terça-feira, 10 de maio de 2011

Teses e provas sobre o pensamento de Trotsky


Os diversos textos abaixo são muito importantes para que se entenda a principal teoria de León Trotsky, a “Revolução Permanente” e como ele estava correto em suas críticas a Stalin. A capa acima foi uma publicação minha quando o “Marxists Internet Archives” (MIA) ainda não havia traduzido o livro para o português, como seguem nos trechos do primeiro capítulo abaixo.
É conveniente lembrar que as situações citadas pelo autor referem-se às condições e conflitos históricos da época, finais dos anos 1920, início dos 30.

(...) A teoria da revolução permanente exige, na atualidade, a maior atenção da parte de todo marxista, uma vez que o desenvolvimento da luta ideológica e a da luta de classe fez o problema sair definitivamente do domínio das recordações de velhas divergências entre os marxistas russos, para apresenta-lo em ligação com o caráter, os laços internos e os métodos da revolução internacional em geral...
...Quaisquer que sejam as primeiras etapas episódicas da revolução nos diferentes países, a aliança revolucionária do proletariado com os camponeses só é concebível sob a direção política da vanguarda proletária organizada como partido comunista (1)...
... A revolução socialista não pode realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de as forças produtivas por ela engendradas tenderem a ultrapassar os limites do Estado nacional. Daí as guerras imperialistas, de um lado, e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta...
... Com a criação do mercado mundial, da divisão mundial do trabalho e das forças produtivas mundiais, o capitalismo preparou o conjunto da economia mundial para a reconstrução socialista (2)...
... A teoria do socialismo num só país, brotada no estrume da reação contra Outubro, é a única que se opõe, de maneira consequente e definitiva, à teoria da revolução permanente.
Ao tentarem os epígonos, compelidos pela crítica, limitar à Rússia a aplicação da teoria do socialismo num só país, por causa de suas peculiaridades (extensão territorial e riquezas naturais), as coisas só fazem piorar, em lugar de melhorar. A renúncia à atitude internacionalista conduz, inevitavelmente, ao messianismo nacional, isto é, ao reconhecimento de vantagens e qualidades peculiares ao país, capazes de lhe conferir um papel que os demais países não poderiam desempenhar.
A divisão mundial do trabalho, a subordinação da indústria soviética à técnica estrangeira, a dependência das forças produtivas dos países avançados em relação às matérias primas asiáticas etc., etc., tornam impossível a Construção de uma sociedade socialista autônoma e isolada em qualquer região do mundo...
... A teoria do nacional-socialismo degrada a Internacional Comunista, que fica reduzida ao papel de arma auxiliar na luta contra a intervenção armada. A política atual da Internacional Comunista, o seu regime e a escolha dos seus dirigentes correspondem perfeitamente à sua decadência e transformação num exército de emergência, que não se destina a resolver, de maneira autônoma, as tarefas que se lhe apresentam...
... O programa da Internacional Comunista, obra de Bukhárin, é eclético do princípio ao fim. É uma tentativa desesperada de ligar a teoria do socialismo num só país ao internacionalismo marxista, que não pode, entretanto, ser separado do caráter permanente da revolução mundial (3). A luta da Oposição de Esquerda por uma política justa e um regime são na Internacional Comunista indissoluvelmente ligadas à luta por um programa marxista. A questão do programa, por sua vez, é inseparável da questão das duas teorias opostas: a teoria da revolução permanente e a teoria do socialismo num só país (4). O problema da revolução permanente já ultrapassou, há muito tempo, o limite das divergências episódicas entre Lênin e Trotsky, inteiramente esgotadas pela história. Trata-se, agora, da luta entre as idéias fundamentais de Marx e de Lênin, de um lado, e o ecletismo centrista, de outro lado.

1. À época ainda era o partido que, na concepção de Trotsky deveria comandar a revolução mundial.

2. O próprio Marx havia dito isto numa etapa anterior do capitalismo. Trotsky a repetiu, mas hoje isso está mais claro ainda.

