domingo, 17 de agosto de 2014

Pensatas de domingo e o genocídio na Palestina






A verdade sobre a politica dos EUA e Israel

Jorge Vital de Brito Moreira

Mais uma vez, o Estado de Israel, (com a cumplicidade, o apoio econômico e militar dos EUA), ensina ao mundo que sua política externa não passa de terrorismo de Estado.
Atualmente um número crescente -milhões de seres humanos- teem tomado consciência que o governo dos EUA, sob a administração de Barak Obama tem sido o principal cumplice (1) da sistemática política terrorista do estado de Israel, sendo assim também cumplice do genocídio do povo palestino na faixa de Gaza.
Como esperávamos, o governo de Barack Obama não foi nem será capaz de condenar o governo de Benjamin Netanyahu, nem punirá os líderes sionistas por seus crimes de guerra em Gaza. Pelo contrário, durante quase 6 anos, temos observado que a política imperial do governo de Obama está profundamente associada e subordinada aos interesses sub-imperialistas do estado de Israel. Tão pouco devemos esperar nada de positivo do Congresso e do Senado dos EUA. Os congressistas e senadores estadunidenses estão comprados e financiados pelos poderosos lobbies judeus como American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) e por isso, sempre brindam seu apoio e seus votos em beneficio do governo de Israel indicando que tudo que lhes interessa (com seu apoio incondicional a Netanyahu), é justificar e legitimar a completa impunidade para os crimes do governo de Israel.
Assim, tanto a política da administração de Obama, como a política do Congresso e Senado dos EUA, estão articuladas para beneficiar o governo de Netanyahu, sem lhes importar o custo das vidas humanas (de civis, mulheres e crianças) que estão sendo destruídas pelas bombas de fabricação estadunidense e israelense.
Dada a abominável  política económica e militar do imperialismo  dos EUA para os países do Oriente Médio, África e Europa oriental (2) somos forçados a concluir que a atual destruição das cidades e os assassinatos dos habitantes da Palestina, do Iraque, do Afeganistão, da Somália, é uma estratégia cabalmente planejada e calculada para cumprir os objetivos fundamentais dos EUA e de Israel: conquistar e se apropriar ilegalmente das reservas  de petróleo e gás dos países invadidos. (3)

