domingo, 23 de abril de 2017

Pensatas de Domingo. Chávez, Bolívar e a democratização da comunicação



Quando se trata de bolivarianismo estamos falando de um processo de transformações políticas, sociais e culturais
  
Caio Clímaco*
Belo Horizonte, 17 de Abril de 2017

O termo "bolivarianismo" tornou-se conhecido mundialmente por conta do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez que realizou o resgate dos ideais do libertador Simon Bolívar durante o processo de desencadeamento da revolução bolivariana, no final dos anos 1990. Desde então, a expressão é utilizada e caracterizada frequentemente pela grande mídia brasileira com um caráter pejorativo e depreciativo, em que se busca desvirtuar o real significado dessa palavra. Em diversos veículos de comunicação de massa, o "bolivarianismo" é constantemente representado como um projeto de sociedade socialista retrógrada e autoritária que restringe a liberdade de imprensa e diminui o papel das instituições públicas.
 
Fato é que, quando se trata de bolivarianismo, estamos falando de um processo de transformações políticas, sociais e culturais, baseadas no resgate da história e da identidade do povo latino-americano e, mais do que isso, estamos falando também de participação popular, democracia direta e poder popular. O termo tem sua origem baseada no projeto de libertação iniciado por Simon Bolívar que teve continuidade nos governos da Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua. Simon Bolívar é um personagem importantíssimo na história da luta pela independência de pelo menos 6 países na América Latina (Bolívia, Equador, Colômbia, Panamá, Peru e Venezuela) e tinha como guia para as suas ações o lema "Pátria ou Morte", no entanto, a importância histórica do seu legado é pouquíssimo reconhecida no Brasil.
 
Nascido em 1783, na cidade de Caracas, na Venezuela, Simon Bolívar teve como ideal de sua vida a libertação e a independência dos povos da América da Latina. Para ele, somente a partir da liberdade dos povos latino-americanos seria possível alcançar outras conquistas importantes. Tanto lutou que conseguiu. Bolívar, mesmo sendo de origem aristocrata, não se vendeu a uma possível vida de privilégios e acabou sendo bastante influenciado pelas ideias libertadoras do pedagogo Simon Rodriguez, seu principal mentor. Durante o período de estudos que teve na Europa, acabou influenciado também pelas ideias iluministas e teve uma formação de caráter humanista.
 
Em 1813 liderou a luta pela independência na Venezuela, sendo proclamado El Libertador após vencer duras batalhas contra os espanhóis colonizadores. A partir daí participou da fundação e foi governador da Grande Colômbia (composta por Bolívia, Equador, Venezuela e Panamá), governou o Peru e a Bolívia e, ainda hoje, esse importante personagem da história influencia povos no continente sul-americano e em outras partes do mundo através de seus escritos, inspirando liberdade, autonomia, firmeza, valentia e força espiritual. Cabe ressaltar também que, ainda no século XIX, Simon Bolívar compreendeu a importância da comunicação em sua época, criando o jornal Correo del Orinoco que serviu como um importante instrumento propagandístico dos seus ideais e que tinha como lema a seguinte frase: "Somos libres, escribimos en un país libre y no nos proponemos engañar al público", ou somos livres, escrevemos em um país livre e não nos propomos a enganar o público.
 
Mas por que então a grande mídia brasileira teima em trabalhar para defenestrar este importante símbolo mundial? Por que será que nós brasileiros não conhecemos o legado e as ideias de Simon Bolívar? Para responder a essas questões convido o leitor(a) a refletir sobre o comportamento da grande mídia brasileira no decorrer da história recente do Brasil. Vamos resgatar aqui apenas um importante exemplo, mas em todo caso é possível fazer pesquisas mais aprofundadas na internet para se encontrar diversos outros casos semelhantes, pois este é o modus operandi dos grandes meios de comunicação.
 
