segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Por que Miró?



Postei hoje pela manhã um quadro importante de Joan Miró; no meu entender um dos maiores artistas de todos os tempos.
Sagrada Familia de Gaudi
Minha admiração por sua obra levou-me a Barcelona e à Fundació Joan Miró (foto da fachada acima), local em que permaneci pelo maior tempo que me foi possível, tendo em vista que naquela cidade também sou fã incondicional da obra de Gaudi, a quem dediquei muita de minha disponibilidade restante percorrendo obras suas como a igreja da “Sagrada Família”.
Salões da Fundació Miró
Aliás, estar em Barcelona por si só já é um grande presente. Não é à tôa que quando estivemos lá, íamos passar três dias e ficamos sete. A cidade, as Ramblas, o povo simpático são fatores que a atraem e a tornam inesquecível. Por isso, se algum dia for a Barcelona, fique por lá o maior tempo possível... você não se arrependerá!



Carnaval de Arlequim - Miró - 1924/25


Esta importante fase da vida de Miró é marcada pelas obras: O Carnaval de Arlequim, 1924-25, e Maternidade, 1924, pois inauguraram uma linguagem cujos símbolos de fantasia remetem a uma mescla de estilos: A arte naïf e o Surrealismo.

Naïf é a arte que é produzida por artistas sem preparação acadêmica na arte que executam, o que não implica que a qualidade das suas obras seja inferior. Caracteriza-se, em termos gerais, pela simplicidade e, por vezes, ausência de alguns elementos ditos característicos pelo academicismo.

Carnaval do Arlequim, a notável pintura de Miró – que revela inconfundivelmente seu estilo pessoal – consiste em inúmeros desenhos que exprimem uma espécie de autoanálise. Esta, por sua vez, foi obtida através de momentos de profunda concentração, abdicando inclusive de alimentar-se.

Mais tarde, ao recordar esse período de sua vida, em que alternava os verões em Montroig e os invernos em Paris, o próprio Miró diria que havia uma diferença básica entre eles e os colegas ligados ao surrealismo. Enquanto estes utilizavam substâncias artificiais para "abrirem livremente as portas da percepção", seu principal canal com o mundo da alucinação e do delírio era mesmo a fome. "Eu voltava tarde da noite para casa e, por falta de dinheiro, não jantava. Assim, rabiscava no papel as sensações que a fome provocava em meu organismo", revelaria. Sem conseguir vender um número suficiente de quadros que lhe permitisse uma vida apenas razoavelmente digna, Miró chegou a enfrentar o rigoroso inverno de 1925 tremendo de frio, pois não tinha recursos para sequer mandar consertar o aquecedor que estava quebrado.


domingo, 9 de dezembro de 2018

Pensatas de Domingo. O balanço da repressão aos protestos populares na França e o primeiro escândalo pós eleições no Brasil


Os violentos acontecimentos em Paris, os maiores desde 1968, nos levaram à reflexão sobre as consequências do neo-liberalismo e a revolta do cidadão comum quanto a este sistema de exploração que os vitima. O ministro francês do Interior, Christophe Castaner, divulgou na noite deste sábado (8/12) um balanço dos protestos dos "coletes amarelos”: cerca de 125 mil pessoas saíram às ruas em todo o país e pelo menos mil foram presas durante os confrontos com a polícia. E mais de 100 pessoas ficaram feridas.

Após mais um dia de protestos marcados por carros incendiados, bombas de gás lacrimogêneo lançadas contra manifestantes, vitrines do comércio quebradas e lojas saqueadas, o ministro do Interior anunciou que 118 pessoas ficaram feridas e lembrou que no fim de semana passada esse número foi bem maior (201). Castaner também apontou que neste sábado, 17 policiais ficaram feridos, enquanto na semana anterior 284 foram atingidos.

Esse balanço provisório se deve em parte ao número importante de representantes das forças de ordem presentes nas ruas das cidades francesas. Dos cerca de 90 mil mobilizados em todo o país, 8 mil estavam apenas na capital, onde cerca de 10 mil pessoas se manifestaram durante o dia. 
   
Enquanto isso, no Brasil, ex-assessor de Flávio Bolsonaro fez 176 saques em um ano, gerando a primeira crise moral no futuro governo recém eleito. O ex-motorista do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) fez saques de dinheiro em espécie, muito além das possibilidades financeiras de sua conta em 2016.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou uma movimentação atípica de 1,2 milhão na conta do ex-assessor parlamentar e policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz naquele ano. Esse valor inclui tanto saques como transferências, créditos em suas contas, entre outras operações. Houve 59 depósitos em dinheiro vivo na conta do policial militar. Prática que dificulta a identificação dos responsáveis pelas transações. Queiroz também apresentou, para o Coaf, “movimentação de recursos incompatível com o patrimônio, a atividade econômica ou a ocupação profissional e a capacidade financeira”.

