domingo, 16 de março de 2014

Pensatas de domingo e o pré-golpe de 1964



Conhecido por influenciar a opinião pública brasileira antes do golpe de 1964, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipês, fundado em 1961 por ricos empresários brasileiros, fez muito mais do que imprimir panfletos, editar livros e veicular propaganda para desestabilizar o governo do presidente João Goulart. A ação foi bem mais direta do que se pode imaginar: entre 1961 e 1964, período de alta instabilidade política no Brasil, o Ipês atuou energicamente em Brasília, dentro do Congresso Nacional. Trabalhava como emissário ipesiano um poderoso banqueiro carioca responsável por operacionalizar no coração do Poder Legislativo o pesado lobby do instituto, cujo financiamento era sustentado por doações de grandes empresas brasileiras e multinacionais aqui instaladas. Sua função era clara: coordenar uma rede suprapartidária de parlamentares arregimentados pelo Ipês para barrar os projetos do governo no Congresso. Dessa forma, Jango se veria cada vez mais isolado na cena política nacional, criando um clima de instabilidade que o levaria a radicalizar o discurso e a ação.
O braço do Ipês no Congresso Nacional era chamado GAP (Grupo de Assessoria Parlamentar). Conforme identificam historiadores que se debruçaram sobre o período, com especial atenção para o caráter civil-empresarial do movimento golpista, o GAP — ou “Escritório de Brasília”, como a diretoria ipesiana, preocupada com a discrição, recomendava que fosse chamado — desempenhava a coordenação política da campanha anti-Jango. Sua liderança era exercida por meio da ADP (Ação Democrática Parlamentar), constituída basicamente de deputados da UDN (União Democrática Nacional), de direita, e do PSD (Partido Social Democrático), de centro-direita. A atuação dessas instituições, capitaneadas pelo Ipês, foi marcante no Congresso Nacional. O próprio líder ipesiano do Escritório de Brasília recomhecia que a ADP “era o braço principal” do Ipês, responsável por fazer “bastante lobby” entre os parlamentares.
O historiador Hernán Ramírez afirma, em sua tese, que não faltam documentos indicando as inúmeras tentativas de manter essas incursões do Ipês na cena política “no maior sigilo possível”. Por esse motivo — discrição —, uma carta da diretoria do Ipês de dezembro de 1962 ditava a seus membros as diretrizes: “Toda menção ao GAP deve ser suprimida. Talvez deva-se falar em termos de Escritório de Brasília, sem mais explicações”.
Este cuidado por parte do Ipês indica que suas lideranças estavam cientes de que essa relação direta do Instituto com a classe política era, no mínimo, mal vista — para não dizer ilegal. Não se sabe ao certo de que maneira o Ipês, por meio do GAP, assegurava a lealdade dos parlamentares arregimentados pela ADP, mas Ramírez escreve que o Instituto “patrocinava e até certo ponto controlava” os deputados da ADP.
O homem forte do Ipês em Brasília era o banqueiro Jorge Oscar de Mello Flores. Além de ipesiano graúdo e diretor da Sul América Seguros, o banqueiro do Chase Manhattan Bank foi nome de relevância no setor de seguros privados do Brasil. Ajudou a fundar na década de 1940 a FGV (Fundação Getúlio Vargas) e, mais tarde, a Consultec (Companhia Sul Americana de Administração e Estudos Técnicos), firma idealizada por Roberto Campos que emitia pareceres sobre solicitações de empréstimos de empresas estrangeiras perante o BNDE. No GAP, Mello Flores era assessorado pelo escritor Rubem Fonseca. Como Mello Flores relata, seus principais contatos no parlamento eram os deputados João Mendes (UDN-BA), presidente da ADP; Herbert Levy (UDN-SP), presidente da UDN; Amaral Peixoto (PSD-RJ) e Antônio Carlos Magalhães (UDN-BA), um “baiano que ajudava muito”, nas palavras dele.
Também em Brasília, quem atuava em função semelhante — porém mais aberta — no Legislativo era o integralista Ivan Hasslocher, que chefiava o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Hasslocher manejou vultosos fundos na campanha eleitoral de 1962, promovendo os candidatos da ala conservadora junto a rádios, jornais, revistas e emissoras de TV por todo o país. A relação entre Ipês e Ibad era bem próxima; as instituições compartilhavam ideais, objetivos e métodos de ação. O pleito de 1962 foi o momento de convívio mais intenso entre os institutos; o Ibad, porém, teve atuação mais descarada do que o Ipês, cuja diretoria era bem mais preocupada com a discrição das ações.
As chamadas “Reformas de Base” eram a principal bandeira política de João Goulart. Sob esse guarda-chuva estavam profundas mudanças nos sistemas bancário, fiscal, urbano, administrativo, agrário e universitário; todas com o objetivo de produzir avanços sociais e reduzir as desigualdades no país. O Ipês, representante das forças conservadoras, era firmemente contrário a essas mudanças, dando início a uma forte campanha para frear o avanço da proposta janguista.
Se João Goulart tinha um plano de governo, o Ipês também possuía o seu próprio. E fez de tudo para impô-lo sobre o governo: o Instituto dividiu-se em comissões, setorizou as áreas temáticas, encomendou estudos e publicou incontáveis artigos em jornais para mobilizar a opinião pública. E também contra atacou com o Escritório de Brasília: “por volta de março de 1963, o Ipês havia submetido à análise do Congresso 24 projetos de lei” sobre o tema, conforme escreve Hernán Ramírez.
A ação mais ostensiva de campanha política de 1962 era feita por Ivan Hasslocher no Ibad, utilizando-se de altas somas de dinheiro vindo de doações empresariais e estrangeiras, como o próprio embaixador estadunidense Lincoln Gordon confirmaria posteriormente, em entrevista de 1977 à revista Veja: “Havia um teto por candidato. O dinheiro era para comprar tempo no rádio, imprimir cartazes. E você pode estar certo de que eram recebidos muito mais pedidos do que podíamos atender”.
Embora tenha negado em na década de 1990, Jorge Oscar de Mello Flores foi incumbido pelo Ipês de atuar nas eleições. Em atas de reuniões do instituto, o banqueiro aparece compartilhando com colegas ipesianos seu temor pela sua exposição pública. Ele acreditava que talvez tivesse que se desligar do Ipês para preservar sua discrição, razão pela qual disse que precisava de uma sala para atuar fora do espaço físico do Congresso Nacional.