3. Note-se a visão internacionalista de L. T. quanto à revolução que se oponha ao poder burguês, este sim em contradição com a globalização.

4. A história contou o que aconteceu ao stalinismo e sua política suicida e irresponsável de “construir o socialismo num só país”...

domingo, 8 de maio de 2011

Pensatas de domingo. Lembranças de uma Bahia que não existe mais

Vista da Praça Castro Alves em finais dos anos 1960
Outro dia li que Salvador alcançou o lugar de terceira cidade mais populosa do Brasil, e juro que fiquei preocupado com o fato, pois é muito divulgado que a violência tem crescido assustadoramente na Bahia.
Bahia. Assim, nós baianos sempre nos referimos á capital do estado do mesmo nome. Não sei como a população que migrou de outros locais do Brasil se refere a ela. Mas nós, da terra, creio que continuamos a falar desta forma. É como uma marca registrada, uma prova de identidade de maior valor do que qualquer documento legal. O resto talvez fale Salvador mesmo, atraídos pelo Carnaval “massificado” e descaracterizado de hoje.
Mas a questão é que ao ler a tal notícia, passei a lembrar-me dos bons tempos que passei na “boa terra” nos idos dos 1960, quando ainda estudante, viajei diversas vezes àquela cidade. Isto devido ao fato que minha família tem muitas ramificações por lá. E houve ocasiões em que até me transferia e estudava lá.
Amava andar pelas ruelas tortuosas da velha Bahia, com menos de um milhão de habitantes, pois naquela época a população devia beirar, no máximo os 700 mil habitantes. E as pessoas ainda habitavam a cidade velha, os bairros de Nazaré, Saúde, Piedade, Canela, Graça e tantos outros. O que facilitava a andança, pois se descia de um lado e subia-se do outro cortando caminho pela Avenida J.J Seabra, a famosa Baixa do Sapateiro. Pituba? Era um bairro longínquo e meio desabitado onde se podia contemplar em passeios uma curiosa casa no formato de um navio...
Quantas e quantas vezes, meus primos e eu saíamos do bairro de Nazaré –onde morava praticamente a família toda– e íamos assistir um filme no “Tupi”, no “Excelsior”, no “Tamoio” ou no “Guarani” a pé? Ou mais ousadamente, mas também andando chegávamos ao Corredor da Vitória para, no ICBA (instituto Cultural Brasil Alemanha) rever obras de arte importantes em filmes do expressionismo alemão! Mas muitas das vezes íamos mesmo ao “Nazaré”, cineminha de bairro, com aquele cheiro característico dos cinemas de bairro, que Walter da Silveira transformou em Cinema de Arte.
E perigo? Não havia algum. Trafegávamos as ruas desertas e por vezes estreitas sem a menor preocupação com algum assalto ou qualquer outra forma de violência. Até porque diversas daquelas noites voltávamos bastante tarde para casa; como nas noites em que íamos aos bailes em clubes ou às casas noturnas da cidade, estudantes duros que éramos, apenas por farra, já que não tínhamos nada para gastar.
Hoje, no entanto veem de lá as mais graves informações de violência que a classificam como uma das cidades recordistas na área em nível nacional. Ficam as boas saudades daqueles tempos ingênuos em que nos domingos pela manhã folheávamos os jornais locais em busca de uma “pré estréia” às 10 da matina dos filmes que passariam na semana seguinte. Em seguida íamos comprar o “Correio da Manhã” em frente ao Elevador Lacerda, pois os jornais do Rio e São Paulo só chegavam à Bahia depois do meio dia.
Recordações que nunca morrem...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pausa para a contemplação


Uma cidade linda, linda, linda mesmo!
Publiquei esta postagem em junho de 2009, e hoje lembrei-me tanto de Vigo na Galícia, uma das baías mais bonitas que jamais conheci, de um azul indescritível... Um lugar que se deve conhecer porque vale a pena!

