Existem muitas coisas entre o céu a Terra,
alem dos aviões de carreira
Muito longe do céu e muito perto
dos pecados terrenos, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados
mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso
buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as
práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um
continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu
predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação
das teologias da libertação dos anos 1980; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os
temas da vida; o Splendor veritas, um
texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos são um
compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas,
sociais e científicas do mundo moderno.
Segundo a revista italiana Panorama, o papa tomou a decisão
de renunciar após conhecer o resultado de parte da investigação que havia
ordenado para determinar como documentos pessoais dele acabaram nas mãos de
jornalistas italianos e que escancararam a corrupção na Cúria.
Bento XVI acabou enrolado pelas
contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada
pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre,
saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que
Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra
os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por
conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de
Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Em setembro de 2009, Ratzinger
nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do
Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus
Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi
participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate,
publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial.
Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano.
As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas
origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça
italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo estadunidense Paul
Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo
responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da
soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia.
Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia
passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês
Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou
seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de
perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho
de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O
corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente
suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco
Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida
por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Mais do que querelas teológicas,
são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem
compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos,
articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e
capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma
imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do
mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de
privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais
do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.
2 comentários:
Francis Ford Coppola, em seu terceiro 'opus' da trilogia "O Poderoso Chefão" (1990), mostra os 'podres' do Vaticano numa alusão bem explícita ao assassinato de João Paulo I, o Papa Sorriso, que, pouco depois de consagrado como Pontífice, decidiu iniciar uma investigação sobre a corrupção do Banco Ambrosiano. Um Papa, muito mais do que um líder religioso, deve ter a têmpera de um estadista. 'Scholar', intelectual, filósofo, Joseph Ratzinger, para não ver desvendado, sob o seu reinado, a corrupção, renunciou. E, como bem diz o texto publicado por você, Hulot, neste domingo: "A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema."
O Papa atual é reacionário ao extremo. Bom, pelo menos não engana, como o anterior que se passava por bonzinho.
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