A Rede Globo por exemplo apoiou, em 1964, o Golpe Militar que sequestrou a democracia brasileira por mais de 20 anos, além de assassinar e torturar militantes de esquerda e outros civis. Se não bastasse o apoio ao golpe, a grande mídia foi a responsável por contribuir incisivamente na marginalização de importantes militantes que atuaram contra o regime autoritário dos militares, foi o caso por exemplo de Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional, organização de esquerda que lutou arduamente pela conquista da democracia. Marighella foi e continua sendo acusado – pelos mesmos meios de comunicação – de facínora e terrorista, tudo isso porque, assim como Simon Bolívar, lutou pela liberdade de seu povo.
 
Em resposta a segunda pergunta podemos afirmar que não conhecemos o legado de Simón Bolívar porque temos um sistema de comunicação extremamente elitizado e concentrado nas mãos de pouquíssimas pessoas. Para se ter uma ideia melhor, quatro famílias são detentoras dos principais veículos de comunicação do país, seja ele revista, rádio, tv ou portais da web, somando um patrimônio de mais de 30 bilhões de reais. Essas famílias não possuem o mínimo de comprometimento com a democratização da informação e o pior, inventam a seu bel prazer as verdades que lhe convém, criando os heróis e os vilões de acordo com o seu interesse próprio.
 
A Constituição brasileira nos garante o direito à informação, no entanto, o que acontece na prática é um monopólio dos meios de comunicação por parte dessas famílias e o distanciamento da sociedade a esse direito. Além disso, a Constituição de 88 também proíbe deputados e senadores de participarem de organização definida como "pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público", no entanto pesquisas publicadas pelo site “Donos da Mídia” apontam que cerca de 20 senadores, 40 deputados federais, 55 deputados estaduais e 147 prefeitos são sócios ou diretores de empresas de radiodifusão.
 
Fica nítido que os personagens relevantes de nossa história estarão subjugados aos interesses de quem controla os meios de comunicação no país. A história de resistência e de luta do povo brasileiro e latino-americano estará debaixo do tapete enquanto não existir um processo de democratização da mídia no Brasil.
Uma frase que se tem escutado com certa frequência ultimamente é de que "estamos vivendo tempos sombrios". É hora portanto de resgatarmos a nossa história, nossos heróis nacionais e latino-americanos, pois um povo sem memória é um povo sem história. É hora de democratizarmos a comunicação e de compreendermos este direito como um direito legitimamente nosso, do povo brasileiro. Um direito que não nos será dado e que precisa ser conquistado, pois não é de interesse dessas organizações que a sociedade brasileira compreenda a sua história. Mais do que nunca é necessário compreendermos o nosso passado para que possamos construir o futuro de forma consciente, utilizando nossas próprias mãos para dar um sentido de pátria a este país.
 
*Caio Clímaco é estudante de Ciência do Estado e militante da Consulta Popular.

domingo, 16 de abril de 2017

Pensatas de Domingo. “Errar é humano, insistir no erro é americano, acertar no alvo é muçulmano”



