terça-feira, 31 de julho de 2012

Outra do Alpino


Esta, ao contrário da outra postada –tambem do Alpino– pela manhã faz-me dizer muita coisa. Dizer principalmente que dona Dilma, esta presidente, que se diz presidenta (1), que se diz de esquerda e que se diz mulher (2), mas é na verdade uma petit-bourgeoise invejosa e sem conteúdo.
Não que ache Marina Silva (3) algo sensacional, no entanto, depois de Chico Mendes é uma das personalidades políticas brasileiras que mais defendem o combate ao avanço da devastação que assola este país, principalmente na Amazônia, liderada pelas ONGs fantasmas organizadas pelas multinacionais.
O fato é que quando Marina adentrou o campo com a delegação brasileira nas Olimpíadas de Londres pode-se notar no olhar desta caricata personagem de desenho animado (4) sua expressão de profundo desagrado.

1. Não é errado, mas seria uma “lulice”, aquele agente da CIA, demagogo, populista e oportunista que nos (des)governou durante oito anos.

2. Mulheres são criaturas muito sensíveis. Mulheres não têm comportamentos como os dela.

3. Marina fez um jogo de direita durante as últimas eleições neste cenário medíocre da política brasileira. Não que houvesse esquerda, mas porque suas intenções favoreciam apenas José Serra, um dos maiores canalhas que este país conheceu...

4. Dilma é a cara da dona (ou seria patroa?) do Tom, sim, o Tom, aquele gato do desenho animado da Hanna & Barbera.

Sem mais a acrescentar

Charge de Alpino


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ainda sobre a utopia da democracia... Uma comparação


Segundo o texto datado de 21/02/2005, autoria de Tavares, jornalista (1), que transcrevo na íntegra, podemos comparar a mecânica das eleições em Cuba com a ocidental e com isto verificarmos que, apesar de alguns problemas existentes no Socialismo Burocrático (modelo Soviético), em que a existência de um partido único (2) tornou-se sua principal contradição (fatal) após o domínio de Stalin, é bem mais democrática do que o praticado nos países que se dizem (errôneamente) democráticos. Para ter-se uma ideia, nos primeiros anos da URSS, até partidos burgueses existiam (coisa que, aliás condeno), para além de outras diversas organizações proletárias.

“Quem se alimenta unicamente das informações que aparecem na televisão ou nos jornais da grande imprensa pode não saber, mas a ilha de Cuba está vivendo mais um de seus processos eleitorais, que acontecem a cada dois anos e meio. São as eleições para as Assembléias Municipais de Poder Popular, democracia direta, na qual cada pessoa do bairro ou da localidade vota no seu representante. Aquele ou aquela que ali vive e viverá, levando para o poder central as demandas daquele lugar. Nesse tipo de eleição, o protagonista é o povo e a lógica da democracia representativa não tem lugar. Parece não haver espaço para a compra de votos nem para falcatruas de gente que engana o povo com promessas falsas. Os candidatos são escolhidos por seus vizinhos, o voto é secreto, livre e o escrutínio é público. Quem cuida das urnas são as crianças, coisa única no mundo.

Desde o dia 15 de fevereiro iniciaram as inscrições de eleitores que acontecem sempre sob a coordenação de Comissões Eleitorais Locais. Ou seja, a lista de votantes é feita pela gente do lugar e afixada nos pontos de maior circulação. Qualquer erro ou problema é logo corrigido e a pessoa tem a chance de acompanhar tudo de perto. O voto em Cuba não é obrigatório. Feitas as inscrições de votantes, começam os comícios nos bairros e comunidades rurais. É neles que despontam os candidatos que, no mais das vezes, já são aqueles que trabalham e estão inseridos no dia-a-dia das demandas das comunidades. Segundo a lei cubana, uma localidade precisa ter sempre mais de um candidato. Não há eleições com candidatos únicos, por isso, a disputa é sempre grande. Os comícios reúnem milhares e a escolha dos delegados locais é feita nas assembléias públicas. Para se eleger o candidato ou candidata precisa alcançar mais de 50% dos votos. Depois, os eleitos precisam prestar contas periodicamente aos seus eleitores e podem ter seus mandatos revogados a qualquer momento se o povo assim decidir.

