domingo, 15 de janeiro de 2017

Pensatas de Domingo. Lendo romance policial como realidade politica dos EUA e a realidade politica dos EUA como romance policial: o caso Barack Obama


de Jorge Vital de Brito Moreira

Não sou fã especial do gênero literário criado por Edgard Alan Poe que se denomina “romance policial”: nem da sua vertente inglesa (Arthur Conan Doyle, Agatha Christie…) nem da sua vertente norteamericana (o hard-boiled” de Dashiell Hammet e Raymond Chandler...). Porém como crítico da cultura, tenho a obrigação de estar quase sempre interessado nas relações entre cultura, ideologia, estética e política  que se manifestam, explicita ou implicitamente, na literatura, no cinema, na música e em qualquer outro discurso cultural produzido dentro do sistema capitalista de produção da sociedade.

Em outras palavras, é necessário estudá-lo por ser um gênero muito popular e muito consumido publicamente por gente de diferentes estratos sociais. Assim, poderia afirmar que estou quase sempre interessado em saber como se produz e reproduz o imaginário coletivo/popular, e quais são as formas ideológicas através das quais o sistema capitalista manufatura o consenso popular (através da cultura de massas)  com o objetivo de legitimar (ou deslegitimar) determinados projetos do poder socioeconômico, politico e cultural. Dado o anterior, me sinto inclinado a buscar algum tempo para ler tanto o romance policial inglês como os romances norteamericanos (sem excluir os filmes de detetives); sobretudo para ler os atuais romances policiais de escritores contemporâneos como Manuel Vázquez Montalbán (espanhol), Paco Taibo II (mexicano) e do brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza (1).

Dado o proposito, faz três dias, acabei de ler, dentro da vertente norteamericana hard-boiled”, um importante romance do autor estadunidense Jim Thompson que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecê-lo. Na língua inglesa, o romance se intitula “Pop. 1280” mas poderia ser titulado “1.280 almas”, se for traduzido ao português.

Pop. 1280” é um dos mais famosos livros do escritor Thompson (2). Publicado em 1964, o título se refere ao número de habitantes de uma pequena cidade de um estado (possivelmente o Texas) dos EUA, onde dentro do número 1280, também se incluem os negros da cidade, pois, conforme a narrativa, o censo obriga a contar os negros “como se fossem seres humanos”. De fato, o romance questiona e representa, trágica e comicamente, os conflitos sociais produzidos pelas diferenças de gênero (homem/mulher) e de raça (branco/preto) dentro de uma sociedade inteiramente dividida pela luta de classes sociais. 
  
O romance é narrado na primeira pessoa e o narrador/protagonista, Nick Corey, é o xerife de Potts County, um pequeno povoado de um estado sulista dos EUA. Aparentemente gentil, inofensivo e simpático, o demagógico Nick Corey esconde uma inteligência maquiavélica que lhe ajuda a fazer diabólicos planos para ser reeleito como xerife da cidade e vencer os candidatos adversários que oferecem melhores princípios morais que ele (e que estariam distantes da corrupção) num meio ambiente patriarcal, classista, racista, sexista, formado por gente puritana e hipócrita.

Assim, quando o personagem Nick Corey, decide conquistar algo (ou alguém) para justificar e legitimar seus objetivos políticos desumanos e individualistas, costuma usar e abusar da violência. Mas a violência que ele usa e abusa não será apenas um simples recurso, será muito mais uma complexa extensão instrumental do seu modo de pensar e de sentir, ou seja, daquilo que ele considera inevitável e eficiente para o ambiente em que vive. Assim, Nick se revela não apenas como um indivíduo psicopata, mas como um agente político cuja psicopatia se expressa num tipo de ética e estética que são profundamente desumanas mas que é altamente funcional para manter-se no poder numa sociedade destrutiva, radicalmente exploradora, dominadora e opressiva como a do sistema capitalista colonialista/imperialista dos EUA que conhecemos.

