil, da segunda, um pouco mais fácil. Daí em diante. Bom, daí em diante mais fácil ainda. Temos que estar convencidos da importância de cada viagem dessas. Um profissional se entrega a essa vida. Pela vida e pela morte. Não podemos estar deformados pelos vícios e pieguices da pequeno-burguesia, recalcada e sem perspectiva histórica.” Antônio recordava do ônibus rodando na estrada, na noite silenciosa. Pela fresta da janela via os faróis dos carros e caminhões que passavam em sentido contrário.

– Os cinco minutos já se passaram. Falou bruscamente Simão, interrompendo os seus pensamentos e apontando para o relógio.
– Vamos embora... – respondeu Antônio decidido ­– Amanhã nos encontramos no outro aparelho... quem sai primeiro?

A rua, grande e espaçosa. O burburinho de pessoas passando pra lá e pra cá. E no meio delas, Antônio, de mãos no bolso, cigarro na boca, também andando pra lá e pra cá.

1. No antigo "Pensatas" que escafedeu-se nas brumas da internet...

Nota: Os manuscritos encontrados eram rascunhos do livro. Eu havia batido à máquina uma boa parte dele, mas, infelizmente não sei onde foi parar. O texto acima foi revisado, tendo sido alteradas algumas expressões e palavras.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Minhas Pensatas dos outros...

Imagem da matéria do Controvérsia

 “Os Estados Unidos contra todos” foi transcrito de Controvérsia (1):

Immanuel Wallerstein (2)

Houve um tempo em que Estados Unidos tinham muitos amigos, ou pelo menos seguidores relativamente obedientes. Hoje em dia, parece que não têm nada além de adversários, de todas as cores políticas. E parece que o país não vai muito bem na disputa com seus antagonistas.
Veja o que aconteceu em novembro de 2011 e tem acontecido na primeira metade de dezembro. O país sustentou divergências com a China, Paquistão, Arábia Saudita, Israel, Irã, Alemanha e América Latina. E não se pode dizer que deu-se bem em nenhuma das controvérsias.
O mundo interpretou a presença e os anúncios do presidente Barack Obama na Austrália como um desafio aberto à China. Ele disse ao Parlamento australiano que os Estados Unidos estão determinados a “alocar os recursos necessários para manter nossa forte presença militar na região”. Para finalizar, Washington está instalando 250 marines na base aérea australiana em Darwin — no futuro, possivelmente poderá aumentar o número para 2.500.
Essa é apenas uma de muitas jogadas similares que se executam no tabuleiro da exibição militar. Enquanto os Estados Unidos saem (ou são forçados a sair) do Oriente Médio, por razões tanto políticas como financeiras, estendem seus músculos em direção à região da Ásia-Pacífico. A estratégia seria viável, diante da urgente demanda por redução os gastos — mesmo com o exército — e da crescente relutância dos norte americanos em relação ao envolvimento do país em questões externas? Até agora, a “resposta” da China tem sido virtualmente a não resposta. É como se os governantes chineses soubessem que o tempo está ao lado de seu país — mesmo em suas relações com os Estados Unidos, ou especialmente nas suas relações com os Estados Unidos.
Há, também, o Paquistão. Os Estados Unidos lançaram os desafios: Islamabad deve acabar com os movimentos islâmicos. Deve parar de tentar sabotar o governo de Hamid Karzai, no Afeganistão. Deve parar de ameaçar a Índia com ações militares na Caxemira. Se não… o quê? Eis o problema. Ao que parece, pelos documentos que vazaram, os Estados Unidos acreditavam que o último amigo que lhe sobrou no Paquistão — o atual presidente Asif Ali Zardari —poderia demitir o líder do exército, o General Ashfaq Parvez Kayani. Como resposta, o General Kayani articulou para que Zardari realizasse tratamento médico em Dubai, nos Emirados Árabes. O potencial golpe arranjado pelos Estados Unidos falhou. E, se Washington tentar retaliar a manobra paquistanesa cortando ajuda financeira, sempre haverá a China, para tomar seu lugar.
No Oriente Médio, o que Obama mais quer é que nada dramático aconteça entre Israel e os palestinos até, pelo menos, sua reeleição. Isso não satisfaz realmente as necessidade da Arábia Saudita ou do primeiro ministro israelense, Benyamin Netanyahu. Por isso, do ponto de vista norteamericano, ambos estão procedendo de maneira a fazer marola. E os Estados Unidos estão muito mais numa posição de implorar a judeus e sauditas do que comandá-los ou controlá-los.
Ainda na Ásia, há o Irã, supostamente a principal preocupação imediata dos Estados Unidos — e também da Arábia Saudita e Israel. Washington está usando seus aviões supersecretos não tripulados (os chamados drones) para espionar os iranianos. Nada surpreendente, exceto pelo fato de que, ao que parece, e de algum modo, um desses drones pousou no Irã — eu digo “pousou” porque a questão crucial é como e por que pousou.
A CIA, dona do avião, diz de maneira pouco convincente que o incidente deveu-se a alguma falha mecânica. Os iranianos, por sua vez, insinuam que derrubaram o drone com um ataque cibernético. Os Estados Unidos garantem que não, que seria “impossível” — mas Debka, a voz da internet israelense, diz que é verdade. Eu acredito que seja provável. Além disso, agora que os iranianos têm o avião, estão trabalhando em desvendar todos seus segredos técnicos. Quem sabe? Eles podem publicar esses segredos para que o mundo todo saiba. E então, quão secretos serão os drones supersecretos?
Ah, sim, a Alemanha. Como todos sabem, existe uma “crise” na zona do euro. E a chanceler alemã Angela Merkel tem trabalhado duro para que os países da zona do euro comprem uma “solução” que irá funcionar para ela — tanto politicamente, dentro da Alemanha, quanto economicamente, na Europa. Merkel tem pressionado um novo Tratado Europeu que iria impor automaticamente sanções aos países signatários que violem suas disposições.
Os Estados Unidos pensaram que essa seria uma abordagem equivocada. Para Washington, trata-se de uma ação de médio prazo que não resolveria imediatamente o problema financeiro da Europa. Obama enviou ao Velho Continente seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, a fim de insistir em suas sugestões alternativas. Os detalhes não importam, nem qual é a melhor opção. O importante é notar que Geithner foi totalmente ignorado e os alemães conseguiram o que queriam.
E, finalmente, os países da América Latina e do Caribe se encontraram na Venezuela para estabelecer uma nova organização: a Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos (CELAC). Todos os países americanos assinaram o tratado, exceto os dois que não foram convidados — Estados Unidos e Canadá. A CELAC foi desenhada para suplantar a Organização dos Estados Americanos (OEA), que inclui os Estados Unidos e o Canadá, e que suspendeu Cuba. Pode levar algum tempo até que a OEA desapareça e que somente a CELAC permaneça. Ainda assim, não é exatamente algo que Washington esteja celebrando.