Jorge Vital de Brito Moreira

Na cidade de Madison, capital do estado de Wisconsin, Romeu de Oliveira e Egroj Russell, dois amigos brasileiros que vivem atualmente nos EUA, sentam-se num bar mexicano para beber margaritas, provar o tira gosto de carnitas, e comentar as últimas notícias. Egroj pergunta:
- E aí Romeu, o que você achou da justificativa dos EUA para o ataque alucinado do presidente Donald Trump à Síria? O ataque do Trump lhe pegou de surpresa?
- Não, meu amigo... o ataque de Trump não me pegou de surpresa porque eu estava prevendo que ele ia lançar mão desse acostumado recurso terrorista dos EUA para aumentar a sua popularidade e a sua credibilidade que estavam em declínio.  Mas o ataque com 59 mísseis Tomahawk, ordenado pelo presidente Trump contra o Aeroporto Shayrat da Síria, não passou de mais uma exibição da estupidez, da arrogância e da prepotência do governo imperial dos EUA, pois a justificativa de Trump para atacar a Síria é mais uma escandalosa mentira como podemos verificar pelas denúncias da Rússia, da Síria, da Bolívia e de outros países que insistiram na falta de provas para apoiar a acusação dos EUA sobre a utilização de armas químicas pelo governo da Síria. Assim, voltamos para aquele mesmo ditado que foi criado depois da derrubada das torres gêmeas de Nova York, e que diz: “errar é humano, insistir no erro é americano, acertar no alvo é muçulmano”.
-Queria lhe informar, Romeu, que li as últimas declarações da organização dos Doutores Suecos pelos Direitos Humanos (SWEDHR) sobre o assunto e a SWEDHR responsabilizou a organização “White Helmets” (Cascos Brancos) e os “terroristas moderados” financiados pelos EUA, por esta encenação do uso de armas químicas na Síria. Aliás, a SWEDHR já tinha denunciado os “White Helmets” por terem sidos os responsáveis pelo assassinato de crianças da Síria e usarem as imagens das crianças mortas como propaganda visual contra o governo da Síria.
-Sim, Egroj, também li estas informações. E elas também revelavam que os “White Helmets” é uma organização financiada pelo bilionário estadunidense George Soros, pelos EUA e pela Inglaterra; uma organização que está associada à CIA (Central de Inteligência dos EUA), a Hollywood, e a determinados setores da indústria cinematográfica estadunidense. Aliás, esta associação entre os “White Helmets”, a CIA, Hollywood, Netflix e o ator e diretor George Clooney, foi denunciada recentemente depois que o documentário “White Helmets” ganhou o premio Oscar de Hollywood de 2017.
- Essa associação entre a presidência, Hollywood, a CIA, o Pentágono, os militares e a mídia corporativa, não é uma coisa nova Romeu! Foi revelada para o público em 1977 de uma forma muito inteligente pelo filme (comédia) estadunidense intitulado “Wag the Dog” que foi exibido no Brasil com o título de “Mera Coincidência”.
- De que trata este filme?
- O filme conta a história do presidente dos EUA que se vê  envolvido num escândalo sexual. Diante do escândalo sexual, da queda da credibilidade e da popularidade do presidente, um dos seus assessores (Roberto de Niro) ligado a CIA, contrata um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman)  para inventar um filme (um filme dentro do filme) sobre uma guerra no estrangeiro, para salvar o presidente do escândalo sexual. Através desse filme produzido por Hollywood, o presidente dos EUA foi capaz de desviar a atenção pública para a “guerra inventada” cinematograficamente em vez do escândalo sexual. O filme produz uma representação muito realista do que se passa politicamente nos EUA do passado, do presente e do futuro.
Egroj mordeu um taco mexicano de carnitas e logo perguntou:
- Existem outras razões porque você estava esperando este ataque terrorista de Donald Trump?
- Claro meu caro Egroj. Aqui estão as razões. Em primeiro lugar, o Donald Trump estava sendo submetido à constante e sistemática acusação do Partido Democrata, da mídia corporativa (CNN, MSNBC, New York times, Washington Post...), dos órgãos de inteligência, de ter sido beneficiado pela Rússia; que a Rússia ajudou Trump a ganhar as eleições presidenciais dos EUA.