A mentira da mídia corporativa sobre o genocídio na Palestina

Ficamos horrorizados quando vemos as imagens da guerra genocida na qual Israel assassina milhares de palestinos indefesos, destrói os hospitais (inclusive os organizados pela Organização das Nações Unidas - ONU - para refugiados) e as escolas, mas também ficamos revoltados quando lemos e vemos que os principais jornais dos EUA (New York Times e Washington Post), a media corporativa (canais de televisão como CBS, CNN, Fox, ABC) e a indústria de entretenimento (liderada por Hollywood) também são cumplices da política israelita, quando utilizam palavras como “Israeli-Palestinian Conflict” (Conflito Israel-Palestina) para esconder da opinião publica, o genocídio que Israel tem cometido contra o povo palestino durante todos esses anos de colonização e apartheid nos territórios ocupados militarmente por Israel.
Chamar de “Conflito” a uma guerra genocida, onde Israel dispõe de todas as armas  de guerra que incluem até as nucleares (4) (além de contar  com a eterna ajuda militar e econômica incondicional dos EUA), é completamente desonesto e inaceitável. O termo “Conflito” faz parte da ideologia imperial que manipula a nossa linguagem comum para mentir, tergiversar, mistificar e inverter a verdade. Buscam, deste modo, destruir a consciência ética e moral dos seres humanos que respeitam a vida de outros seres humanos. Afinal, a hipocrisia e a mentira são práticas permanentes das autoridades políticas estadunidenses. 
Nunca deveríamos esquecer que o ex-presidente George W. Bush e o ex-vice presidente  Dick Cheney  justificaram a invasão ilegal contra o Iraque produzindo uma serie de horrorosas mentiras (tais como “Sadam Hussein possui armas de destruição massiva que lançará contra a população dos EUA”) para legitimar sua guerra fascista para se apropriar do petróleo do Iraque.
Atualmente, a mentira sionista mais repetida (tanto pelo governo de Obama e Natanyahu como pela mídia coorporativa, pelos lobbies judeus e por Hollywood (5) para enganar o publico dentro e fora dos EUA é a seguinte: “Israel tem direito a se defender”.  
Esta frase mitológica, “Israel tem direito a se defender”, que a mídia coorporativa propaga insistentemente entre a opinião publica mundial, tem funcionado para escamotear e negar a verdade gritante dos fatos observados: Israel não está se defendendo. Israel está atacando a Palestina; o governo de Israel tem sido desde 1947, o agressor, o invasor, o colonizador que declara guerra contra o povo palestino.  E os governos de Israel e dos EUA teem utilizado e manipulado o nome do grupo Hamas, um grupo de resistência palestina que o governo ocidental e a grande imprensa denominam de “terroristas” (6) como pretexto e justificativa para prosseguir com uma guerra permanente que tem tido uma dupla função para os EUA e Israel: a) conquistar e se apropriar dos territórios palestinos ocupados (território garantido pelo decreto internacional da Organização das Nações Unidas (7); b) fazer uma limpeza étnica nos territórios ocupados.
Estas são as razões fundamentais do porque Israel tem sido o pais que, contando com o apoio dos EUA, vem atacando e destruindo completamente o presente e o futuro do estado da Palestina. Esta é a verdade indiscutível que fundamenta as invasões de Israel: o governo sionista de Netanyahu e seus aliados sabem muito bem que existe uma grande reserva de energia nas jazidas de gás do território de Gaza; e tratam de se apropriar gratuitamente do território para explorar as jazidas e garantir o abastecimento e lucros da classe dominante de Israel e dos EUA. Assim, o maior interesse geopolítico de Israel é expulsar os palestinos ou manter a Palestina como um imenso campo de concentração.
Para bom entendedor, poucas palavras bastam: a política do estado de Israel é uma politica terrorista: uma declaração de guerra com o objetivo de converter os  palestinos (os legítimos moradores e proprietários das terras do território) em refugiados nos campos de concentração da região. São estas as razões, do porque Israel continua bombardeando e destruindo incessantemente a maior parte da vida urbana (hospitais, escolas, abastecimento de agua, etc.) de Gaza para forçar os palestinos a fugir e desocupar um território rico em jazidas de gás. Desse modo, Israel e EUA ficarão de “mãos livres” para se apropriar da reserva energética da região. (Vejam a nota 3 deste texto)
Além da cumplicidade do governo de Barack Obama (8), dos senadores e congressistas dos EUA, da mídia corporativa e de Hollywood, esta política belicista de Israel tem encontrado seus defensores entre a rica elite branca estadunidense que proporcionam financiamento (milhões e milhões de dólares) para os poderosos lobbies judeus comprarem os votos dos políticos estadunidenses (deputados e senadores estadunidenses).
Esperar imparcialidade, isenção ou cooperação do poder imperialista dos EUA é uma ingenuidade, é o mesmo que chover no molhado. Se queremos parar com o genocídio do povo palestino, a sociedade civil (estudantes, trabalhadores, sindicatos, movimentos de resistência) de cada país antiimperialista, deve exigir que seus governos, seus setores industriais, comerciais e de serviços dos seus respectivos países decretem um boicote comercial: devem parar de comprar e importar as mercadorias produzidas e exportadas pelo estado de Israel. Somente através do permanente boicote comercial nossas sociedades civis podem sabotar os bolsos e lucros dos capitalistas sionistas e mudar a política daqueles que apoiam o regime terrorista e o genocídio do estado de Israel.