Conheci bem a Galícia (que os lusos chamam de Galiza). Sua proximidade com a cidade do Porto nos empurrava atrás de um modo de vida más caliente bem pertinho de nós. Gostava muito de Portugal, mas, sem dúvida nenhuma, para nós brasileiros, a Espanha tem um “agito” com o qual nos identificamos; que nos agrada e encanta.
De todas as cidades galegas, a que mais vezes fomos foi Vigo. Primeiro porque sua beleza natural é inconfundível. E em seguida porque íamos ao Consulado português onde corriam os nossos processos de legalização da permanência em terras de Portugal. Ficávamos sempre no Hotel Compostela – bem próximo ao centro da cidade –, ao lado do ancoradouro de barcos e iates. Algumas vezes ficamos em um quarto no último andar (uma água furtada), e, pela manhã, as gaivotas nos acordavam com sua agitação matinal. Lindo... de ver e ouvir!
Mas, Vigo tem também uma baía muy hermosa. Quando se atravessa a exuberante ponte pênsil na autorota, o visual é de um azul profundo, e o mar repleto de barcaças, também repletas de frutos do mar. Vigo é um dos maiores centros produtores dos crustáceos e moluscos de toda a Espanha. Surpreendentemente a melhor paella à valenciana que eu comi foi lá, e não em Valencia.
No entanto, não é somente a baía de Vigo que é tão bela assim. Todo o litoral galego é esplendoroso. Sua costa é um privilégio dos que a habitam e dos que a conhecem. E o interior? O verde, tão raro em outras regiões de uma Espanha semi-árida, compensa-se por inteiro na Galicia. Aliás, uma característica de todo o norte daquele país, o que inclui tambem a região Basca e o Principado de Astúrias.
Santiago de Compostela e La Coruña também são cidades imperdíveis. Apesar do “fanatismo” e do “esoterismo” (1) religiosos, Santiago, como contraponto é um importante centro universitário e suas ruelas antigas respiram cultura e saber. O mais impressionante é que você pisa em um solo onde tantas gerações pisaram, estudaram, aprenderam, ensinaram. Amadureceram conhecimento humano e lógico, filosófico e matemático... A outra, em galego “A Coruña”, é também uma cidade abençoada pelos deuses. Somente a Torre de Hércules, monumento romano do século I, inteirinha até hoje, prova sua importância histórica.
A música é outra característica marcante da Galicia. Seu ritmo lembra a melodia irlandesa, característica, sem dúvida, da presença céltica em ambos os países. A gaita de fole, muito semelhante à usada pelos escoceses tem um som que nos envolve por completo. E, finalizando, a Fala (2), o que mais nos aproxima do galego. A Fala é muito mais próxima do português que do castelhano. Mujer é mulher. E, curiosamente trocam o “J” pelo “X” . Como Ximenes, ao invés de Jimenes. Ou Xunta de Galicia, ao invés de Junta de Galicia.
Assim é a Galícia. Um pedaço da Espanha que nós tivemos a oportunidade de conhecer muito bem. E deixou saudades; numa verdadeira paixão pelo calor do seu povo amável, que nos marcou o coração, ou pelas paisagens que ficaram gravadas em nossas retinas. Para sempre.

(1) É bom lembrar que Paulo Coelho (o picareta que deu certo) escreveu sobre o conhecido caminho de Santiago e começou a sua grande decolagem como “fenômeno literário” a partir daí.

(2) O galego é uma forma evoluída do galego-português (cujas origens remontam ao século IX). Com algumas influências do castelhano e umas poucas formas e traços próprios não existentes em português, alguns da língua original que desapareceram do português contemporâneo, outros fruto da evolução do próprio galego. Existem todos os anos encontros e comemorações da “Fala”, em que se apresentam intelectuais, poetas, cantores e compositores brasileiros, portugueses e de outros povos que teem o português como língua oficial.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quem matou Osama? O fim da farsa...