Romeu, bebeu um gole de margarita, logo continuou:
- Em segundo lugar, o Trump estava sendo acossado por sucessivas derrotas: tanto no Congresso (pela rejeição de seu projeto para eliminar o Affordable Care Act, o “Obamacare”), como na Justiça dos EUA (pela rejeição dos seus “Decretos-leis” que queriam impedir a imigração da população de sete países aos EUA).
Romeu, mordeu um pedaço do taco de carne mexicana, e, logo prosseguiu:
-Em terceiro lugar,  Donald Trump estava sendo pressionado pela queda no seu índice de aprovação (de 46 para 38 por cento) nas últimas semanas diante da opinião pública dos EUA. Ou seja, bastava iniciar uma nova guerra (ou continuar com as guerras intermináveis nos países pobres) para Trump imediatamente parar a queda  de sua popularidade e da sua credibilidade no país; para imediatamente criar o consenso entre os estadunidenses.
Estimulado pela argumentação de Romeu, o amigo Egroj pondera:
- Por isso, o Donald Trump, decidiu apelar para a mesmo tipo de mentira, o mesmo tipo de farsa e o mesmo recurso terrorista que tem sido efetivo para todos os presidentes (republicanos e/ou democratas) anteriores a ele. Desta vez, o pretexto de Trump para bombardear a Síria foi a acusação (sem provas) da utilização de “armas químicas” por parte do governo Sírio.
- É isso aí! O governo Trump está usando o mesmo tipo de pretexto mentiroso, o mesmo tipo de farsa que foi usado antes pelo governo de George W. Bush contra o Iraque (a acusação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição massivas, bombas atômicas), ou seja, como recurso terrorista para invadir o Iraque e iniciar a guerra contra este país.
Egroj sintetiza seu pensamento:
- Em poucas palavras, o novo presidente dos EUA (supremacista, racista e militarista), não fez mais do que dar continuidade (através do ataque terrorista à Síria de Bashar al-Assad), a longa história e a perene tradição dos governos estadunidenses: propagar mentiras para enganar a opinião pública de dentro e fora dos EUA e atacar países e população dos países pobres do Oriente Médio. Uma tradição que tem sido intensificada pelas últimas presidências de governantes terroristas e genocidas como os ex-presidentes George W. Bush, Barack Obama.
- O discurso de Trump durante as primeiras semanas no poder enganaram parte da opinião pública. As aparências indicavam que ele como presidente atuaria de forma  diferente dos presidentes anteriores; que ele faria uma política independente dos poderes estabelecidos. Recentemente, Trump trocou seu discurso em 180 graus: Antes, no seu discurso, a OTAN não prestava pra muita coisa. Agora a OTAN é imprescindível nos seus planos de governo.  Antes, no seu discurso, a Rússia era uma nação imprescindível e que era necessário ter uma boa relação com Putin para resolver os problemas mundiais. Agora, no discurso dele, as relações entre a Rússia e os EUA chegaram ao seu ponto mais baixo.
- Qual é a conclusão que podemos tirar de toda essas mudanças do Trump?
- A conclusão que podemos tirar é que o presidente Donald Trump, como todos os presidentes anteriores foi finalmente submetida ao poder do estado profundo dos EUA. Em poucas palavras, de agora em diante, o presidente Trump, vai ouvir, obedecer e fazer a mesma politica que todos os presidentes fizeram antes dele; ou seja: vai se submeter as decisões do Complexo Industrial Militar e das agencias de espionagem e inteligência (CIA, FBI, NS), às diretrizes ideológico e políticas dos Newcons (novos conservadores), às exigências financeiras econômicas de Wall Street e das corporações multinacionais do imperialismo dos EUA. Em resumo, no essencial não vai mudar absolutamente nada com o governo de Trump.
- Okay mano. Vamos ter que parar este papo por aqui! Vamos tomar a última margarita, a saideira,  e vamos embora imediatamente porque não podemos dirigir embriagados neste país de merda!
- See you later, aligator.
- After awhile crocodile.