Entre os elementos formais destacados neste romance se encontra a presença de um leitmotiv que ao longo da narrativa expressa não somente o fluxo da má consciência ética e funcional do xerife Nick Corey mas que representaria, por analogia, o fluxo da má consciência da maioria dos presidentes e das autoridades dos Estados Unidos da América.  No capítulo XXIII do romance, por exemplo, o xerife Nick Corey (que tinha planejado o assassinado de sua esposa Myra e do seu cunhado Lennie) tem um último diálogo com a amante Rose (que tinha acabado de realizar o assassinato da esposa e do cunhado do xerife). Neste diálogo, Rosa pede ajuda do xerife, dizendo: “- Você tem que me ajudar, Nick. Você tem que me ajudar a resolver isso como seja.” (3)

O xerife Nick, calculando apropriar-se da fazenda de Rose, além de planejar reconciliar-se com a primeira mulher, recusa-se a usar seu poder para ajudar a amante a se livrar do crime cometido. O xerife responde: “- Bem, veja, eu não sei bem como eu poderia fazê-lo. Afinal, você é culpada de assassinato, fornicação, hipocrisia e ...” O xerife Nick recomenda à amante que fuja para um lugar bem distante de Potts County. Rose não pode acreditar nas palavras do infame xerife, e furiosa protesta: “- O que você está dizendo? Que idiotices são essas que você está falando?”

Nick responde cinicamente: “- Bem, veja, pode parecer idiotice, mas eu não tenho a menor culpa. Segundo a lei, eu deveria estar atento para os grandes e poderosos, aos tipos que realmente governam este lugar. Mas não me deixam tocá-los, então eu me vejo forçado a equilibrar a situação, sendo duas vezes mais implacável com esta escória humana de brancos, negros e pessoas como você, que teem o cérebro metido no cu, pois não encontram outro lugar para usá-lo. Sim senhora, eu sou um trabalhador na vinha do Senhor, e se eu não posso chegar aos mais altos, sou forçado a trabalhar com mais dureza com as camadas que estão por baixo de mim."

Ainda que o romance “Pop. 1280” tenha sido publicado em 1964, durante a presidência do texano Lyndon B. Johnson e seus crimes de guerra contra o povo vietnamita na Guerra do Vietnam, a analogia entre a atitude infame do protagonista Nick e as atitudes da maioria dos presidentes dos EUA poderia incluir recentemente, não somente a psicopatia terrorista do ex-presidente George W. Bush na guerra contra os povos do Iraque e do Afeganistão, mas sobretudo, poderia incluir a infame e doentia devoção militarista/terrorista do ganhador do premio Nobel da paz: o atual presidente Barack Obama já que, ajudado por Hillary Clinton no cargo de secretária (ministra) do Departamento de Estado, continuou com os crimes de  guerra contra o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Síria e demais países sob a invasão  ou o domínio imperial dos EUA. (4)

Historicamente, uma das principais características do romance policial “hardboiled” tem sido o seu compromisso com representar a dura realidade do conflito social entre as classes, os gêneros, e as raças na sociedade capitalista.  Pode-se afirmar que o romance policial “hardboiled” não tem sido neutro diante da injustiça social, e que, desde o seu início ele aparece conectado à crítica política e social. De fato alguns dos seus mais importantes autores tais como Dashiell Hammett, Jim Thompson (Graham Greene e o romance de espionagem inglês) eram homens de esquerda, e tanto Hammet como Thompson foram perseguidos e aprisionados pelo FBI por estarem ligados ao marxismo e ao partido comunista.

Esta característica principal, e outras importantes características do gênero hard-boiled” também comparecem na narrativa do romance “Pop. 1280”.  Assim, a narrativa na primeira pessoa; o uso da linguagem coloquial (sem eufemismos) e o uso de gírias de rua, a ambivalência moral e o cinismo estão presentes no romance.

A ambivalência no que diz respeito aos valores éticos, por exemplo, leva o xerife Nick não somente a quebrar sistematicamente a legalidade e a lei como a transformar-se no próprio criminoso, num irremediável assassino. O xerife Nick  apresenta-se como um homem honesto,  com pretensões  a ser um moralista  no exercício do poder, mas, em essência, desenvolve um profundo cinismo que lhe capacita para se converter num xerife assassino e continuar no exercício do poder

Estes traços de caráter do protagonista Nick, associados ao exercício do poder como xerife rural, parecem encontrar um paralelo nos traços de caráter do presidente Barack Obama no exercício do poder como presidente dos EUA.