Boa parte das movimentações financeiras em que a outra parte é identificada se refere a transações com membros do próprio gabinete de Flávio Bolsonaro. Sete nomes que constam do relatório fizeram parte da equipe do então deputado estadual. Três são parentes de Queiroz. Estão na lista Marcia Oliveira de Aguiar (mulher), Nathalia Melo de Queiroz e Evelyn Melo de Queiroz (filhas). Todas também integraram em algum momento o gabinete de Flávio Bolsonaro. A partir de dezembro de 2016, Nathalia saiu da Alerj para integrar a equipe do hoje presidente eleito, Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados. Ela se desligou do cargo em outubro deste ano, na mesma data em que o pai deixou o gabinete do senador eleito", diz ainda a reportagem.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A linha de pobreza no Brasil aumenta cada dia mais




Em 22 anos, o Brasil viveu dois períodos em que a pobreza e a extrema pobreza passaram por reduções mais significativas. O primeiro, em 1995, que pode ser atribuído ao efeito da estabilização da moeda, mas cuja inflexão se restringiu a um único ano, já sendo registrada nos anos seguintes novamente uma tendência ascendente do número de pessoas naquela condição. Situação bem diferente é a que se identifica entre 2003 e 2014, nos dois mandatos do ex-presidente Lula e no primeiro mandato da presidenta Dilma. Nesse período, os números revelam que ocorreu uma contínua redução das duas variáveis, mesmo após a crise econômica internacional de 2008. Diferente também pela continuidade da queda, alcançando os bolsões mais distantes do Brasil profundo. A virtuosa combinação de uma política de desenvolvimento com inclusão por meio de programas e ações especificamente voltados para grupos sociais mais vulneráveis explica essa trajetória histórica de redução da pobreza e da extrema pobreza.

O Brasil não tem uma linha oficial de pobreza; há diversas linhas que atendem a vários objetivos. Chega-se a 4,2% da população segundo o recorte de pobreza extrema do Bolsa Família (85 reais mensais), 6,5% no recorte de pobreza extrema global do Banco Mundial (1,90 dólar por dia, ou 6,30 reais, equivalente a 134 reais mensais) e 12,1% com um quarto de salário mínimo per capita. Recortes de pobreza mais altos incluem a população com até meio salário mínimo per capita (29,9%) e a linha do Banco Mundial que leva em conta o nível de desenvolvimento brasileiro (e da América Latina) de 5,5 dólares por dia.

Um quarto da população brasileira (mais de 50 milhões) estava abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial em 2016, o ano mais agudo da recessão. Esse é o total de brasileiros que vive com menos de 5,50 dólares (18,24 reais) por dia, equivalente a uma renda mensal de 387,07 reais por pessoa em valores de 2016. Os dados, da Síntese de Indicadores Sociais 2017, foram divulgados na sexta-feira (30/11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Uma linha de 5,50 dólares (18,24 reais) foi criada em novembro de 2018 pelo Banco Mundial para países emergentes de renda média alta, categoria na qual se inclui o Brasil. A Linha Internacional da Pobreza de 1,90 dólar (6,30 reais) continua sendo o limite do organismo multilateral, mas o Banco Mundial criou ainda uma faixa que considera 3,20 dólares (10,60 reais) por dia. Na Síntese de Indicadores Sociais, além dos patamares do Banco Mundial, o IBGE usou como referência o salário mínimo e os valores mínimos para adesão ao Bolsa Família.

Na média nacional, 62,1% dos brasileiros vivem em domicílios que possuem acesso simultâneo aos três serviços de saneamento básico (abastecimento de água por rede geral, esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial e coleta direta ou indireta de lixo). Entre os 52 milhões de brasileiros que vivem com menos de 5,50 dólares (18,24 reais) por dia, uma das linhas de pobreza do Banco Mundial, só 40,4% vive em domicílios com esses três serviços.

O estudo também mediu quatro “inadequações” das moradias (ausência de banheiro ou sanitário de uso exclusivo dos moradores; paredes externas do domicílio construídas predominantemente com material não durável; adensamento excessivo, ou seja, a presença de um número de moradores superior ao adequado no domicílio; e ônus excessivo com aluguel, ou seja, quando o gasto com aluguel iguala ou supera 30% do rendimento).

Em 2015 parece haver a sinalização de que esse ciclo se interrompe e, em 2016, com os dados recém-divulgados pela PNAD Contínua, assiste-se a um agudo empobrecimento de parte da população, retrocedendo a patamares que tinham sido superados. É muito preocupante que, no que diz respeito à extrema pobreza, o Brasil voltou, em apenas dois anos, ao número de pessoas registradas dez anos antes, em 2006. Entre 2014 e 2016 o aumento desse contingente foi de 93%, passando de 5,1 milhões para 10 milhões de pessoas. Em relação aos pobres, o patamar de 2016 – 21 milhões – é o equivalente ao de oito anos antes, em 2008, e cerca de 53% acima do menor nível alcançado no país, de 14 milhões, em 2014. Entre tantas consequências, o espectro da fome, que havia sido superado nesse período, como constatou a FAO, pode estar voltando com maior rapidez do que se possa imaginar.

A avaliação desses resultados deve levar em conta o contexto bastante particular pelo qual passa o Brasil desde 2015 e mais marcadamente em 2016, quando vive aguda crise econômica e política, culminando com a queda da presidente eleita e a reversão das prioridades que tinham sido confirmadas pelas urnas. Em nome do restabelecimento do equilíbrio fiscal, a partir de maio de 2016, radicalizam-se as medidas recessivas tomadas pelo governo golpista. Um dos custos mais altos para o país, derivado dessa lógica de enfrentamento da crise, foi o acelerado aumento do desemprego. E quem pagou a conta mais cara foi a camada de menor renda das regiões com mercado de trabalho mais estruturado.

As políticas de enfrentamento da crise, dentro do modelo conservador que foi adotado pelo governo Temer, trouxeram um pesado fardo para o país, revertendo o período auspicioso de desenvolvimento com forte inclusão social, reflexo da social democracia dos governos então no poder. O ajuste fiscal que vem sendo realizado contrai o crescimento, restringe a receita, gera desemprego e acelerada ampliação da pobreza, como foi demonstrado. Reverte, também, o movimento que vinha sendo realizado de diminuição da desigualdade, o que tende a se acelerar com as restrições orçamentárias, através de cortes e contingenciamentos sobre programas e ações que poderiam atenuar as perdas sofridas pelos mais pobres.