1) Apesar do aumento da consciência de um numero crescente de seres humanos, parece que muitos  ainda  não entenderam bem o que está passando.  Ainda acreditam na noção equivocada de que existe gente no governo de EUA que encontrará soluções racionais para terminar a guerra genocida. Pelo contrário, os governos dos EUA e Israel (apesar do discurso) não mostram nem interesse nem  intenção de obter una solução pacífica para a Palestina.  Leiam o artigo de 28-07-2014  do brilhante filosofo, linguista e professor Noam Chomsky onde considera a EEUU “responsável de derramar sangre palestina”. Abaixo coloco o link deste artigo:

2) Se tomarmos o governo do presidente Barack Obama como uma evidencia da política imperial dos EUA, veremos que seu governo imperialista é ainda pior que o de George W. Bush. Do  ponto de vista geopolítico, por exemplo, o presidente Obama envia drones assassinos para o Paquistão, Iêmen e Afeganistão; decreta sanções contra Irã e a Rússia; coloca bases militares ao redor do território russo, cujos mísseis podem chegar em cinco minutos a Moscou;  fornece armas aos mercenários na Síria; está instruindo e capacitando os curdos no Iraque, e, apoia e financia a barbárie sionista em Gaza.
Em resumo, a política imperialista de Barack Obama (junto a OTAN e seus aliados europeus) tem resultado não somente na produção de guerras em diversos países da Asia, África e Europa como podemos observar através das guerras de mercenários na Síria, no Paquistão, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia e na Somália e a mais recentemente, através da guerra na Ucrânia.
Esta política da administração de Obama também tem resultado na produção de dezenas de milhões de refugiados que fogem da destruição da suas terras natais, pois nada está isento de ser bombardeado: abrigos, cidades, casas, escolas, hospitais e famílias são alvos a serem destruídos pelos EUA, pela OTAN, Israel e seus aliados europeus.  Sobre esta abominável realidade, leiam a entrevista do notável professor, sociólogo dos EUA, James Petras, analista de política internacional, intitulada “La cólera del Emperador: ¡que el caos envuelva al mundo!” de 09/08/2014 no link abaixo: http://www.lahaine.org/mundo.php/la-colera-del-emperador-ique-el-caos-env

3) Sobre este assunto, leiam a entrevista do analista internacional, Pepe Escobar, o destacado analista brasileiro para os assuntos do Oriente Médio, do dia 08-08-2014,  intitulada:
“En Gaza hay una guerra energética bajo la cobertura de una limpieza étnica”, no link: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=188210

4) O ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter tem denunciado que Israel tem 150 armas nucleares. Esta noticia também foi publicada pelo jornal Estadão de 26 de maio de 2008 como título  “Israel tem 150 armas nucleares, diz ex-presidente dos EUA”. Podem verificar no link:

5) Pouca gente tem se dado conta de que Hollywood (uma das mais importantes industrias de diversão e entretenimento do sistema capitalista) é uma das maiores defensoras dos interesses e  política do estado de Israel. Historicamente, Hollywood tem estado associada ideológica e financeiramente ao AIPAC, o maior lobby judeu e centro de propaganda sionista  nos EUA. A prepotência e arrogância de Hollywood em defesa do atual genocídio de Israel pode ser comprovada, por exemplo, quando seus produtores colocaram o nome dos atores espanhóis, Penélope Cruz e Javier Bardem numa lista negra (já não podem trabalhar em Hollywood) por terem afirmado uma carta denunciando o genocídio de Israel na Palestina.  A lista negra de Hollywood nos recorda a lista negra do Macarthismo inventada pelo Senador McCarthy. O leitor pode comprovar a posição política, ideológica e propagandística de Hollywood a favor do estado sionista de Israel, lendo as reportagens que foram publicadas em todo o mundo. Esta notícia pode ser lida no  link:
http://flagra.pt/noticias/internacional/javier-bardem-e-penelope-cruz-ficaram-na-lista-negra-de-hollywood-25299

6) O famoso cantor e compositor contemporâneo, Lupe Fiasco, seguindo as declarações de intelectuais estadunidenses, afirma que o presidente Barack Obama é o maior terrorista  da atualidade. Na sua entrevista, Lupe Fiasco declara: «Para mim, o maior terrorista de todos é o Obama nos Estados Unidos da América. Estou tentando lutar contra o terrorismo que causa as outras formas de terrorismo». «Na origem do terrorismo estão as coisas que o governo norte-americano permite que aconteçam e são as políticas externas que temos em vários países que inspiram as pessoas a tornarem-se terroristas» (“my fight against terrorism, to me, the biggest terrorist is Obama in the United States of America. I'm trying to fight the terrorism that's actually causing the other forms of terrorism. You know, the root cause of terrorism is the stuff the U.S. government allows to happen. The foreign policies that we have in place in different countries that inspire people to become terrorists.”) https://www.youtube.com/watch?v=uDncSNmg3RA