Independentemente da consideração (ou hipótese) de se a narrativa do romance “Pop.1280” seria uma metáfora shakespeareana do exercício do poder presidencial nos EUA; ou se o romance “Pop. 1280” funcionasse como uma alegoria nacional (5) da historia do capitalismo estadunidense, a realidade é a seguinte: se tomamos o exemplo dos oito anos do governo do presidente Obama; se resumimos os momentos especialmente demagógicos e as contraditórios da sua presidência, poderemos  estabelecer uma ampla analogia  com a atuação do xerife Nick Corey no romance “Pop. 1280”. Assim, em relação ao constante rompimento das promessas do xerife aos seus eleitores, correligionários, seguidores, amigos e habitantes do condado de Potts County, o presidente Barack Obama,  nos seus dois períodos de governo, rompeu mais promessas aos eleitores dos EUA, que os presidentes que lhe antecederam. Conforme o Registro do sociólogo James Petras (6), a administração de Obama fez constantes promessas a seus eleitores e seguidores para depois revisar imediatamente o que tinha prometido e dar marcha à ré. Ou seja, cada uma de suas promessas de reforma social, de atenção sanitária e de política exterior (fundada na diplomacia e o respeito) somente serviram de prelúdio à imposição de novas políticas mais regressivas e a novas guerras contra os seres humanos.

Acompanhando o Registro que o sociólogo  Petras (entre outros pensadores estadunidenses) faz da politica interna do “xerife” Barack Obama nos EUA, fica evidente que durante os oito anos de sua presidência, Obama rebaixou as expectativas de todas as camadas populares que ele cortejou e seduziu durante as suas campanhas eleitorais, ou seja, dos nove de cada dez americanos negros que votaram em Obama nas duas campanhas presidenciais. Mas apesar do massivo apoio dos afroamericanos, durante a presidência de Obama, aumentou a desigualdade na distribuição de renda entre os trabalhadores brancos e negros, aumentou a violência policial letal contra os afroamericanos e multiplicaram-se os ataques de paramilitares brancos, incluindo a queima de igrejas afroamericanas. Os afroamericanos acusados ​​de delitos não violentos relacionados com o uso de drogas (traficantes e consumidores) teem sido encarcerados a um ritmo muito maior que os dos brancos, enquanto as gigantescas elites farmacêuticas e os médicos que prescrevem os narcóticos que estimulam a adição para os opiláceos obtiveram benefícios cada vez maiores com total impunidade no governo Obama (6). Em relação a politica de imigração, a administração de Barack Obama concretizou, entre 2009 e 2015, a expulsão de três milhões de imigrantes para fora dos EUA. Conforme o Registro revelado pelo professor James Petras, Barack Obama detém o recorde de expulsão de imigrantes em toda a história dos EUA (7).

No plano da analogia relacionada à violência e ao extermínio do xerife Nick Corey contra seres humanos de outras latitudes, Obama, no plano da politica exterior, começou ou continuou o lançamento de sete guerras, e dezenas de operações violentas clandestinas, superando a do seu predecessor, o presidente George Bush filho. Suas guerras provocaram a maior cifra conjunta de africanos, árabes, asiáticos meridionais e europeus orientais despossuídos, feridos e assassinados da história mundial (8).

Resumindo, a analogia entre a atuação judicial e politica do xerife Nick Corey  e a atuação judicial e politica dos presidentes dos EUA (exemplificado nos dois períodos presidenciais de Barack Obama) sugerem que  o critério fundamental para avaliar o desempenho de um politico é seu papel (o lado em que se posiciona) na luta de classes politica-econômico-social-cultural: o conflito racial (ou de gênero) deve estar sempre relacionado, associado, articulado e/ou integrado à luta ou a guerra de classes sociais se quiserem ter eficiência para mudar a sociedade capitalista na qual estamos naufragando.