Outra coisa interessante no processo cubano é que os delegados eleitos para as Assembléias de Poder Popular não recebem nada por isso e muito menos precisam gastar fortunas para serem candidatos. Em Cuba não há campanhas eleitorais nos moldes que vivemos no Brasil, por exemplo. Lá, é da responsabilidade das Comissões Eleitorais a exposição das fotos e da biografia dos candidatos. Até o dia 27 de março, em mais de 15 mil localidades deverão acontecer 41.500 assembléias públicas, que definirão os seus delegados. A votação será no dia 17 de abril e estes delegados farão parte, depois, do Conselho Nacional.

Ramona Curbelo é delegada da comunidade de Gastón desde 1976. Ganhou sua primeira eleição quando tinha 18 anos, foi a mais jovem já eleita e a segunda mulher a exercer esse cargo no país. Entrevistada pelo jornalista Pastor Batista Valdés, ela fala destes 26 anos dedicados à comunidade e ao país e a sua relação com a gente que a elegeu. “Quando estou movendo céus e terras para resolver algum problema da comunidade, são os meus eleitores que mais se ocupam da minha casa. Eles a limpam, lavam a roupa e me trazem comida para que eu não tenha que cozinhar”. Pastor então pergunta como ela pode exercer seu mandato com tantas dificuldades materiais. “Com a minha capacidade pessoal e a inteligência do povo. É incrível o que se pode conseguir com a sabedoria da comunidade. Também temos relações com as empresas, mas, sobretudo, temos sinceridade com a população. Além disso, rendemos contas da nossa gestão”.

Enquanto isso, o governo dos “guardiões da democracia”,  liderado por George Bush, liberou mais de 15 milhões de dólares para financiar oficialmente as atividades dos chamados dissidentes cubanos que vivem nos Estados Unidos. Segundo documento assinado pelo presidente estadunidense e que veio a público em 6 de maio de 2004, isso é só “uma pequena parte dos recursos que serão usados para por fim rapidamente ao regime cubano, para fazer surgir uma Cuba livre”. Pois é. É o mesmo cara que ganhou uma eleição fraudada e que se arvora no direito de mandar embora os sírios do Líbano enquanto acossa os iraquianos com uma invasão criminosa. Quem, em sã consciência, pode dar qualquer crédito a um homem desses? Quem pode querer esta democracia?”.


1. Publicado em Adital – Notícias da América Latina e Caribe, com o título Eleições em Cuba - livres e diretas.


2. No caso de Cuba, candidatos sem partido (independentes) tambem podem se inscrever

domingo, 29 de julho de 2012

Pensatas de domingo e a utopia da democracia


Gostaria de abordar o conceito de ditadura desde os tempos romanos, quando surgiu, até a ditadura nos dias de hoje. Mas existe também um abismo entre o conceito de democracia grega (ateniense), a romana e o que temos e assistimos atualmente. Para fazermos uma análise disto, precisamos descer às suas origens e depois compará-las ao presente.

Os cidadãos gregos adultos masculinos nascidos em Atenas, passaram a decidir os destinos da cidade na Ágora (a praça pública). Era a “democracia direta”. Demokratia: os cidadãos (demos) detinham o poder político (kratos) do Estado. Segundo Péricles: “o regime ateniense se chama democracia, pois o governo do estado não está nas mãos de poucos, mas de muitos”.

Durante séculos a democracia foi jogada ao ostracismo, esquecida. O poder imperial romano a enterrou, a Idade Média a execrou e ela só veio ressurgir com mais força no século XVIII, através da Revolução Americana, dos Iluministas e da Revolução Francesa. Desta época em diante foi crescendo em termos de presença e diversas formas, reincorporando-se ao dicionário político.

Vivemos um período histórico em que o significado da palavra sofreu uma imensa vulgarização e deturpação. Por outro lado, nunca foi tão mal interpretada, e de forma tão extensa. A democracia atrelada ao poder econômico não é democracia. Por que? Antes de mais nada, a confusão gerada entre democracia e o simples ato de votar em alguém caiu no jargão popular. E democracia não é apenas votar. Democracia é um estado de coisas que deve gerir a liberdade de expressão, e tantas outras. E não somente liberdade de expressão daquilo que não incomoda de fato o estado vingente, mas teoricamente, de tudo. Atingi-la é uma tarefa árdua. Impossível na forma em que a conhecemos.