Segundo matéria publicada na Folha de São Paulo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta 4ª feira ao programa "60 minutes", da rede CBS, que não vai divulgar as fotos do líder da Al-Qaeda morto. "Osama bin Laden não é um troféu. Ele está morto e vamos focar agora em continuar a lutar até que a Al-Qaeda seja eliminada", declarou.
"Os riscos da divulgação superam os benefícios", disse Obama, no programa exibido na noite desta quarta-feira. "Imagine como o povo americano reagiria se a Al Qaeda matasse um de nossos soldados ou líderes militares e colocasse a foto do corpo na internet", continuou em sua mise-en-scene.
Os EUA enfrentam uma grande polêmica sobre a forma com que Bin Laden foi morto. A Casa Branca afirma que não tinha como objetivo primário matar Bin Laden, mas o argumento fica cada vez menos crível. Pressionado por repórteres, o governo afirmou nesta terça-feira que Bin Laden não estava armado --o que deixou espaço para especulações de um assassinato ao estilo execução.
Mas o “xis” da questão e o mais factível é que Osama já estivesse morto, mas eles ainda não tinham provas palpáveis disso. Provavelmente encontraram os restos mortais algures, comprovaram ser o dele e resolveram encenar toda esta “presopopéia” apenas para divulgar que matarem o guerrilheiro. Em outras palavras, Osama não poderia ter tido uma morte por outras causas que não fossem as da “justiça” ianque...
Coisas do “faroeste” ainda reinantes na mitologia (1) daquele país.

1. Mitologia em que os “heróis” foram assassinos profissionais ou exterminadores de índios e búfalos. E as heroínas, prostitutas de “Saloons”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Quem matou Osama?


O anúncio da morte de Osama Bin Laden deixou no ar muitas suspeitas de uma história mal contada e cheia de “arapucas”. Creio que não somente eu, mas grande parte das pessoas deve ter achado estranho o fato de o corpo do Inimigo nº 1 da burguesia estadunidense (e mundial) ter sido jogado ao mar. Por que? Algum novo ritual no “islamismo”? Duvido porque os ianques não iriam respeitar, já que são “cristãos”! Ou mataram um outro, por engano, e desapareceram com ele para não deixar provas? Pouco provável. Ou ainda: Osama morreu antes, de outras causas, talvez naturais, faz algum tempo e só agora souberam, Como Obama tinha que cumprir o juramento de vingança feito por Bush, aí simularam toda esta farsa e se livraram dos restos para não deixar provas? Acho de todas a mais verossímel.
Mas ainda é um pouco cedo para se provar alguma delas ou outras hipóteses que surjam. O certo é que há algo de estranho no ar. Mas que poderá ser elucidada por uma nova gravação do “finado” ou por alguma coisa que aconteça por aí que deixe a sua marca, nem que morto esteja.
No entanto, lembrou-me uma postagem intitulada “Osama, de herói a bandido”, publicada no antigo “Pensatas” em 2007, e republicada neste “Novas Pensatas” em 12 de novembro de 2008, focada num filme de James Bond (1987), direção de Jonh Glen, com suas ações estratégico-militares no Afeganistão que veem bem a propósito. Reproduzo abaixo apenas a parte que fui direto ao assunto:

(...) Em 007 – Marcado para a Morte (The Living Daylights), o agente britânico, estrelado por Timothy Dalton, encontra um personagem de nome Kamran Shah - interpretado pelo ator Art Malik - que vem a ser uma alusão, a nada mais nada menos do que Osama Bin Laden.
Kamram (leia-se Osama) é apresentado como o “herói” simpático e amigo, com as mesmas artimanhas que hoje são execradas, à época exaltadas ao extremo. Ou seja, aquele que se esconde nas montanhas, combate os “comunas maus” - devoradores insaciáveis de criancinhas - nas estepes e montanhas do Afeganistão. Em outras palavras um autêntico mocinho ou “bom da fita”.
É divertidíssimo ver todas essas contradições, observá-las ao vivo e a cores.
Até porque ela é verdadeira. Bin Laden, como Shah foi criado pelas potências capitalistas. Foi também desenvolvido e estimulado, em sua guerra de guerrilhas, contra o agressor estrangeiro, no caso a União Soviética. Seria um terrorista? Claro que não! Terroristas são somente aqueles que estão do lado de lá da cerca.
Por exemplo: quando os israelenses atacam a população civil palestina, incluindo crianças, não estão cometendo um ato terrorista. Estão sim a se defender dos “terroristas” árabes. Idem quanto às tropas dos Estados Unidos quando perseguem e matam no Iraque civis inocentes. Não, nada disso é terrorismo!
A visão maniqueísta incutida pela grande mídia em todo o mundo “ocidental cristão” é de que as “forças do bem”, façam o que fizerem, farão sempre “boas” ações isentas de qualquer tipo de maldade ou segundas intenções. Nem o lucro desenfreado inerente ao sistema, nem a necessidade de defender os interesse petrolíferos dessas potências. Isso passa batido, ninguém menciona.
Contrariamente, toda e qualquer coisa que atinja os “bons samaritanos” é obra da maldade, da perversidade, do terror. Inclusive as que partem de Osama Bin Laden. Ou melhor dizendo Kamran Shah.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Perigoso marginal armado

