Iniciada em 2007 e acelerada no episódio da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, a atual crise sistêmica, nos ofereceu
a oportunidade de avançar na compreensão das transformações ocorridas nas
relações entre “inovações” financeiras, financiamento dos gastos de consumo das
famílias, de investimento das empresas e geração de renda e emprego na economia
globalizada.
Antes de mais nada, a grande empresa manufatureira se deslocou para regiões
onde o custo unitário da mão de obra é mais baixo. Nesses mercados de oferta
ilimitada de mão de obra, os salários não acompanham o ritmo de crescimento da
produtividade. As elevadas “taxas de
exploração” nos emergentes asiáticos incitaram a rápida criação de uma nova
capacidade produtiva na indústria manufatureira, com ganhos na mais valia,
acirrando a concorrência global entre os produtores de manufaturas. E as
políticas de comércio exterior dos emergentes em processo de “perseguição”
industrial unem saldos comerciais alentados, e grande acumulação de reservas.
A combinação desses fenômenos, acentuou o caráter cíclico da oferta de
crédito e impulsionou a criação de desequilíbrios cumulativos nos balanços de
famílias, empresas e países, com sérias consequências para a eficácia das
políticas monetárias nacionais. O
“financiamento” do déficit estadunidense pelas reservas dos países emergentes,
sobretudo pela China, é uma ilusão contábil que esconde as relações de
determinação macroeconômica. O movimento vai dos fluxos brutos de capitais para a expansão do crédito
aos consumidores nos EUA.
A lenta evolução dos rendimentos aliou-se à vertiginosa expansão do crédito
para impulsionar o consumo das famílias. Amparado na “extração de valor” ensejado pela
escalada dos preços dos imóveis, o gasto dos consumidores alcançou elevadas
participações na formação da demanda final em quase todos os países desenvolvidos. Enquanto isso, as empresas dos países
“consumistas” cuidavam de intensificar a estratégia de separar em territórios
distintos a formação de nova capacidade, a expansão do consumo e a captura dos
resultados. As empresas ampliaram de
forma expressiva a posse dos ativos financeiros como forma de alterar a
estratégia de administração dos lucros acumulados e do endividamento. Os lucros financeiros superaram com folga os lucros
operacionais.
Porem, nos últimos trinta anos houve um aumento significativo da
desigualdade tanto nas sociedades desenvolvidas quanto nas regiões periféricas. Até meados dos anos 1970, o crescimento econômico
foi acompanhado do aumento dos salários reais, da redução das diferenças entre
os rendimentos do capital e do trabalho e de uma maior igualdade dentro da
escala de salários.
A arquitetura capitalista desenhada nos anos 1930 sobreviveu no pós guerra e
durante um bom tempo ensejou a convivência entre estabilidade monetária,
crescimento rápido e ampliação do consumo dos assalariados. Entre
1947 e 1973, o rendimento real da família estadunidense típica praticamente
dobrou. O sonho durou trinta anos e,
no clima da Guerra Fria, as classes trabalhadoras gozaram de uma prosperidade
sem precedentes.
Por outro lado, a observação das taxas de desemprego aberto, acima de 10% da
população economicamente ativa na Comunidade Europeia, e a análise do
comportamento dos salários reais ainda não conseguem apanhar as tendências
evolutivas mais profundas dos mercados de trabalho, que caminham na direção da precarização,
do aumento dos empregos em tempo parcial e da terceirização das tarefas
acessórias na grande empresa.
Um estudo recente revela que, na França de hoje, a soma dos que se encontram
em situação precária e dos que são obrigados a aceitar tempo parcial chega ao
dobro da cifra estimada para os oficialmente desempregados (3 milhões). Desempregados, “precarizados” e trabalhadores em tempo
parcial representam 37,5% da população economicamente ativa naquele país.
As exigências e avaliações dos mercados financeiros, impõem uma concorrência
às empresas, que afetam negativamente o comportamento do emprego e dos salários. As mudanças nesses mercados, nos últimos vinte
anos, acarretaram uma fantástica mobilidade dos capitais entre as diferentes
praças, permitiram uma incrível velocidade da inovação financeira, sustentaram
elevadas taxas de valorização dos ativos e, sobretudo, facilitaram e
estimularam as fusões e aquisições de empresas em todos os setores.
Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala
mundial. Essa
convergência suscitou os surtos intensos de demissões de trabalhadores, a
eliminação dos melhores postos de trabalho, enfim, uma maníaca obsessão com a
redução de custos.
Não se trata de nenhuma inevitabilidade tecnológica. Foram, de fato, gigantescos os avanços na redução
do tempo de trabalho exigido para o atendimento das necessidades, reais e
imaginárias da sociedade. Mas
os resultados mesquinhos em termos de criação de novos empregos e de melhoria
das condições de vida só podem ser explicados pelo peculiar metabolismo das
economias capitalistas, sob o império da competição desbragada e das finanças
globais desreguladas.
Os sistemas de proteção contra os frequentes “acidentes” ou falhas do
mercado estão em franca regressão. A
insegurança assume formas ameaçadoras para o convívio social.
4 comentários:
"A insegurança assume forma ameaçadora para o convívio social" Sim, mais um artigo que reflete a crise pela qual passa o capitalismo no mundo contemporâneo. Até que ponto?
Como coxê disse alguma vez: o que importa é a qulaidade e não a quantidade. Parabéns pelas postagens!
"Foram, de fato, gigantescos os avanços na redução do tempo de trabalho exigido para o atendimento das necessidades, reais e imaginárias da sociedade". Melhor explanação do que essa é impossível!
Bingo!
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