Hoje, votam-se em parlamentares, que se julgam representantes. Mas representantes de quem? O povo pode considerar seu representante o eleito por ele, mas que antes de mais nada está atrelado aos seus compromissos com quem o financiou. Pode um parlamentar, eleito com as verbas de uma empresa ou um grupo de empresas votar contra os interesses desta ou destas? Este é o “calcanhar de Aquiles” da “democracia” nos estados modernos. Os eleitos são apenas fantoches daqueles que realmente os elegeram. E este alguém não é o povo, que foi apenas um instrumento adequado para a concretização da ação pelo voto numa grande farsa montada. Os interesses que elegeram estes “representantes”, é que, na verdade manipulam os seus atos.

Democracia passou a ser uma forma do sistema influenciar a opinião pública em defesa da propriedade privada. Por outro lado, é a grande propriedade a forma menos democrática de distribuição de renda e a maior geradora das desigualdades. A partir do momento em que a humanidade estabeleceu-se, cultivou terras, apoderou-se delas, as injustiças começaram a surgir e se aprofundar em escala sempre progressiva. Surgiram o senhor e o escravo, as religiões e seus sacerdotes defendendo a propriedade. E culminamos com o domínio do grande capital. Vivemos a época dos impérios econômicos em que alguns poucos concentram a fortuna e o poder. Em que estes mesmos poucos se aproveitam do uso indevido do que chamamos de democracia como forma de defesa de seus interesses.

Outrossim, “verdade absoluta” é uma forma de pensamento anti democrático por excelência, pois marginaliza aqueles que estão em desacordo com os parâmetros estabelecidos e impostos como “verdadeiros”. Foi assim na Idade Média, através do Sacro Santo Império, que provocou com a Inquisição a maior carnificina até hoje conhecida. Também foi assim na Alemanha do III Reich e nos governos pseudo socialistas burocráticos do século passado. E continua assim no capitalismo neo liberal pós moderno, com sua muralha de conceitos e preconceitos estabelecidos e “inquestionáveis” que nos tornam prisioneiros, amarrados em verdadeiras camisas de força.

Enquanto isso, a democracia continua sendo a grande utopia inatingível...

sábado, 28 de julho de 2012

Gooooool de Martaaa!


No passado, olhava com pouco entusiasmo o futebol de mulheres. Machismo? Talvez. No fundo eu achava que o esporte bretão era “coisa pra macho”. Estava redondamente enganado! Desde o Panamericano de 2007, o futebol feminino entrou para o time dos meus times favoritos.

Vamos ver este futebol com os bons olhos porque ele merece? Elas são um verdadeiro espetáculo esportivo, o oposto, por exemplo, da seleção de Mano Menezes.
  
Abaixo um vídeo com Marta... Marta que joga no Tyresö FF, na Suécia, dançando o Tchu Tcha Tcha na comemoração de um gol.

Parabéns às meninas de ouro da nossa seleção de futebol... Afinal, elas merecem!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

É festa, é? O pior é que é!


O governo do Rio de Janeiro firmou dois contratos com a agência de viagens Tamoyo y Turismo para levar a comitiva do governador Sérgio Cabral às Olimpíadas de 2012. Pelos acordos, ambos fechados (sem licitação), o governo pagará até R$ 2.260 milhões para garantir a presença de Cabral e outros 13 representantes estaduais nos Jogos de Londres.

O governo do Rio de Janeiro está usando as Olimpíadas e a Copa do Mundo como justificativas para alugar por R$ 3.5 milhões um jatinho executivo para Cabral. O governo também fez suas exigências com relação à aeronave . O avião deve ter capacidade para transportar nove passageiros e autonomia para voar sete horas e meia sem parar. Ele ainda tem que ter poltronas giratórias, equipamento para projeção de imagens e som, e banheiro privativo em compartimento independente da cabine de passageiros.