7) O leitor pode ler o texto da Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (S/RES/242) para se dar conta que Israel tem violado desde 1967, a legalidade internacional: “A Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (S/RES/242), uma das resoluções da ONU mais comumente referidas em política do Médio Oriente, foi aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU em 22 de Novembro de 1967, após a Guerra dos seis dias. Foi incorporada ao capítulo VI da Carta das Nações Unidas,29 e reafirmada pela resolução nº 338 do Conselho de Segurança da ONU, adotada após a Guerra do Yom Kippur (1973)”. A resolução preconiza a "retirada das Forças Armadas de Israel dos territórios ocupados durante o recente conflito"... Como podemos  observar, desde 1967, a resolução 242 do Conselho de Segurança, aprovada por unanimidade, exigia o «Retiro das forças  armadas israelitas  dos territórios que ocupavam” durante aquele conflito, e a «terminação de todas as situações de beligerância o alegações  de sua existência, o respeito e o reconhecimento da soberania, da integridade territorial e da independência política de todos os Estados daquela zona.”

8) O brilhante professor Cornel West declarou em 05.08.2014  que o presidente Barack Obama é um criminal de Guerra por apoiar o tratamento que Israel dá aos palestinos e que sua política de utilização de drones faz dele cumplice da morte de pessoas inocentes (Obama is a ‘war criminal’ for supporting Israel’s treatment of Palestinians his drone policy make him complicit in the deaths of innocent people). Vejam estßa notícia no link:
http://rt.com/usa/178252-obama-criminal-israel-cornel-west/comments/page-6/


domingo, 10 de agosto de 2014

Pensatas de domingo e embargo a Israel


Um grupo de destacados artistas, intelectuais e ativistas de todo o mundo, incluindo seis prêmios Nobel da Paz, exigiram um embargo militar imediato a Israel por sua ofensiva na Faixa de Gaza.
"Fazemos um chamado às Nações Unidas e aos governos de todo o mundo a tomar medidas imediatas para aplicar a Israel um embargo militar integral e legalmente vinculante, similar ao imposto à África do Sul durante o apartheid", assinala o comunicado.
Entre os signatários encontra-se o Prêmio Nobel da Paz da Argentina, Adolfo Pérez Esquivel, assim como seus colegas Desmond Tutu, da África do Sul, Rigoberta Menchú, da Guatemala, Mairead Maguire, da Irlanda, Jody Williams, dos Estados Unidos, e Betty Williams, da Irlanda do Norte.
"Israel, mais uma vez, desatou toda a força de seu exército contra a população palestina cativa – inicia o texto –, sobretudo na sitiada Faixa de Gaza, em um ato desumano e ilegal de agressão militar. O atual ataque de Israel contra Gaza até o momento matou muitos civis inocentes, causou centenas de feridos e devastou a infraestrutura civil, incluindo o setor da saúde, que já estava gravemente deteriorado".
Segundo destaca o comunicado dos intelectuais, "a capacidade de Israel para colocar em marcha este tipo de ataque devastador com impunidade provém, em grande parte, da vasta cooperação militar internacional e do comércio de armas que Israel mantém com governos cúmplices de todo o mundo".
Também assinaram o texto o músico britânico Roger Waters, a escritora estadunidense Alice Walker, o teólogo da libertação brasileiro Frei Beto, o sindicalista sulafricano Zwelinzima Vavi, seu colega brasileiro João Antônio Felício, o filósofo esloveno Slavoj Zizek, o acadêmico israelense Nurit Peled, o britânico ex-presidente do PEN Gillian Slovo e a escritora indiana Gita Hariharan.
"A partir de 2008, os EUA iniciaram uma ajuda militar a Israel em torno de 30 bilhões de dólares, enquanto as vendas militares anuais israelenses ao mundo chegam a bilhões de dólares. Nos últimos anos, os países europeus exportaram armas para Israel por valor de bilhões de euros e a União Europeia financiou as empresas militares e as universidades israelenses com bolsas de investigação no âmbito militar por um valor de centenas de milhões de euros", explica o comunicado.
Os intelectuais acusaram os países emergentes de apoiarem evasivamente a Palestina enquanto financiam as campanhas repressivas de Israel. "As economias emergentes, como a Índia, Brasil e Chile, aumentam rapidamente seu comércio e cooperação militar com Israel, apesar de afirmarem apoiar os direitos palestinos".
Entre os signatários também aparecem Federico Mayor Zaragoza, ex-diretor geral da Unesco, da Espanha; Chris Hedges, jornalista, Prêmio Pulitzer 2002, dos EUA; Boots Riley, rapper, poeta, produtor de artes, dos EUA; e Noam Chomsky, filósofo, analista político, dos EUA.