Ilustração de Gabriel Ferreira para o livro
Este conto faz parte do livro “Memorial da Ilha e Outras Ficções” de autoria do professor Jorge Moreira editado em 2007.

Num sábado ensolarado, minha mulher, minha filha de 2 anos e eu estávamos em roupa de banho preparados para ir à praia de Pituassu, a 200 metros à frente da nossa casa. Pouco antes de sair, percebemos que já não temos gás para cozinhar no fim de semana. Sabendo que o caminhão da companhia não distribui combustível nos sábados e domingos, decidimos, antes da praia, passar na companhia e comprar um bujão.

Entramos no Volkswagen laranja e ligo o carro. Saio dirigindo e tomo a avenida Antônio Carlos Magalhães. Na banca de revistas, paro e compro o Jornal do Brasil. Enquanto espero troco, abro o diário e passo os olhos nos titulares da página internacional. Concentro-me por segundos no título de uma notícia: “Governo dos Estados Unidos envolvido no golpe militar do Brasil”. Na parte inferior, uma nota chama minha atenção: “USA aumenta ajuda à ditadura brasileira.”
Fecho o jornal e ligo o motor. Coloco a primeira e dirijo o carro para a companhia de gás. Lá chegando, compro o bujão e coloco o pesado volume na mala dianteira do veiculo. Entro, ligo o Volkswagen e recomeço a dirigir. Adiante, para encurtar o caminho de casa, decido cruzar pelo bairro de Brotas. Quando estou atravessando a sinaleira do cruzeiro de Campinas, perto do cemitério, um militar ordena que pare o carro.
Sem entender a razão da ordem, desligo o motor e espero no acostamento. Mal humorado, o militar caminha em nossa direção e diz:

— Desça do carro, pois o senhor está preso!

No princípio, penso que ele está brincando e amavelmente lhe pergunto:

— Posso saber o que está acontecendo?

Ele repete mais alto:

— Já disse e tá falado. O senhor e o carro ficam detidos.

Agora, já perturbado, pergunto:

— Posso saber qual foi a infração que cometi?

Ele responde:

— De agora em diante, está proibido andar de carro nu.

— Nu? — Replico.

— Estou, como todos os baianos, dirigindo de short e sem camisa porque hoje é sábado e estamos, minha mulher, minha filha e eu, indo para a praia tomar banho de mar.

— Não quero saber. Você está preso e o carro também.

Argumento que se existe uma lei da qual não tenho conhecimento, que me informe e eu não vejo problema em acatar as ordens. Enquanto argumento, noto que ele está se zangando. Finalmente, sem mais palavras, tira o revólver e me diz:

— Desça do carro, já!

Trato de explicar-lhe que estou com a mulher, a filha pequena e o bujão de gás; que não posso deixá-las sozinhas, sem transporte e em roupa de banho, no meio da rua. Solicito ao militar que me permita, pelo menos, deixa-las em casa e, logo, eu o acompanharia à delegacia policial. Nesse momento, sem nenhuma explicação, coloca o revolver na minha cabeça, puxa o gatilho do revólver, e diz:

— Seu filho da puta, desça já do carro, senão vou estourar os seus miolos!