O vice governador Luiz Fernando Pezão; o secretário da Casa Civil, Regis Fitchtner; a secretária do Esporte e Lazer, Márcia Lins; e a primeira dama Adriana Cabral são alguns dos escalados para a viagem a Londres. Todos eles, segundo o governo, fazem parte da comitiva porque trabalham no projeto das Olimpíadas de 2016, que será sediada no Rio.

Para que eles possam assistir às festas de abertura e encerramento dos Jogos e também às competições, o governo do Rio gastou 54.2 mil libras esterlinas (cerca de R$ 171 mil) só em ingressos. Por meio de um contrato firmado com a Tamoyo no ano passado, foram compradas 338 entradas. Ou seja, cada membro da comitiva do governador poderá, na média, assistir a 24 eventos olímpicos. A entrada para cada um deles custará R$ 500, também na média.
Já para a viagem e hospedagem da comitiva, serão gastos até R$ 2,.88 milhões. O valor consta de um outro contrato feito com a Tamoyo, este fechado em junho deste ano.

Esse contrato inclui os serviços de transporte, os seguros de viagem dos membros da comitiva, além das diárias em hotel e as passagens de avião. Aliás, dos 14 membros do governo que vão a Londres, 10 deles vão e voltam do Reino Unido mais de uma vez durante os Jogos.

Só o governador Sérgio Cabral viajará para Londres três vezes durante o período. Na semana que vem, ele parte do Rio para assistir à abertura dos Jogos Olímpicos. Em agosto, volta para a festa de encerramento. Já em setembro, vai a Londres mais uma vez para assistir ao encerramento dos Jogos Paraolímpicos de 2012. Em todas essas viagens, Cabral estará acompanhado da primeira dama.

Que festão!

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Revolução Urbana segundo David Harvey (Parte 2)

Ed: No capítulo 5 do novo livro, você relaciona algumas de suas hipóteses sobre organização urbana às dificuldades enfrentadas pelas formas tradicionais de organização da esquerda.  Não apenas no que diz respeito a diferente composição do proletariado, mas também nas relações com organizações autônomas, como cooperativas; ou na dificuldade para atuar na esfera estatal. Você parece sugerir que as cidades são locais de organização especialmente poderosos, e se fosse possível organizar uma cidade inteira, então possivelmente estaríamos muito empoderados. Por que você acha que as cidades são tão importantes? As cidades radicalmente isoladas não sofreriam da mesma vulnerabilidade das cooperativas?
David Harvey: Gosto de pensar nas cidades porque são uma escala maior que uma simples fábrica. Se você observar as fábricas recuperadas na Argentina, tomadas pelos trabalhadores em 2001-2002, verá que uma das dificuldades que surgiriam desse movimento e das associações de trabalhadores envolvidas é que, em certo ponto, como estão imersas num sistema capitalista, vêem-se envolvidas na competição e, em consequência, em práticas de auto-exploração.
Marx tem uma série de passagens interessantes, onde diz que o primeiro passo em direção a uma transformação revolucionária é a tomada dos meios de produção pelos trabalhadores; mas se ficarmos apenas nesse nível, não será suficiente. Se você começar a pensar em organizar uma cidade inteira (e isso está começando a acontecer um pouco na Argentina), as fábricas precisarão de matérias primas — se você está produzindo camisas, precisa de tecido. Mas de onde vem o pano? Bem, você começa a criar uma rede; monta uma rede de cooperativas produzindo coisas diferentes, interligadas.
Você pode imaginar que podem surgir, em uma área metropolitana, economias interligadas dessa forma, o que nos levaria além das possibilidades de tomar apenas uma fábrica específica. Outro fato interessante sobre as fábricas na Argentina é que quando foram tomadas, não permaneceram simplesmente como fábricas. Tornaram-se centros comunitários, integraram realmente os bairros próximos, tinham programas educacionais e culturais. Quando os donos voltaram, uns cinco anos depois, e disseram “queremos nossa fábrica de volta ou levaremos as máquinas”, a população saiu de suas casas para impedi-los. Assim, é muito mais fácil de defender as fábricas tomadas.
Claro que se você tentar criar uma cidade totalmente comunista no meio do capitalismo, provavelmente irá sofrer uma repressão real e violenta. Estará numa situação como a da Síria, em uma cidade como Homs onde há um movimento de oposição muito forte. De certa forma, é uma cidade rebelde, cercada pelo exército e esmagada, com pessoas mortas e outras submetidas.
Penso que há perigo real em ir muito longe e muito rápido. Quão longe uma cidade pode ir, em relação a sua organização? Há exemplos disso: Porto Alegre construiu sua forma orçamento participativo, e agora há orçamento participativo em muitas cidades do mundo. Não é uma medida revolucionária, apenas uma medida transformadora que aprofunda a democracia urbana.
Esse movimento tornou-se significativo. Algumas inovações ocorrem no campo ambiental. Outra cidade brasileira muito interessante é Curitiba, que trabalhou questões ambientais e tornou-se conhecida por organizar seu sistema de transporte coletivo de uma forma ecológica e  sofisticada. As inovações que vieram de lá também estão sendo implantadas em outras cidades. Você pode imaginar uma situação como essa nos termos do que chamo de “teoria dos cupins”[Harvey refere-se aos casos em que é possível corroer por dentro uma estrutura capitalista, sem alarde, até que ela entre em colapso], para transformação social. Esta cidade agora tem uma estrutura institucional diferente, e você começa a ver tais mudanças como algo que se espalha pela rede urbana.