domingo, 3 de agosto de 2014

Pensatas de domingo



Retratos de Memória de André Setaro



Uma Pensata de Jorge Vital de Brito Moreira sobre André Setaro. Originalmente publicada em:
http://catoverde-cmbryan.blogspot.com.br/


Encontrei o amigo André Setaro, pela primeira vez, em torno de 1967, durante as filmagens do filme “Perâmbulo”, um inteligente curta metragem de autoria dos jovens amigos cineastas José Humberto e José Carlos Menezes. Éramos um grupo de jovens (amigos e conhecidos), interessados em cinema e música que estávamos reunidos num restaurante ao lado do Teatro Castro Alves no largo do Campo Grande (em Salvador-Bahia). Estávamos sentados nas mesas do restaurante “almoçando”, ou seja atuando como extras para tomadas de cenas do curta metragem. André Setaro, naquele tempo, era um rapaz jovem, magro, alto, tímido e muito pálido.
Se não me falha a memória, encontrei André pela segunda vez em frente à Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia (UFBa) que estava situada no bairro de Nazaré em Salvador. Naquele tempo, eu, Zé Umberto, Chico Sampaio e outros queridos amigos tínhamos começado a estudar a carreira de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia depois de aprovarmos o exame vestibular. André, um ou dois anos mais jovem do que nós, ainda estava se preparando para entrar na Faculdade de Direito e estudar advocacia, carreira no qual se formou anos mais tarde, ainda que nunca a tenha exercido. Uma das minhas  lembranças recorrentes daquele tempo: observar André caminhando em frente da Faculdade de Filosofia:  frequentemente acompanhado de um guarda chuva preto na mão direita.
Enquanto estudávamos sociologia, o amigo Zé Umberto também aprofundava seus conhecimentos sobre a sétima arte, enquanto eu estudava violoncelo e composição musical nos Seminários de Música da UFBa. Num determinado momento da nossa jornada universitária, Zé decidiu produzir e dirigir seu primeiro longa metragem, O Anjo Negro, convidando-me para compor a música para a letra de “Estou só”, um poema de sua autoria que dizia:
“Estou só        Cada vez mais estou só            Meu barco não navega no mar
Meu aeroplano na linda galáxia não sabe voar       Cada vez mais estou só”... Não necessito ampliar este parágrafo para informar que o convite de Zé e a criação da música me agradaram imensamente.
Para o estudante de Sociologia, o filme O Anjo Negro, de Zé Umberto, também ajudava a observar a sociedade brasileira como uma complexa totalidade de relações sociais entre diferentes classes sociais, diferentes raças e etnias, diferentes gênero sexual, diferentes nacionalidades e diferentes gerações. Como estudante de sociologia também aprendemos como a existência da ditadura militar com sua política de repressão, de tortura, de assassinato de cidadãos brasileiros, era uma ameaça não só para a nossa sócio-econômica-cultural posição de classe média, como também para a maioria da população da sociedade brasileira. Todas as contradições e conflitos políticos, sociais, econômicos e culturais entre as classes sociais, raças, sexos e entre as gerações antigas e novas no Brasil caminhavam para uma confrontação decisiva a favor do nascimento de uma nova sociedade porem  a ditadura militar brasileira  surgiu na sociedade brasileira para (de forma violenta, opressiva e criminosa) suprimir as diferenças e as contradições  da nossa historia social.