domingo, 9 de abril de 2017

Pensatas de Domingo. Um ataque que põe o mundo em risco.



Navios de guerra dos EUA no Mediterrâneo lançaram dezenas de mísseis Tomahawk que atingiram a base aérea de Shayrat, que segundo versão do Pentágono estava envolvida no ataque com armas químicas efetuado nesta semana.
Esta foi a primeira grande decisão de política externa de Trump desde que tomou posse, em janeiro, com o tipo de intervenção direta na guerra civil síria, que seu antecessor, Barack Obama, evitava. Os ataques foram reação ao que Washington diz ter sido um ataque com gás venenoso realizado pelo governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, e que matou ao menos 70 pessoas em território tomado por rebeldes.
A Rússia alertou nesta sexta-feira que os ataques com mísseis de cruzeiro dos Estados Unidos contra a base aérea síria podem ter consequências “extremamente sérias”, num momento em que a primeira grande incursão do presidente Donald Trump em um conflito externo abriu um racha entre Moscou e Washington.
“Condenamos fortemente as ações ilegítimas dos Estados Unidos. As consequências disto para a estabilidade regional e internacional podem ser extremamente sérias”, disse o enviado adjunto da Rússia na Organização das Nações Unidas (ONU), Vladimir Safronkov, durante encontro nesta sexta-feira do Conselho de Segurança da ONU.
Autoridades estadunidenses informaram forças russas antes dos ataques a mísseis e evitaram atingir militares russos. No entanto imagens de satélites sugerem que a base hospeda membros das forças especiais russas e helicópteros, parte dos esforços do Kremlin para ajudar Assad na luta contra o Estado Islâmico e outros grupos opositores.
 “Anos de tentativas anteriores de mudar o comportamento de Assad fracassaram e fracassaram muito dramaticamente”, disse Trump ao anunciar o ataque na noite de quinta-feira em seu resort na Flórida, onde se encontrava com o presidente da China, Xi Jinping.
A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, disse: “Estamos preparados para fazer mais, mas esperamos que isto não seja necessário”, disse ao Conselho de Segurança da ONU. “Os Estados Unidos não irão tolerar quando armas químicas forem usadas. Está em nosso interesse vital de segurança nacional evitar a disseminação e uso de armas químicas.”
Aliados dos EUA na Ásia, Europa e Oriente Médio expressaram apoio, embora por vezes com cautela.
A Rússia se juntou à guerra em nome de Assad em 2015, levando o confronto a favor do presidente. Embora apoiem lados opostos na guerra entre Assad e rebeldes, Rússia e EUA dizem compartilhar um único inimigo principal: o Estado Islâmico.
Damasco e Moscou negaram que forças sírias estavam por trás do ataque com gás, mas países ocidentais rejeitaram a explicação de que químicos vazaram de um galpão de armas de rebeldes após um ataque aéreo.
Além disso tudo, é bom lembrar que sob supervisão da ONU a Síria já havia eliminado suas armas químicas em 2014...

domingo, 2 de abril de 2017

Pensatas de Domingo




O excelente livro Why Marx Was Right do escritor e crítico literário inglês Terry Eagleton foi publicado na Espanha sob o título Por qué Marx tenía razón.   O livro também foi publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira com o seguinte título: Marx estava certo (1)
O professor Salvador Lopez-Arnal escreveu uma lúcida resenha “Contra la caricatura de una obra y un pensador esenciales” para o livro de Eagleton que foi publicada por rebelion.org. Dada a sua importância,  o professor Jorge Vital de Brito Moreira decidiu fazer uma tradução livre ao português para os leitores de Novas Pensatas.


Contra a caricatura de um trabalho e um pensador essenciais.

Salvador López-Arnal

"Já houve alguma vez um pensador mais caricaturado” que Karl Marx? Com esta pergunta, Terry Eagleton, o professor de Teoria Cultural da Universidade de Manchester, termina seu livro Marx estava certo. A resposta para essa pergunta provavelmente seria: Não, provavelmente não. As razões para essa interessada caricatura da obra de Karl Marx também são conhecidas. Eagleton  nos fala delas.

Esta última crise, revela Eagleton, “significou no mínimo que a palavra ‘capitalismo’, geralmente camuflada sob algum pseudônimo evasivo como ‘Idade moderna’,  ‘sociedade industrial’ ou  ‘ocidente’,   tornou-se mais uma vez moeda corrente e quando as pessoas começam a falar do capitalismo, podemos ter certeza de que o sistema capitalista se encontra em sérios apuros”.

Esta não é a única nota perspicaz, brilhantemente formulada pelo autor do livro Marx estava certo. Um prefácio, dez capítulos, uma conclusão e as notas compõem o que é provavelmente o último livro, ou um dos últimos ensaios do grande e incansável Terry Eagleton. Estas são as razões para este ensaio: “Este livro teve origem em uma única e extraordinária ideia: e se todas as objeções mais conhecidas à obra de Marx forem equivocadas? Ou, no mínimo, se não equivocadas de todo, o forem em sua maior parte?”