sexta-feira, 14 de março de 2014

A desgraçada situação da Hungria sob o sistema capitalista




Jorge Vital de Brito Moreira

Sinto indignação quando  observo tanta gente inteligente iludida e mistificada pela propaganda da mídia corporativa dos EUA! Para inicio de conversa é preciso falar e escrever que se queremos defender a possibilidade de existência de uma sociedade democrática neste planeta no futuro, temos de levantar as nossas vozes em defesa dos países e dos povos invadidos e saqueados pelos EUA; e denunciar, através de blogues progressistas e mídia alternativa,  o papel dos meios de comunicação de massas em prol do imperialismo estadunidense.
Não nos deixemos enganar: os grandes jornais, as revistas, os canais de TV e os filmes holywoodianos, são, na sua imensa maioria, veículos da permanente desinformação do povo estadunidense. Estes meios estão acostumados a enganar a opinião publica mundial sem nenhuma vergonha ou escrúpulos morais. Eles funcionam como o Ministério de Propaganda do Governo e do Poder Corporativo desta nação. Assim, eles são incansáveis no seu esforço para ajudar ao governo na tarefa de denegrir a Rússia, a China, a Venezuela; enfim, a qualquer nação que se atreva a questionar ou a tratar de impedir a expansão, a anexação e a dominação politica-econômico-militar-territorial do imperialismo estadunidense.

A ultima campanha propagandista do governo e da mídia corporativa dos EUA que estamos presenciando é pintar a Rússia e seu presidente com os piores adjetivos que possam existir. Por que? Porque o presidente russo Putin (em vez de atuar como o bêbado Boris Yeltsin ou o deslumbrado Mikhail Gorbachev, que traiam a União Soviética por qualquer garrafa de vodka ou caros abrigos de peles) decidiu oferecer resistência e defender os interesses do povo russo (e sua cultura eslava) contra a sanha anexadora dos EUA, da Europa ocidental e da OTAN sobre o leste europeu. O escritor-jornalista Stephen F. Cohen, editor do jornal the Nation e professor de Russian Studies and History na New York University, descreve com indignação a cobertura propagandística que realizam os meios dos EUA sobre a Rússia como um “tsunami de artigos politicamente incendiários, vergonhosamente falsos e carentes de toda profissionalidade” (“tsunami of shamefully unprofessional and politically inflammatory articles in leading newspapers and magazines” portraying Russia in a narrow-minded way, missing some larger things happening in the region) (1). Por outro lado, a mídia corporativa dos EUA realiza uma gigantesca apologia deste sistema celebrando interminavelmente a globalização neoliberal capitalista,  tratando de oferecer aos povos do leste europeu que se deixem conquistar, uma sedutora recompensa econômica e moral (ainda que os EUA não tenham nenhuma condição moral a oferecer) equivalente ao paraíso na terra.