Ed: No entanto, você também é crítico da teoria dos cupins…
David Harvey: É preciso sempre ter cuidado. Quando sou crítico, não estou desprezando. Sustento que algumas estratégias são boas, que as pessoas poderiam adotá-las, mas por outro lado temos que considerar as limitações da realidade. Em que momento você passa de uma “estratégia dos cupins”para outra? Uma das coisas em que realmente me empenhei, no capítulo 5, foi tentar mostrar que há uma variedade de estratégias, para uma variedade de situações e propósitos. Não devemos, portanto, nos restringir dizendo: “esta é a única estratégia que vai funcionar”. Podemos adotar diversas, todas as que forem possíveis. Em alguns casos, não há outra opção além de se envolver em estratégia de cupins; e é possível, ainda assim, fazer um bom trabalho.

John: Você fala no livro sobre a cidade chinesa de Chongqing, onde Bo Xilai, líder do Partido Comunista, liderou processos muito interessantes, até ser afastado. Seria um exemplo dos riscos de ir “longe demais, rápido demais”?
David Harvey: Bem, eu não sou especialista em China, e me pergunto se ele era tão brutal e tão corrupto está sendo pintado; ou se o retratam dessa maneira porque não gostam do modelo que estava desenvolvendo. Era maoísta na retórica; estava muito preocupado com a redistribuição da riqueza. Estava muito claro que sua tentativa de se tornar poderoso no Comitê Central baseava-se no desenvolvimento deste modelo urbano particular,  radicalmente distinto do que se vê em Xangai, Shenzhen e lugares assim. Nesse aspecto, eu o achava muito interessante.
Agora, tanto quanto sei, o Comitê Central tem adotado, como políticas nacionais, algumas das práticas que Bo lançou em Chongqing. Isso é típico: como sabemos, há na China uma necessidade de incentivar o mercado interno  e alguma preocupação sobre redistribuição da riqueza. Eles observaram um processo local bem-sucedido e talvez tenham decidido enfrentar estes problemas por meio de aumento salários ou construção de habitações, como Bo estava fazendo. Pode ser o modelo chinês de urbanização, que tem sido, na minha opinião, bastante desastroso — ambiental e mesmo economicamente — mude nos próximos anos, nas mesmas linhas que o dirigente afastado estabeleceu. Mas ressalto que são apenas especulações.