            Assim, a história do infame e barbáro governo do primeiro presidente negro (premio Nobel da paz que usava os “drones” para assassinar a população civil dos países pobres) durante os seus oitos anos como governante deste império é mais um exemplo de que os conceitos de raça (branco, negro...) e/ou de gênero (homem, mulher) de um individuo ou de um grupo não é suficiente para funcionar como critério fundamental para a avaliação do alinhamento ideológico e politico de Barack Obama (ou de qualquer que seja o presidente dos EUA) no plano econômico, social e cultural. Isolados, estes conceitos  de raça e gênero, (sem  conectar-se e integrar-se com o conceito de luta de classes) são conceitos demagógicos, pois não são capazes de dar conta  da  totalidade nem da complexidade das relações politicas econômicas e sociais entre os seres humanos na nossa sociedade, nem serão capazes de instrumentar as verdadeiras lutas imprescindíveis para derrotar o colonialismo, o imperialismo e o neoliberalismo, impostos pelos sistema capitalista no planeta Terra.

NOTAS

1) Pessoalmente prefiro ler romances policiais como “O Assassinato no Comité Central” (do espanhol Manuel Vázquez Montalbán) e/ou “Mortos Incomôdos”, Falta o que falta (de co-autoria dos mexicanos Paco Taibo II e o Subcomandante Marcos, EZLN) que romances policiais como “O Silencio da Chuva” ou “Achados e Perdidos” do brasileiro Alfredo Garcia-Roza.
Ainda que Garcia Rosa seja um notável ficcionista (extraordinário na narração do imaginário e fantasias dos seus personagens cariocas; excelente na descrição de locais e ambientes da cidade do Rio de Janeiro), a minha  preferência se deve ao fato do escritor Garcia-Roza ainda não ter sido  capaz, por um lado, de conectar a sua narrativa policial à gritante realidade histórica do Brasil: a de uma sociedade corrupta e corruptora que foi produzida pela existência de mais de 20 anos de ditadura militar para defender  os interesses da burguesia brasileira associada ao imperialismo dos EUA; por outro lado, do escritor não ter sido capaz de criar um protagonista brasileiro que lute para  transcender, politica e socialmente, a tradicional visão subjetiva (eticamente voluntarista e fantasiosa) encerrada no protagonismo do seu inspetor Espinoza. Ainda que a consciência individual, ética e voluntarista do filósofo judaico-português Baruch Espinosa, seja um dado ético exemplar da história da filosofia ocidental, em si mesmo, não oferece um modelo social, coletivo e eficiente, para combater a massiva corrupção do poder politico das autoridades brasileira, como podemos verificar pela função da corrupção na operação “Lava Jato” e no recente golpe de estado do PSDB e do PMDB contra a presidente Dilma Rousseff e a democracia brasileira.
A minha preferência também se refere ao fato de que a realidade histórica da narrativa de Montalbán transcende àquela das convenções do romance policial, conectando-se criticamente ao processo histórico da transição da sociedade espanhola (desde a ditadura do general Franco a suposta “democracia” que foi estruturada pela mesma correlação de forças sociais do período anterior: de um lado, a monarquia, a igreja católica, os militares provenientes do franquismo; do outro lado, as organizações representativas da classe trabalhadora espanhola). A mesma constatação poderia ser feita sobre a realidade histórica da narrativa de Taibo II e do sub comandante Marcos, pois ela está articulada às lutas de classes e as contradições politicas entre campo/cidade herdadas da revolução mexicana, como podemos observar no excelente ensaio “El detective social y los muertos despiertos: en busca de la justicia social desde el D.F. a Chiapas con Paco Ignacio Taibo II”, da professora Catherine  M. Bryan. Vejam este ensaio no link:


2) No romance “Pop. 1280”, a narrativa está situada nos EUA e foi originalmente editado pela Gold Medal Books em 1964, porém foi adaptado para o cinema pelo diretor francês Bertrand Tavernier: no seu filme “Coup de Torchon” (A lei de quem tem o poder) de 1981, a narrativa  está situada na África ocidental francesa.


 3) Os trechos dos diálogos em português que aparecem neste texto, correspondem a livre tradução do professor Jorge Vital de Brito Moreira.