             Se pudéssemos neutralizar  o caráter falsificador da mídia corporativa e informássemos honestamente qual é a realidade sócioeconômica atual dos países que foram seduzidos pelo discurso neoliberal e caíram na estupidez de entrar para o sistema capitalista, grande parte da fantasia e consenso obtido em prol  do modelo capitalista desapareceria.
 E podemos ter uma prova do que acabo de me referir se escutamos a letra da composição musical "Rendszerváltás (A Nagy Csalódás)"- “A Decepção com a Mudança de Sistema”-  que trata da situação desgraçada que se abateu na Hungria depois que saiu do socialismo e entrou no capitalismo.  
Assim, Mouksa, o ex-cantor/compositor/guitarrista dos “Psychedelic Cowboys” (Cowboys psicodélicos) uniu-se com o letrista e presidente da ATTAC, Hungria (2),  Matyas Benyik em agosto de 2013, para escrever esta canção sobre os sentimentos generalizados da decepção com os resultados da mudança de sistema na Hungria desde 1990. A composição musical "Rendszerváltás (A Nagy Csalódás)"- “A Decepção com a Mudança de Sistema”- quer ir além da medíocre política partidária para falar das terríveis condições da realidade da desigualdade social que explode na forma da pobreza, da falta de emprego e da falta de moradia generalizada na Hungria durante os últimos 25 anos de capitalismo. Em seguida colocarei o link do vídeo com a gravação que foi feita pela nova banda de Mouksa, “The Mouksa Underground” nesse mes de fevereiro de 2014. Também colocarei em seguida a tradução para a língua portuguesa. A composição foi realizada em húngaro, mas a tradução que fiz para o português foi baseada na tradução à língua inglesa.



Por mais de vinte anos 
Temos estado à espera da vida boa
Para o cidadão comum
Em vez de riqueza tem pobreza
Exploração sem limites
Esta é a grande mudança de sistema
Isto é o que você esperava
Sem casa. Sem comida. Sem trabalho.
Mas isso é o que nos foi prometido que não  aconteceria
Os poderosos nos devoram
Os pobres sofrem todos os dias.
Esta é a grande mudança de sistema
Isto é o que você esperava
Quando haverá uma mudança real?
Quando haverá um mundo que vale a pena?
Quando haverá uma solução decisiva?
Quando este sistema econômico for abandonado para sempre
Esta é a grande mudança de sistema
Isto é o que você esperava 

Over twenty some years now
We've been waiting for the good life
For the average citizen
Instead of wealth we have poverty
Unrestrained exploitation
So this is the big system change
So this is what you waited for
No housing, no food, no work
But that's what was assured wouldn't happen
Those on top prey upon us
The poor suffer everyday
So this is the big system change
So this is what you waited for
When will real change occur?
When will there be a livable world?
The ultimate solution will arise
When this economic system is forever abandoned
So this is the big system change
So this is what you waited for
There is no solution but revolution

Não há outra solução que não seja a revolução

1) Vejam a contribuição de Stephen F. Cohen para Here and Now no link abaixo: http://hereandnow.wbur.org/2014/02/20/media-coverage-russia

2) ATTAC é uma organização internacional envolvida no movimento alternativo contra a globalização. ATTAC se posiciona contra a globalização neoliberal e trata de desenvolver alternativas sociais, ecológicas e democráticas como um modo a garantir os direitos humanos fundamentais para todos os seres humanos explorados.