Ed: Quero voltar para o que você afirmou sobre abraçar uma pluralidade de estratégias, e uma diversidade de formas organizacionais. Você tem participado de um debate permanente, e às vezes ácido, opondo “horizontalistas” a “centralistas”, ou “verticalistas”. Pode falar mais sobre isso, e como se relaciona a sua análise sobre capitalismo e cidade?
David Harvey: Acho que há hoje um grande apego pela horizontalidade. Tento dizer a meus alunos que gosto de passar grande parte da minha vida no horizontal, mas também gosto de ficar de pé de vez em quando e andar por aí! Porque acho que esta oposição não é útil. Sou a favor de ser tão horizontal quanto você puder. Mas há o que chamo no livro de uma espécie de fetichismo da forma de organização — o que foi terrível nas concepções de centralismo democrático dos partidos leninistas e comunistas.
Repito: a questão é para mim, identificar que tipo de organização será capaz de enfrentar e resolver cada tipo de problema. Acho que a horizontalidade pode ajudar a resolver alguns problemas, em certas escalas, mas não funciona em outras situações. Vivemos num mundo onde há um sistemas muito estruturados, a de maneira que você também precisa de estruturas de comando e controle para lidar com eles. Por exemplo, uma estação de energia nuclear é um sistema fortemente estruturado. Quando algo dá errado, você precisa reagir imediatamente, caso contrário tudo acontece muito rápido e explode. A universidade não é um sistema fortemente hierarquizado. Se algo der errado nela; se alguém não aparecer para uma palestra, por exemplo, isso importa pouco: a instituição sobrevive perfeitamente bem. Mas em sistemas fortemente hierarquizados, você precisa tomar decisões com rapidez.
Por isso, pergunto aos horizontalistas radicais: você quer organizar o controle de tráfego aéreo por meio de princípios horizontalistsa? Quer ter assembleias o tempo todo, na torre de controle de tráfego aéreo? Será que funciona? Como você se sentiria se estivesse no meio de um voo cruzando o Atlântico, e de repente dissessem: “bem, os controladores de tráfego aéreo estão em assembleia, e eles vão nos informar amanhã o que decidiram”? Há muitas atividades que precisam, como essa, de formas bem diferentes de organização. Acho ótimos que as pessoas estejam debatendo horizontalidade, mas é ruim que digam algo como: “ou é horizontal, ou não é nada”.

Ed: Estas ideias vêm de um semi-anarquismo, de uma profunda suspeita diante de qualquer forma de autoridade. Você está dizendo,  basicamente, que ser um radical, um anti-capitalista, ainda é necessário reconhecer que às vezes a autoridade tem o seu papel?
David Harvey: Sim, claro: acho que a autoridade tem seu papel. O problema importantíssimo que se coloca é: como você controla uma autoridade? Quais são os mecanismos de revisão de mandatos e de controle? Porque uma estrutura hierárquica pode, de fato, tornar-se autoritária. Mas há uma grande diferença entre autoritarismo e autoridade. Eu acho que em certas situações, você precisa de alguém para exercer autoridade.
O exemplo ilustre de que muitas pessoas lembrariam são os zapatistas. Mas eles, militarmente, não são horizontais. Sobrevivem até hoje precisamente porque, se você tentar mexer com os militares, eles têm um comando muito bom e estruturas de controle com os quais podem resistir. Se você não tiver isso, será muito vulnerável. Uma das críticas que sempre foram feitas à Comuna de Paris é que, devido a uma espécie de anarquismo filosófico, não havia nenhuma autoridade central para defender a cidade inteira.
As pessoas defendiam seu distrito, mas não toda a cidade. Por isso as forças da reação puderam atacar: não havia nenhuma estrutura de comando e controle para resistir militarmente à invasão.
John: Você fala, no novo livro, sobre Muinrray Bookch Murray, e sua abordagem sobre uma saída para este problema de escala. 
David Harvey: Sou um geógrafo, e o pensamento anticapitalista na Geografia sempre foi predominantemente anarquista. Os anarquistas têm uma longa tradição de estar muito mais interessados em questões ambientais e urbanas que os marxistas. Eles exerceram, ao longo do tempo, muita influência sobre as práticas de planejamento. Figuras como Lewis Mumford, que vêm dessa tradição, exerceram muita influência —  inclusive sobre mim, obviamente. E Bookchin é seu herdeiro. Estou interessado em seus ensaios sobre municipalismo libertário: fala sobre formas horizontais de organização descentralizada mas, em seguida, fala também sobre a confederação das assembleias regionais. Foca sobre as necessidades das bio-religiões, em vez de se limitar a comunidades particulares.
Ou seja, ele está disposto a pensar em uma estrutura hierárquica de algum tipo, tenta falar sobre como os poderes foram atribuídos e como devem ser. Recorre a um pequeno truque teórico de Saint-Simon: diz que pode haver gerenciamento das coisas, não de pessoas. Que deve-se gerir, por exemplo, o abastecimento de água ou o saneamento uma região — mas não o que as pessoas fazem. É muito diferente da política real, mas a ideia, e o pensamento de Bookchin em geral — me parece muito interessante.
Participei, há duas semanas, de uma reunião em Nova York, com David Graeber. Murray Bookchin compareceu ao debate. Sua filha estava na platéia, e nós conversamos sobre reunir, num pequeno livro, uma seleção de escritos de Murray sobre o tema. Acho que é um momento muito bom para reintroduzir a tradição anarquista, que pode contribuir para o debate sobra algumas  questões mais amplas. Por exemplo, como você realiza tantas assembleias municipais e não coloca em questão o fato de algumas pessoas, com muitos recursos, converterem-se em ultra-ricos — enquanto muitos, sem recursos, reduzem-se a ultra-pobres?