Nesse ponto, minha mulher, aterrorizada e com os nervos à flor da pele, grita e minha filha, sem entender nada, chora, assustada pelos gritos da mãe. Atraídos pela situação surrealista, os transeuntes baianos, curiosos, vão se aproximando para saber o que está acontecendo. Temendo a reação da população o policial, de revólver à mão direita apontando para mim, toma o walkie-talkie e pede ao comando um pelotão da polícia militar com 20 soldados para ajudar a prender um “perigoso marginal armado” que está resistindo a ordem de prisão e ameaçando a autoridade policial.
Humilhado e indefeso, sou forçado a subir num caminhão da polícia militar, escoltado pela arrogância e pelos insultos dos soldados armados e do insano policial. Transportam-me para a delegacia da Ladeira do Galés, em Brotas, Salvador, Bahia, Brasil.
Depois de 6 horas incomunicável detrás das grades, posso dar meu depoimento e provar (com a ajuda de um advogado e do meu sogro, que conhecia o delegado), que o “perigoso marginal armado”, acusado de ameaçar a autoridade policial, era em realidade um jovem sociólogo, funcionário da Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador, que transportava um botijão de gás em companhia da mulher e da filha menor de dois anos.
No carro, nada foi encontrado alem do bujão e do jornal com a noticia: “USA aumenta ajuda à ditadura brasileira.”

domingo, 1 de maio de 2011

Pensatas de domingo (uma reportagem)


Os novos sabores da leitura

Esta foi uma reportagem em que houve pauta, fontes e tudo a que tem direito, realizada e publicada em junho de 2002 na Faculdade de Jornalismo Pinheiro Guimarães. E que me valeu uma nota 10...

A moça lê seu livro atentamente naquele bar agradável. Na sua mesa, um prato com convidativo pedaço de bolo e o café pela metade, ainda esfumaçante. Ao seu redor, gente em outras mesas e livros, muitos livros. Afinal, estamos numa livraria no coração de Ipanema. Livrarias como esta vêm-se transformando em verdadeiros points, com a inclusão de cafés, lanchonetes e até restaurantes em seus ambientes.