domingo, 9 de março de 2014

Pensatas de domingo


No pano de fundo das confrontações estão as desigualdades na Ucrânia. O leste e o sul, junto à Rússia e ao Mar Negro são mais desenvolvidos e industrializados do que o oeste, mais pobre. O leste, de um modo geral, tem seu foco econômico voltado para a vizinha Rússia, de que depende o abastecimento de gás do país, vital para a indústria e para o aquecimento durante o inverno. Se a Rússia endurecer a questão do fornecimento de gás, cortando-o ou simplesmente cobrando o preço de mercado, a Ucrânia literalmente congela – em todos os sentidos. Entretanto para o oeste, mais  próximo da União Europeia, a aproximação com esta significaria em tese uma maior autonomia em relação ao governo central e às demais regiões do país, além de mais oportunidades de colher investimentos.
Se este é o pano de fundo , deve-se levar em conta o que acontece nos bastidores e também no palco da política ucraniana. Nos bastidores pairam as sombras dos grupos econômicos – assim como na Rússia liderados pelos chamados “oligarcas” – que se formaram depois do desmanche da União Soviética, dos processos de privatização generalizados, feitos a toque de caixa, e da independência. Estes grupos de oligarquias é que dão as cartas – o poder do dinheiro – para os que estão no palco, os políticos e seus partidos.  
No entanto, a firme postura da Rússia na atual crise ucraniana poderá ter surpreendido muitos analistas políticos acostumados a assistir às constantes capitulações diante do imperialismo ianque.
Os EUA que tripudiou impunemente do estado líbio, arrasando e saqueando uma nação inteira, sem ter encontrado uma única resistência internacional em oposição à sua investida assassina contra um país soberano, agora roga-se a julgar e tentar punir o “agressor”. Obama seguia tranquilo e impunemente a trilha política deixada por Bush, que invadiu o Iraque e Afeganistão sem que as outras duas potências militares mundiais, China e Rússia, movessem uma "única palha" para deter a sanha criminosa do imperialismo ianque.
Porém, a "águia imperial" quando já afiava suas garras para atacar a Síria, vítima da mesma estratégia da CIA de fomentar "revoluções democráticas" em países adversários, encontrou desta vez uma considerável "trave militar" formada pelo Irã e Rússia em socorro do regime Assad. Obama que já tinha anunciado em cadeia mundial o ataque à Síria, baseado em uma covarde provocação montada pelos "rebeldes", foi obrigado a recuar ante a possibilidade de deflagrar um conflito militar internacional envolvendo o poderio bélico russo.
Acontece que os abutres ianques se mostram muito "corajosos" quando se trata de agredir uma nação que sequer conseguiu colocar sua frota de caças no ar para se defender, como ocorreu na Líbia, mas quando a questão é combater em igualdade de condições os Mig ou Sukoy, os F16 ou F 18 norte americanos não demonstram a mesma "valentia".
Na Ucrânia os atuais "revolucionários" da praça Maidan em Kiev, amantes de Mussolini e Obama, não tiveram muita dificuldade para afugentar do governo o covarde Yanukovich, apesar das mortes que ocorreram em ambos os lados, mas quando Putin anunciou que não deixaria isolados os compatriotas da Crimeia, logo as milícias fascistas foram pedir ajuda ao Tio Sam que além de "espernear" e ameaçar a Rússia com sanções econômicas, não se mostrou disposto mais uma vez a enfrentar militarmente uma outra potência atômica.

domingo, 2 de março de 2014

Pensatas de domingo e a Guerra Morna


Antes de mais nada é com grande alívio que ainda consigo postar a pensata abaixo ainda no domingo em curso. Apesar do grande problema com o sinal da internet desde ontem pela manhã, consegui que a prestadora dos serviços de web corrigisse as falhas em tempo.

Será que a Guerra Fria de fato terminou? Muito estranho, mas passados mais de 20 anos após a queda da URSS, as tensões entre russos e estadunidenses continuam em nível de extrema perculosidade quanto a consequências de um conflito direto. E logo entre as maiores potências nucleares mundiais.
Neste caso é conveniente que se analise o quanto este provável embate exista para alem de formas de governo “a princípio” diferentes. E digo a princípio porque nos “finalmentes”, o que existia na União Soviética não era socialismo. E a questão é (finalmente) de zonas de influência. Apenas de um ponto de vista mera e simplesmente capitalista e imperialista...
É verdade que, no início houve uma séria tentativa da construção do socialismo, mas esta foi abortada por Stalin e sua visão distorcida da construção do “socialismo em um só país”, que culminou na implantação de um estado burocratizado, dominado pela sua sectária Momenklatura.
Na realidade, os EUA e seus asseclas se aproveitaram do embate entre “ocidente x oriente” para, tendo como meta derrubar toda e qualquer ideia de socialismo. Por nocaute. E, com auxílio de uma mídia oportunista, difundir este princípio. Daí em diante veio todo aquele papo furado de “fim das ideologias” e outras correntes de pensamento completamente furadas.
O que acontece está ai exposto claramente. A animosidade entre os Estados Unidos e a Rússia estão evidentes, causando confusão entre aqueles que não compreendem o que de fato acontece neste mundo entregue ao poder totalitário da burguesia.
É a Guerra Morna esquentando e colocando em risco nossa segurança neste planeta.