4) Vejam a entrevista “Promesas rotas: El legado estructural de las democracias capitalistas” de James Petras  em: http://www.lahaine.org/mundo.php/promesas-rotas-el-legado-estructural

5) Sobre a função da alegoria na narrativa literária contemporanea vejam o ensaio de Fredric Jameson “Third-World Literature in the Era of Multinational Capitalism” no link http://postcolonial.net/@/DigitalLibrary/_entries/113/file-pdf.pdf
 Sobre a função do romance policial na perspectiva de um dos mais brilhantes criadores do gênero “Hardboiled” vejam o ensaio de Fredric Jameson “Sobre Raymond Chandler” na coletânea El Juego de los Cautos de Daniel Link.              

6) Vejam a entrevista do professor James Petras “Obama tiene el récord de expulsión de inmigrantes en toda la Historia de EE.UU.” no link: http://www.globalresearch.ca/obama-tiene-el-record-de-expulsion-de-inmigrantes-en-toda-la-historia-de-ee-uu/5563686                                                                           

7) Vejam o link da nota 6                                         

8) Vejam o link da nota 4 e da nota 6.

 

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domingo, 8 de janeiro de 2017

Pensatas de Domingo. O capitalismo e a bestialização massiva da humanidade



Teem acontecido casos de violência coletiva com uma frequência um tanto quanto absurda e assustadora. Pode-se garantir que a população estadunidense está completamente perdida e loucamente alucinada em busca do nada! E quando eu digo “nada” é porque a massificação da alienação acaba por retirar alguns valores e propósitos que desaparecem em pouco tempo. E não se trata de um discurso “moralista”, mas sim da procura de alguma moral que tenha sobrevivido a todo este massacre  desumano.

Neste momento nos aproximamos de Herbert Marcuse, pois quando este definiu o “Homem Unidimessional” (One-Dimensiobal Man – 1964)¹ era mais difícil entendê-lo no todo de sua abrangência. Mas será que nos dias de hoje não ficou claríssima a existência de uma humanidade robotizada, idiotizada, pisoteada e execrada a cada momento em que tenta persistir em seu caminho?

Marcuse se preocupava com o desenvolvimento descontrolado da tecnologia, os movimentos repressivos das liberdades individuais, e com uma desvalorização da razão em favor da técnica. Neste seu livro, Marcuse afirma que a sociedade industrial chegou a um ponto onde a burguesia e o proletariado, classes responsáveis pelo movimento da história, deixavam de ser agentes transformadores da sociedade para se tornarem agentes defensores do status quo. Os avanços da técnica solucionaram tantas pequenas necessidades, tornaram a vida destes grupos tão confortáveis, que o ímpeto revolucionário deles cessou. Ao mesmo tempo, a técnica possibilitou um controle social cada vez mais aperfeiçoado, e se tornou não um instrumento neutro, como se acreditava anteriormente, e sim engrenagem central de um novo sistema de dominação. E se o proletariado não era mais "sujeito revolucionário", grupo em oposição à sociedade hegemônica, que agrupamento social o seria? De acordo com Marcuse, isso cabe àqueles cuja ascensão não é permitida pela sociedade moderna, aos grupos minoritários à margem da sociedade que o bem-estar geral não conseguiu (ou não se interessou em) incorporar. E, neste sentido as interpretações de Michael Löwy e Daniel Bensaid², dois pensadores Marxistas-Trotskystas atuais, se identificam plenamente com essas conclusões de Marcuse.

Todos os filósofos que participaram até então da formação de Marcuse tiveram sua importância grandemente diminuídas quando foram editadas as obras da juventude de Karl Marx em 1932. Marcuse foi um dos primeiros a interpretar criticamente os “Manuscritos Econômico-filosóficos” de Marx e “pensava haver encontrado neles um fundamento filosófico da economia política no sentido de uma teoria da revolução”. Para ele, não era mais necessário recorrer a Heidegger para fundamentar filosoficamente o marxismo, já que viu no próprio Marx a possibilidade desta fundamentação.

Foi de Marx que embasou sua crítica ao Nacionalismo e aos efeitos que o capitalismo burguês veio ter na vida das pessoas. Também veio de Marx a proposta de que, com o desenvolvimento da tecnologia e do capitalismo como um todo, em conjunto com uma ação prática-revolucionária da sociedade, poderemos alterar as nossas condições e erguer uma nova organização social, que possibilite uma vida melhor para as pessoas, e onde elas não sejam bestializadas e alienadas. Marcuse procurou esboçar caminhos que nos levassem para além da organização sócioeconômica atual.