Depois de formado em Ciências Sociais, eu, pessoalmente, tratei de conseguir um emprego como um profissional especializado em Sociologia, mas nunca fui capaz de encontrar trabalho como Sociólogo na cidade de Salvador, porque, nessa época, os militares não permitiam. Do ponto de vista da ideologia dos ditadores, a Sociologia era  uma carreira inútil e/ou subversiva. Sem alternativa, comecei a trabalhar como jornalista no conhecido jornal Tribuna da Bahia da cidade de Salvador. Anos depois,  deixei a Tribuna da Bahia e fui trabalhar na floresta Amazônica, porque foi o único lugar onde  pude conseguir um emprego como sociólogo profissional.
Foi durante esta época (desde 1974), que André Setaro se desenvolveu como colunista profissional de cinema do jornal Tribuna da Bahia. Durante 40 anos, escreveu comentários de cinema de grande qualidade analítica e crítica (numa frequência extraordinária) e se transformou num dos mais importantes críticos cinematográficos da Bahia e do Brasil.
Perdi quase todo o contato com André Setaro, Zé Humberto, José Carlos Menezes, Edgard Navarro e outros amigos ligados ao cinema baiano, durante os anos em que estive trabalhando como sociólogo rural em Rondônia (na região Amazônica), em Pernambuco e Bahia, nas margens do rio São Francisco, nas áreas posteriormente inundada pela Barragem Sobradinho da CHESF.
O distanciamento aumentou quando emigrei para estudar um mestrado no Mexico e um doutorado nos EUA e comecei a trabalhar e a viver no exterior. Mesmo viajando esporadicamente (nas férias) a cidade de Salvador para ver e visitar minha família, parentes e amigos nunca tive a oportunidade de rever André.
Em 2008 viajei ao Brasil para lançar (nas cidades de Salvador, Feira de Santana e Lençóis) meu livro Memorial da Ilha e Outras Ficções, um volume composto de um pequeno romance sobre a viagem de veraneio a Ilha de Itaparica e alguns contos sobre o período da ditadura militar e os anos 60.
Foi durante esse período que um grande amigo, o cineasta Edgard Reis Navarro Filho, me contou da sacanagem que fizeram com o filme Revoada do diretor Zé Umberto e me informou da grave omissão de cineastas baianos: foram incapazes de sair em defesa do diretor de Revoada e que André Setaro era um dos poucos críticos de cinema que estava tendo o valor e a valentia de enfrentar o grupo de Rex Schindler e escrever, quase diariamente, em defesa do diretor e autor José Umberto Dias.
         A falta de solidariedade, a indiferença e covardia da classe cinematográfica baiana para apoiar Zé Umberto me indignou e decidi escrever uma carta publica dirigida ao jornalista André Setaro apoiando-lhe na sua luta para denunciar aquela absurda situação. André decidiu publicar a minha carta no Setaro’s bloque com o título “A questão ‘Revoada’ vista de fora do Brasil” dado que eu estava vivendo e trabalhando nos EUA. Na introdução a minha carta André escreveu: 
Recebi de Jorge Vital, que conheci, quando a Bahia era a Bahia e não a cidade engarrafada, congestionada e enfartada dos tempos atuais, esta mensagem que coloca bem a questão Revoada, principalmente por um estudioso que mora há algum tempo nos Estados Unidos. Vital acompanhou todo o imbróglio por este blog e pelas publicações do espaço virtual que deram conta do terrível castigo imposto a um cineasta idealista como José Umberto.”
            Depois desta carta, voltamos a conversar com frequência, via telefonema internacional, sobre o filme Revoada e diversos outros temas que incluíam preferentemente o cinema (nacional, americano e europeu), a situação de mediocridade e pobreza social-econômica-politica-cultural no estado da Bahia e Brasil, a decadência dos serviços de saúde publica nacional, e o estado de saúde pessoal.