Tradução: Daniela Frabasile


2. Immanuel Wallerstein é professor sênior do Departamento de Sociologia da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Seu site é www.iwallerstein.com

domingo, 1 de janeiro de 2012

pensata sem pontuação nem maiúsculas especialmente para o primeiro domingo do ano


daí pensei em escrever uma pensata no estilo de minha ex-colega e linda amiga da v&s gisela campos que escreveu seu primeiro livro bill e a máquina do tempo que eu tenho com bela dedicatória e que me encantou porque não tinha pontuação nem maiúsculas e constituía-se num texto corrido em que o pensamento fluía sem cessar e eu a homenageio aqui muito embora eu não soubesse se ia dar certo comigo mas mesmo assim tentei e é bom lembrar que logo depois do momento em que acabara de rever acossado de godard o seu filme mais linear e objetivo porem mesmo assim de uma densidade dramática e simbólica que me faz considerar a sua melhor realização em que me encanta a imagem da beleza afrodisiaca de jean seberg e seu olhar cheio de brilhos o seu cabelo curtinho o seu sorriso e ainda continuei me lembrando que anteontem havia revisto deus e o diabo na terra do sol e ontem terra em transe de glauber sem dúvida o maior gênio que brasil quiçá latinoamérica deu ao cinema e que consequentemente me fez pensar na loucura deste país e na corrupção política e então encontrei a imagem acima que reflete o lixo decadente do poder burgues e a nojeira do congresso com sarney e sua camarilha à frente de uma instituição apodrecida e cínica a ponto de desafiar a dignidade do próprio povo que os elegeu e que eles não representam porque só querem mesmo é se arrumar hehehe como diria aquele velho personagem do chico anysio ou do jô soares não me lembro quem exatamente nesse instante e aí então continuei a pensar c’os meus botões se deveria pontuar mas achei que não devia e que isso tudo era a consequência de um raciocínio dialético e extenuante mas que chegaria ao ponto que eu queria que era o de publicar não tudo porque é meio impossível mas o que me vinha vindo à cabeça em lampejos nos primeiros instantes do primeiro domingo de 2012 e que aproveito para esquecer 2011 porque quero dar um xô nesta porra deste ano em que perdi meus pais no espaço de pouco mais de um mês alem de mais alguns parentes queridos incluindo o meu cunhado irmão da vi que nos deixou aos 64 anos cheio de vida e alegre e querido por todos...
ufa!

gisela campos nasceu no rio de janeiro em 1969 e foi graduada em jornalismo em 1992 completando o mestrado em literatura brasileira no ano de 1995 com uma investigação sobre a experiência mística em adélia prado mas já havia lançado o seu primeiro livro “bill et la machine du temps” em 1992 que foi traduzido e publicado no brasil em 1993 como “bill e a máquina do tempo” tendo em 1996 lançado “as boas vindas” e em 2000 publicado “as idéias todas” e gisela foi tambem quem me proporcionou publicar em jornal um texto no caderno de turismo do jornal do brasil quando foi editada uma matéria minha sobre a cidade do porto onde eu havia morado por três anos