Podemos perceber, em “Eros e Civilização”, outro livro de sua autoria, um diálogo constante que Marcuse manteve com a obra Freudiana. Uma grande influência de Freud foi a busca da felicidade do ser humano, que veio através da satisfação dos desejos individuais. As pessoas hoje seriam infelizes porque a sociedade bloqueia a realização de seus desejos, e devemos tentar reverter essa situação. Será utilizado muito da teoria da psicanálise, também, para explicar o comportamento das pessoas na sociedade atual; por exemplo, como atuam suas pulsões e como procuram realizar ou reprimir os seus desejos.

E enquanto a matança continua, não importa mais quantos morreram ou deixaram de morrer. Não importa se prenderam ou executaram o(s) autor(es) do ato, como também não importa se este foi terrorista ou passional... O que de fato importa é constatar que a sociedade estadunidense, é inegavelmente o aglomerado humano mais violento da história! E o que importa finalmente é comprovar que o capitalismo em sua etapa de “barbárie” total não encontra limites à sua eminente implosão.

Portanto, orem os que rezam, torçam os que ainda acreditam na sobrevivência da espécie, mas, ou surge alguma alternativa ou locupletamo-nos todos... porque a classe dominante só foca o lucro, a exploração e a depender dela já estamos no fim os tempos! Os filmes de “zumbis” que o digam!

1. “Unidimensional Man” foi lançado no Brasil pela “Zahar Editores” em 1964 com o título de “Ideologia da Sociedade Industrial”

2. Ideias expostas em “Marxismo, Modernidade e Utopia”. Editado em 2000 pela “Editora Xamã”, São Paulo
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Estamos sempe a tentar corrigir erros


Mais uma vez ocorreram alguns problemas em nossa postagem de ontem( domingo 01/01;2017). Após muito esforço e persistência, se não conseguimos corrigir os erros, pelo menos os contornamos, já conseguindo a leitura de uma nota (a de nº 4) que estivera inelegível desde a primeira tentativa ainda ontem.

Pedimos mil perdões e agradecemos à compreensão de nossos leitores, pois estamos e continuaremos atentos a problemas do Provedor 
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domingo, 1 de janeiro de 2017

Pensatas de Domingo. Israel, EUA, Rússia e o drama dos palestinos humilhados, massacrados e violentados pelos assentamentos ilegais em seu território.

Crianças palestinas oram e choram, desprotegidos frente à violência do neofascismo sionista

Por Jorge Vital de Brito Moreira

Nos dias 26 e 27 de dezembro de 2016 (nas manhãs seguintes ao suposto dia do nascimento de Jesus Cristo numa província do Império Romano) decidi ligar nosso televisor nos principais canais de TV da mídia corporativa dos EUA (FOX News, CNN, MSNBC, Headline News) para assistir às noticias e observar os tipos de comentários que eles emitiam sobre a decisão da administração de Barack Obama (presidente do Império Estadunidense), de abster-se de bloquear no Conselho de Segurança da ONU a “Resolução 2334” que condena a expansão dos assentamentos de Israel nos territórios palestinos ocupados (1)

Como informei num texto recente para Novas Pensatas, esta é a primeira vez que o atual governo de Barack Obama decidiu enfrentar-se politicamente à sistemática humilhação que o governo sionista e racista de Benjamin Netanyahu vem infligindo ao presidente dos EUA durante os oito anos de sua administração governamental.

Mas, como fui capaz de me antecipar (devido ao prévio conhecimento que adquiri lidando com a grande mídia estadunidense), os canais de TV atacaram dura e impiedosamente a decisão do governo do presidente Obama de abster-se de bloquear a “Resolução 2334”. Assim, os apresentadores, comentaristas e analistas de TV, políticos, diplomáticos e fanáticos representantes do lobby American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), todos eles, opinavam furiosamente e tomavam  partido a favor do “apartheid israelense”: a favor da sistemática invasão e ocupação dos territórios palestinos, realizada desde 1967, pelos colonizadores de Israel.