           Quando informei a André que estava escrevendo sobre temas sócio-econômico-culturais, cinema e música em língua castelhana para Rebelion.org, ele me perguntou se eu não tinha interesse em escrever um texto em português sobre cinema para ser colocado no Setaro’s Blog. Aceitei o convite e a primeira colaboração de Jorge Vital de Brito Moreira para o Setaro’s Blog apareceu no 07 outubro 2009 e intitulou-se: "Capitalism: A Love Story, de Michael Moore.  Esta colaboração era uma tradução ao português de um texto meu originalmente escrito e publicado em espanhol por Rebelion.org.  A partir deste momento, nunca parei de colaborar com o Setaro’s Blog, tanto com textos escritos originalmente em português como com aqueles traduzidos do espanhol.
        Tempo depois, André me apresentou (por escrito) ao editor do blog Novas Pensatas, o criativo artista Jonga Olivieri que além de ser um reconhecido profissional da área de publicidade é também um lúcido escritor e primo querido de André Setaro. Para minha surpresa e alegria, Jonga me convidou para colaborar escrevendo para o blog Novas Pensatas.  Aceitei o convite dele e até hoje continuo colaborando com Novas Pensatas, além de desfrutar da amizade e generosidade de Jonga e sua família.
Sempre tive uma cálida admiração por André, pelos seus conhecimentos da arte cinematográfica, pela  forma ampla e profunda com que ele preparava seus artigos sobre cinema para  sua coluna na Tribuna da Bahia, para o seu Setaro’s Blog e para Terra Magazine.
Com o passar do tempo, na medida em fomos nos aproximando e que nosso relacionamento e conhecimento se ampliaram, minha admiração por sua pessoa também foi crescendo: admirava sua valentia e seu inconformismo quando falava das características predominantes (caos, a violência, e degradação) que tomaram conta da atual cidade de Salvador (a nossa querida terra natal); a sua compreensão e generosidade para aqueles cineastas que dependiam dos editais públicos para poderem realizar seus filmes, sua indignação contra a mediocridade e o mercantilismo de autoridades cinematográficas ligadas ao governo brasileiro e baiano e à maior parte da produção cinematográfica, a sua revolta contra as altas taxas de juros impostas pelos bancos capitalistas contra a população brasileira. 
Era gratificante observar a sua fortaleza na defesa dos seus pontos de vistas; era estimulante constatar a sua resistência machadiana ao abrandamento e aburguesamento politico (de amplos setores da classe média) decorrente da realidade sócio-econômico-ideológica de 21 anos de ditadura militar, de discursos liberais/populistas e de mitos nacionais tais como o do povo brasileiro como homem cordial isento de racismo. Por estas (e outras) admiráveis qualidades de André Setaro, sinto-me honrado de ter sido seu amigo, um admirador e um colaborador do seu blog de cinema. 
Tínhamos planejado nos reunir na Salvador na minha próxima viagem ao Brasil. Então viajaríamos de barco à Ilha de Itaparica para, junto ao mar azul, à areia branca e às palmas dos coqueiros, conversar, bebendo cerveja e tomando banho de mar, no Mar Grande (a cidade onde minha mãe nasceu e minha família veraneava). Infelizmente, seu falecimento tornou estes planos inviáveis.
Mas não me conformo: com tantos indivíduos (bilionários, políticos e militares) que, no poder capitalista, tem sido reconhecidos e declarados como criminosos de guerra no Vietnã, no Iraque e na Palestina, como indivíduos responsáveis pelo genocídio de milhões de seres humanos indefesos, como indivíduos que mereceriam estar, desde sempre, debaixo da terra em que semeiam tanto ódio, tanta guerra, tanta miséria e destruição, não posso me conformar que a morte leve as pessoas como André Setaro: pessoas que ainda jovens e produtivas (tinha apenas 63 anos) que deveriam continuar vivas neste mundo para semear melhores frutos e reparti-los entre os autênticos seres humanos.