Algumas das objeções, na maior parte conhecidas, que Eagleton discute e refuta (ele não se esconde diante das mais incomodas, mas tão pouco se prontifica a fazer um catálogo tipo Leporello-Don Giovanni) são as seguintes: No primeiro capítulo, Eagleton refuta que “o marxismo tenha acabado”; que o marxismo talvez pudesse ter alguma relevância num mundo de fábricas e de revoltas por fome de mineiros do carvão e de limpadores de chaminés, num mundo de pobreza generalizada e de concentração das massas trabalhadoras; que o marxismo não faz sentido nas sociedades ocidentais pós-industriais de hoje, caracterizada por diferenças de classes sociais cada vez menores e por um aumento crescente da mobilidade social. (Que poesia, Dona Sofia!).
No segundo capítulo, Eagleton refuta a objeção de que "o marxismo pode ser bom em teoria, mas sempre que foi colocado em prática, resultou em terror, em tirania, no assassinato massivo em grande escala”. No terceiro,  Eagleton  refuta a objeção de que o marxismo é apenas mais uma forma de determinismo que transforma homens e mulheres em seres autômatos, dominados pela ‘História econômica’ do mundo. No quarto, Eagleton questiona a objeção de que o marxismo seja um sonho utópico; que “acredita na possibilidade de uma sociedade perfeita, sem dificuldades, sem sofrimento, sem violência e sem conflito”. No quinto, Eagleton refuta a objeção de que “o marxismo reduz tudo à economia e nega todas as outras dimensões humanas, como a psicologia, a biologia, a espiritualidade, a arte, laços sociais não econômicos, enfim, toda e qualquer forma humana que não seja condicionada pelos laços e interesses econômicos”. No sexto capitulo, Eagleton refuta a objeção de que Marx foi um materialista chato; que “acreditava que não havia nada mais do que a matéria”; que não estava interessado em absoluto nos aspectos espirituais da humanidade. No sétimo capitulo, refuta a objeção que fazem ao conceito de classe social; de que “nada é mais obsoleto no marxismo que a sua tediosa obsessão com a classe social.” No oitavo, Eagleton questiona a argumentação de que os marxistas defendem sempre e em todas as circunstâncias a ação política violenta; que “eles rejeitam o caminho sensato da reforma moderada e gradual e optam sempre pelo caos sangrento da revolução”. No nono capitulo, que o marxismo acredita no Estado todo-poderoso; e, finalmente, no décimo, que “os movimentos radicais mais interessantes das últimas quatro décadas surgiram todos, sem exceção, ‘fora do âmbito do marxismo”.

Não se trata aqui, nesta resenha, de dar conta das explicações críticas de Eagleton a essas objeções, mas de ressaltar, a título de exemplo, alguns dos seus comentários. Sobre a não espiritualidade do marxismo, ele diz: "O espiritual tem certamente a ver com o extramundano (outro mundo). Mas não com o extramundano tal como é concebida pelos religiosos. Trata-se, mais bem, de um outro mundo que os socialistas aspiram a construir no futuro no lugar deste mundo que já tem a data de validade vencida. É evidente que quem não seja extramundano neste sentido ainda não parou para olhar de perto, detidamente, o mundo que existe ao seu redor". Sobre a fixação marxista ao conceito de classes sociais, diz Eagleton: "[...] somente indivíduos que reduzem a realidade da classe social a uma questão de donos de fábricas vestidos com um fraque e a trabalhadores vestidos em seus macacões de trabalho, somente esses indivíduos são capazes de aderir a uma ideia tão simplista. Convencidos e convencidas de que classe social está tão morta como a guerra fria, esses indivíduos recorrem não à classe social, mas à  identidade, à etnia e á sexualidade. No entanto, no mundo de hoje, esses fatores são tão interligados com a classe social como têm sido desde sempre"