Todos os críticos (mas, sobretudo aqueles que trabalham para FOX News), vomitavam furibundos slogans contra o governo estadunidense ao tempo que manifestavam seu apoio incondicional ao discurso raivoso e desequilibrado, de Benjamin Netanyahu contra o presidente Barack Obama, identificando o como um “traidor” da amizade, dos valores e dos interesses de Israel. Por seu lado, tanto o supremacista e racista Donald Trump (o eleito presidente republicano dos EUA) como senadores republicanos e senadores democratas pró-Netanyahu engrossavam o coro dos descontentes que atacavam como traição a falta do veto da administração de Barack Obama para parar a “Resolução 2334”.

O mais interessante é que nos dias 26 ou 27 de dezembro, enquanto assistia os ataques contra o governo de Obama, eu não escutei nenhuma menção (por parte dos críticos na mídia corporativa) ao destacado fato de que países como Inglaterra e/ou França (tradicionalmente considerados grandes amigos de Israel) também não vetaram a “Resolução 2334” no Conselho de Segurança da ONU.

Tampouco escutei nenhuma menção ao fato de que o governo de Obama, durante os oito anos no poder, sempre tinha estado do lado de Israel como sucedeu em 2011, quando Obama vetou uma resolução semelhante do Conselho de Segurança que teria condenado a construção de assentamentos por parte de Israel.

Porém, a abstenção dos Estados Unidos na votação na sexta-feira continuou recebendo ataques de muitos legisladores democratas e republicanos, tais como o ataque do próximo líder da minoria do Senado para o Partido Democrata, Chuck Schumer, de Nova York, e o ataque do senador Lindsey Graham da Carolina do Sul que agora está ameaçando de cortar o financiamento dos EUA para as Nações Unidas.

Tampouco, assisti na mÍdia corporativa dos EUA ou dos políticos pró Netanyahu nenhuma menção à escandalosa ajuda militar (no valor de US$ 38 bilhões de dólares) que Israel obteve recentemente do presidente Barack Obama para continuar expandindo a capacidade destrutiva de Israel e prosseguir enriquecendo o capital judáico ligado ao Complexo Industrial Militar estadunidense (2). Nem escutei nenhuma referência ao fato de que Israel, com a ajuda dos EUA, é o único estado no Oriente Médio que já possui mais de 100 bombas nucleares instaladas na região (3).

Apesar dos oito anos de apoio do governo de Obama às politicas genocidas de Israel contra a população palestina, o primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, nazista por excelência, usou da sua conhecida retórica terrorista para denegrir histericamente qualquer autoridade (começando imediatamente a lançar injurias ao presidente Barack Obama, chamando-o de traidor), qualquer nação, comunidade ou instituição que contrarie as suas ambições colonialistas, declarando como “vergonhosa a resolução da ONU”, acrescentando ainda que o Estado de Israel não acataria a resolução.

Mas como todos sabemos, não existe nada de novo na declaração de Netanyahu, pois o Estado sionista de Israel continua fazendo a mesma coisa (não acatar as resoluções da ONU sobre os territórios palestinos) desde a primeira “Resolução 242” do Conselho de Segurança da ONU (em 1967) até os nossos dias deste fim de ano de 2016.

Ainda que possamos entender o fato de que muitos estadunidenses fiquem surpreendidos e/ou revoltados com a traição dos grandes canais de TV da mídia corporativa dos EUA ao apoiar os interesses de um pais estrangeiro (Israel) contra os interesses dos EUA, este fato também revela que ainda existe uma grande ingenuidade por parte dos estadunidenses ao esperar que a mídia corporativa capitalista seja capaz de trabalhar para defender os interesses políticos dos EUA, contra os interesses políticos de Israel. Sem dúvida, nós também ficaríamos surpreendidos com a traição da mídia coorporativa estadunidense, se não soubéssemos, faz muito tempo, que os grandes jornais (como Washington Post, New York Times e outros), que os poderosos canais de TV (como Fox News, MSNBC, CNN e outros), e que Hollywood (a mais influente indústria de diversão do planeta) são controlados pelo capital financeiro judáico-sionista que impera nos EUA.