A primeira livraria do Rio a possuir um bar foi a Bookmakers, na Gávea. Isto, segundo a proprietária da Argumento no Leblon, Laura Gasparian, 46 anos. Ela garante que a sua loja foi a segunda a disponibilizar este tipo de serviço a seus clientes.
"A minha clientela é tradicional, mas o café trouxe, inegavelmente, um certo incremento nas vendas. Pessoas que vêm aqui tomar um expresso ou comer alguma coisa, acabam levando um livro ao circularem pela livraria", garante Laura, que afirma, no entanto, não gostar que os clientes levem livros para o bar, porque muitas vezes eles simplesmente os recolocam em suas prateleiras, completamente sujos ou borrados. "Os educados acabam pagando pelos mal-educados, que não têm certos cuidados", conclui a proprietária.
O Café Severino, que fica dentro da Argumento, já existe há seis anos. Local aprazível, com uma decoração rústica composta de fotos abordando aspectos do Brasil, além de músicos e intelectuais do Rio de Janeiro. Serve, não somente o tradicional café expresso, mas também uma série de pratos como sopas de alho-poró ou cebola, além de saladas diversas como a do chef e até um penne ao molho de presunto cru e tomate seco. Trabalhando ali há cinco anos, Maria dos Anjos, copeira (e faz-tudo, segundo ela), 34 anos, garante que o movimento é bastante intenso e a clientela muito fiel e assídua.
Quando se entra na Letras & Expressões de Ipanema, não fosse pela tabacaria do lado direito, poder-se-ia dizer que se está entrando numa livraria como outra qualquer. Ao subir a escada, vem a surpresa bem à frente: o Café Ubaldo, um bar ocupando toda a metade esquerda do segundo andar. Ali, o movimento é grande, e, em alguns momentos, quase todas as pessoas estão lendo algum livro. Subindo mais um lance da mesma escada, a surpresa é ainda maior. No terceiro andar funciona o Bar do Zira, um ponto de encontro noturno para "ipanemenses" de todos os bairros da cidade. Todo decorado com desenhos do Ziraldo, este bar nos remete aos velhos tempos da Ipanema boêmia, do Zepellin, do Jangadeiros e da "turma do Pasquim". Durante o dia, o Bar do Zira serve eventualmente a exposições.
A professora Ana Maria Vieira, 23 anos, acha que as livrarias hoje em dia têm uma política de relação com os seus clientes muito mais simpática. O próprio fato de poder pegar um livro, sentar no bar, pedir um café, um chá ou um refrigerante, saborear uma torta e poder ler à vontade é uma forma de ter a possibilidade, inclusive, de avaliar se um determinado livro vale a pena ou não. No seu ponto de vista isso evita enganos ou perda de tempo e dinheiro. Ela acha também, que com os bares, as livrarias passam a ser pontos de encontro entre amigos.
Já o advogado Antônio Gonçalves, 28 anos, ressalta no mesmo sentido que livros, são na maioria das vezes dispendiosos e que poder pesquisa-los antes da compra é um grande facilitador."Bem melhor do que no tempo em que até dar uma 'olhadinha' nos livros da prateleira, era motivo para um olhar torto e recriminante por parte dos vendedores", finaliza.
Curiosamente, a sede da Letras & Expressões não é na loja de Ipanema, e sim, na do Leblon. Seu gerente, Raílson Araújo, 33 anos, trabalha ali há nove anos, e a Letras & Expressões foi o seu primeiro emprego em livrarias. Raílson, anteriormente trabalhava com bancas de revista. Ele fala sobre as modificações que estão acontecendo na loja, que tem como diferencial um atendimento 24 horas e a exemplo da outra, uma tabacaria completa logo na sua entrada. "É muito bom termos o nosso bar e computadores como pontos para internautas. Estamos ampliando o nosso espaço, e é bem melhor a loja ter entrada não somente pela Ataulfo de Paiva, mas também pela Dias Ferreira", afirma Raílson com grande entusiasmo.
Do outro lado da cidade, bem no centro, encontra-se a Travessa do Ouvidor, uma ruela estreita que liga a igualmente estreita rua do Ouvidor à Sete de Setembro. Bem no meio dela, tem um interessante monumento a Pixinguinha. E logo adiante a Livraria da Travessa. Uma livraria que tem a luz, a música e o atendimento na medida ideais. Num ambiente que, aliás, transmite peso cultural e credibilidade. Seu layout perfeito é aconchegante e uma proposital "informalidade" complementa o clima intelectualizado e sofisticado que a caracterizam tão fortemente. Ao fundo o café e lanchonete. E, como se não bastasse, virando à direita uma papelaria completíssima, a Papel Kraft, que também tem entrada independente pela Travessa do Ouvidor, em porta contígua à da livraria.