Nas conclusões do seu estudo, algumas discutíveis ou que necessitariam de mais detalhes , Eagleton lembra de outras teses marxistas que valem a pena lembrar. Por exemplo, Marx tinha uma crença apaixonada no indivíduo e uma grande desconfiança em dogmas abstratos: ele não estava interessado no conceito de sociedade perfeita, Ele desejava  promover a diversidade, não a uniformidade. Entre os seus ensinamentos, Marx não aceitava que homens e mulheres tivessem que ser brinquedos impotentes nas mãos de uma História com letras maiúsculas; Marx concebeu o socialismo como um aprofundamento da democracia e não como um inimigo dela; seu modelo de vida plena estava baseado na ideia da autoexpressão artística e que nenhuma produção material se transformara em fetiche. Seu ideal era o lazer e o tempo livre no lugar do trabalho; se Marx prestou tanta atenção à economia era precisamente com o objetivo de diminuir o poder do lado econômico sobre toda a humanidade; seus pontos de vista sobre a natureza e o meio ambiente foram, em sua maior parte, surpreendentemente avançados para seu tempo. Além disso, para Eagleton, sem  exagerar nas tintas e sem cair na cegueira da paixão, nunca existiu "um  defensor mais ferrenho da emancipação das mulheres, da paz mundial, da luta contra o fascismo ou da liberdade anticolonial que o movimento político iluminado pela obra de Karl Marx". Não é que nós não tenhamos de rever o que necessita de revisão, ainda que seja tudo o que temos de fazer, o que não está nada mal.
Eagleton (que não cultiva jardins da idiotice ou insensatez) não pretende sugerir nem defender que Marx nunca tenha dado um passo em falso.  Não sou, diz Eagleton, "esse tipo de esquerdista que, por um lado, proclama devotamente
que tudo está aberto à crítica e depois, quando convidado a produzir três grandes críticas a Marx se recolhe a um silêncio truculento, cheio de mal humor”.

Como Eagleton mesmo admite, ele não se propôs expor a perfeição, a veracidade, nem a correção eterna (für ewig) de todas as ideias de Marx, mas apenas – e isso não é pouco – a sua plausibilidade. Na minha opinião, Eagleton conseguiu o que pretendia, ainda que ele não seja um leitor devoto de Marx (se pode notar pela bibliografia consultada), nem um praticamente devoto da filologia marxista, e de ser capaz de fazer reflexões, com ironia incluída, com alta tensão politico-epistêmica. Esta reflexão de Eagleton, por exemplo: “Em seus comentários sobre Wagner  (Notes on Wagner), Marx fala em termos impressionantemente freudianos sobre a primeira identificação pelos seres humanos de objetos no mundo em termos de dor e prazer, e logo aprendem a distinguir quais deles satisfazem necessidades.  O conhecimento, como acontece com Nietzsche, começa como uma forma de domínio sobre tais objetos. Assim, o conhecimento está associado, tanto por Marx como por Nietzsche, com o poder." Muita coincidência entre Freud, Marx e Nietzsche mostra este fragmento.

PS: Eagleton nos dá um bom argumento para fertilizar (sensatamente) a tradição marxista: Assim como “nenhum freudiano imagina que Freud jamais tenha cometido um erro crasso  (a generosidade de Eagleton com os freudianos é aqui evidente), assim como nenhum fã de Alfred Hitchcock defenderia toda e qualquer tomada de cena do mestre”, nenhum marxista, sem deixar de ser marxista (ou seja, reconhecendo-se na tradição), teria que defender que o revolucionário de Tréveris nunca dormiu em nenhuma página de O Capital ou em textos relacionados e não relacionados com o mesmo.

Nem a ciência, nem a filosofia, nem revolução social, nem as práticas transformadoras se alimenta com esse tipo de tempero. Eagleton recorda as palavras que Ludwig von Mises, um antissocialista, dedicou ao marxismo:
“(Se trata) do movimento de reforma mais poderoso que a história já conheceu, a primeira tendência ideológica não limitada a uma parcela da humanidade, mas apoiada por gente de todas as raças, nações, religiões e civilizações”.

 Se jogássemos no mar  alguns cabelos junto  aos termos "reforma" e "tendência ideológica", não poderíamos admitir que às vezes  o pensamento reacionário está informado, é poderoso e pode ver o que se necessita ver, acertando no alvo? (2)

Notas:
1) Terry Eagleton. Marx estava certo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2012.

2) Esta pergunta  do professor Salvador Lopez-Arnal a respeito  das palavras que o pensador antissocialista Ludwig von Mises dedicou ao marxismo,  também poderia ser dirigidas ao prefácio da edição brasileira (“Contra a caricatura: do estilingue à bomba atômica”) do filosofo conservador Luiz Felipe Pondé a este  livro de Terry Eagleton.