Na quarta feira, dia 28 de dezembro, mesmo nauseado com tanta intriga, decidi ligar os canais estadunidenses de TV referidos, para escutar a resposta de John Kerry, o secretario de Estado dos EUA, às criticas furibundas de Netanyahu e de todos aqueles que apoiam irracionalmente as demandas do estado terrorista de Israel. Em Washington, o secretario John Kerry, respondeu criticando o governo de Israel e disse no seu discurso que a implacável expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada, ameaçava a democracia em Israel e destruía as chances de alcançar uma solução de dois Estados com os palestinos.

No entanto e mesmo com as críticas acertadas (porém tardias), de John Kerry, tanto ao governo terrorista de Netanyahu quanto à mídia corporativa dos Estados Unidos, nada mais parece indicar que o demagógico governo de Barack Obama seja capaz de ir além da abstenção dos EUA para punir Israel. Punir Israel, não somente por dirigir e controlar a política americana na região durante os oito anos de humilhação do governo de Obama, mas também para entorpecer as vitórias do Partido Republicano no Congresso, no Senado, na Suprema Corte de Justiça e à presidência dos EUA. Para realizar esta politica, Obama acabou de inventar uma escabrosa difamação política com a finalidade de denegrir a vitória de Donald Trump. Assim, tudo parece indicar que a sua recente retórica, acusando a Rússia pela derrota do Partido Democrata nas eleições, junto à sua decisão de expulsar os diplomatas russos do país (4), não passa de mais uma nova desculpa (para encobrir a derrota dos ianques na guerra terrorista na Síria) e o mesmo velho mecanismo autoritário para atropelar a ascensão de Donald Trump como legitimo vencedor à presidência dos Estados Unidos. 

Mas apesar do labiríntico e alucinante jogo político entre os chefes de governo dos EUA, de Israel, da ONU e da Rússia, deveremos seguir lutando em 2017 para rejeitar Israel (como todos os seus aliados e cúmplices ocidentais) em relação a todas as suas políticas, ações, acusações e desculpas pelos crimes cometidos contra o povo palestino.

NOTAS

1) Para os  leitores mais jovens, gostaria de informar que os territórios palestinos ocupados e colonizados por Israel são áreas que foram capturadas por Israel à  Jordânia e à Síria, durante a “Guerra dos Seis Dias” (junho de 1967). Os territórios palestinos ocupados por Israel são Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Atualmente, há mais de seiscentos mil judeus ocupando terras palestinas mas o governo de Netanyahu, apesar da oposição mundial, insiste em prosseguir na construção de mais bairros judaicos além das fronteiras estabelecidas pela Resolução 242 (de 1967) do Conselho de Segurança da ONU. Como sabemos, o governo Netanyahu esta(va) programando construir mais de cinco mil casas para assentar aproximadamente  quinze mil judeus em  terras palestinas, tanto em Jerusalém como em outros locais.

2) Ver o artigo “EUA fecham acordo de ajuda militar para Israel no valor de US$ 38 bilhões”. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/09/1813280-eua-fecham-acordo-de-ajuda-militar-para-israel-no-valor-de-us-38-bilhoes.shtml

Ver também o artigo “U.S. Finalizes Deal to Give Israel $38 Billion in Military Aid”. Aid. http://www.nytimes.com/2016/09/14/world/middleeast/israel-benjamin-netanyahu-military-aid.html?_r=0

3) Conforme a informação oficial do ex-presidente James Carter. Ver “Jimmy Carter: Israel's Apartheid.” Vídeo da entrevista a MSNBC a propósito de seu livro sobre a segregación racial por parte dos judeus sobre a população palestina:
https://www.youtube.com/watch?v=Xscq2nIKLH

4) É impressionante que depois do fiasco causado pelas noticias mentirosas sobre as  Armas de Destruição Massivas (WMD) de Saddam Hussein e do Iraque, a mídia corporativa dos EUA continue a propagandear noticias tão perigosas,  sem as provas suficientes para fundamentar as graves acusações como a que atualmente atira contra a Rússia do presidente Vladimir Putin.

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