A Travessa, costuma ser freqüentada por diversos artistas, intelectuais e escritores do cenário carioca. Antônio Torres é um deles. Escritor traduzido em várias línguas, este baiano de 61 anos, cujo primeiro livro foi "Um Cão Uivando para a Lua", que está sendo reeditado pela Record, agora que o livro completa 30 anos de sua primeira edição, considera-se um verdadeiro "fuçador de livrarias". Torres, que também carrega em sua bagagem sucessos como "Essa Terra" e "Um Táxi para Viena D'Áustria", considera a Travessa um dos pontos mais requintados da cultura na cidade do Rio de Janeiro. O fato, porém, é que, na realidade, o escritor está sendo mesmo homenageado pela Letras & Expressões ao inaugurar, o seu bar na sede do Leblon, cuja marca, criada pelo cartunista Ziraldo leva o nome de Bar D'Antônio Torres.
A vendedora Roberta Siqueira, 35 anos, diz freqüentar a Travessa casualmente, por estar à procura de um livro para a sobrinha. "Eu não conhecia esta livraria e entrei aqui por acaso... mas fiquei impressionada com o que eles oferecem, e também com o ambiente bastante agradável... a papelaria tem coisas lindas". Roberta não resistiu ao charme do bar.
Mas isso tudo não é uma exclusividade apenas da sede. Numa das lojas de Ipanema, encontramos as mesmas características, embora em um espaço físico bem mais reduzido. O bar, neste caso, fica num mezzanino, de onde se avista boa parte da requintada loja. Isto, sem contar a nova loja no centro (existe há cerca de um ano), que chama a atenção pelo prédio antigo em que está situada em plena avenida Rio Branco, próxima à Teófilo Otoni. A Travessa também inaugurou em maio de 2002 outra loja em Ipanema.
Ao contrário da Travessa, a Saraiva Mega Store assume muito mais a característica de um hipermercado. Sendo extremamente claras, modernas e bem sinalizadas, suas lojas têm semelhanças com lanchonetes de fastfood. A Saraiva, em algumas das suas filiais, também oferece serviços de internet para seus clientes. A loja situada na Rua do Ouvidor é muito grande e completa, ocupando três andares. A sede do grupo é em São Paulo, onde a Saraiva foi fundada em 1914, por Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva, imigrante português de Trás-os-Montes.
A gerente de Comunicação do Grupo Saraiva Vera Esaú, explicou, por telefone, não ser permitido o depoimento de funcionários à imprensa por uma questão de política da empresa. No entanto, liberou à reportagem entrevistar os clientes.
Tomando um café numa mesa, no bar da Saraiva do Rio Sul e folheando um volumoso livro (que ressalta ser de sua propriedade), Mary Moreno, médica, 36 anos, acha que este tipo de livraria, além de muito boa, é realmente uma tendência para o futuro. "Hoje em dia, até compro mais livros do que antigamente", finaliza.
Já o estudante Felipe Souza Ramos, 17 anos, é mais motivado em suas visitas à Saraiva, pela papelaria, pelos cadernos e "canetinhas" que encontra ali. "Sempre que venho ao shopping dou uma passada por aqui, porque tem sempre uma novidade", afirma ele com entusiasmo.
Em Botafogo, encontra-se a Livraria Prefácio, bem no início da rua Voluntários da Pátria. O seu "café" fica logo na entrada. Contudo, várias mesas se espalham por dentro da loja, inclusive num jirau. O acervo da loja é bem completo, e ela ainda possui uma tabacaria. A Prefácio fica muito próxima aos cinemas do Espaço Unibanco, que, aliás, também tem um bar e a pequena, porém decente Livraria do Espaço, esta voltada em grande parte (embora não exclusivamente) para literatura ligada à sétima arte.
Pequena também é Livraria do Museu da República, que, a exemplo da Livraria da Estação Unibanco, não tem um café no seu interior, embora o possua no perímetro do seu espaço cultural. Aliás, bem ao seu lado, e também ao lado do cinema (Estação Museu da República). Ali também se encontra o Museum, restaurante de primeira grandeza que se inclui no complexo do Museu, antigo Palácio do Catete, que, muito embora não tenha sido a única, foi a principal sede do Poder Executivo desde a República Velha até a sua transferência para Brasília no início dos anos 60. Complementam este complexo o teatro, o espaço multimídia e o vasto jardim do palácio, que, constantemente é o cenário de exposições e perfomances de artistas plásticos ou músicos.
Mas até os "sebos" têm seus "cafés". No Paço Imperial - outro importante centro cultural da cidade -, no mesmo local em que existiu a Livraria Dazibao, funciona hoje a Livraria Imperial, especializada em livros usados e que possui um bar bastante movimentado.
É certo que existem outras livrarias pela cidade que não constam nesta matéria. Até porque, estão presentes nesta reportagem apenas algumas das lojas que oferecem serviços complementares de bar ou restaurante aos seus clientes. Provavelmente, a cada dia surgirão mais e mais livrarias que ofereçam este tipo de serviço. É um atrativo, uma tendência e um sintoma de renovação e modernidade no comércio de livros, que, certamente abre uma nova dimensão a esse tipo de negócio. E, sem dúvida alguma, um novo sabor.