Ed: Sua visão parece que, no fim das contas, será necessário um Estado. Parece que você acha que Bookchin talvez aceite isso, mas não pode admitir.
David Harvey: Sim. Você sabe: o que se parece com um Estado, é visto  como um Estado, e se expressa como um Estado… é um Estado! Há algo que se pode chamar de Estado capitalista, que poderíamos querer esmagar. Mas há, também, uma forma de organização diz respeito às relações entre diferentes assembleias e grupos. E no plano mundial, você também tem que pensar sobre certas questões como o aquecimento global. Precisam ser abordadas e compreendidas em plano global. Significa que certas  ideias sobre o que fazer têm de ser resultado de uma preocupação mundial.

John: Isso nos leva de volta a um ponto que abordamos antes, sobre as organizações com base geográfica. Existe uma oposição entre o urbano e o não-urbano?
David Harvey: Muitas pessoas me fazem essa pergunta. Elas dizem “a cidade não existe realmente hoje. Você está falando sobre o direito a algo que não existe na mais?” Ou: “você está falando sobre a cidade, por que não sobre o campo. Por que você não fala sobre as áreas rurais?”. Minha resposta é que, de fato, nos últimos cinquenta anos, nós nos tornamos um mundo totalmente urbano, e o que pode ter sido verdade há algum tempo — a existência de uma vida urbana e uma vida camponesa auto-sustentável, independente — desapareceu em grande parte. O que você vê é um contínuo entre o campo e a cidade. Na América Latina, por exemplo, se você está na área rural, as pessoas assistem aos mesmos canais na televisão, dirigem os mesmos carros. Isso é o que chamo de desenvolvimento geográfico desigual no interior do processo de urbanização.
E desse ponto de vista, você diz que as diferenças no interior das cidades são tão significativas quanto as diferenças entre a cidade e subúrbio, e o subúrbio e  as zonas não-urbanas. Há tantas diferenciações no interior do próprio processo de urbanização, que a diferença entre áreas ricas e favela é dramática — na realidade, mais dramática que a que existe entre o que acontece na cidade e fora dela.
Há formas de organização que refletem isso. O movimento dos trabalhadores sem-terra no Brasil tem conexões urbanas muito amplas e as leva muito em conta. Ele não se vê fora do mundo autônomo, mas como parte de um processo geral de urbanização. É como quero ver este processo. Há, em alguns lugares, tentativas de organizar uma cadeia de produção de alimentos para as cidades, que começa nos campos e passa por várias etapas. Vendendo a produção  diretamente aos supermercados, por exemplo — o que me parece uma ideia  muito interessante. Em El Alto [subúrbio popular de La Paz, Bolívia], um dos meus exemplos preferidos, a conectividade entre as pessoas que vivem na cidade e as que estão fora dela é muito, muito forte. Foi ampliada, nos últimos dez ou quinze anos, por causa do agro-negócio e a forma com que o campo tem se transformado em uma paisagem capitalista.

Ed: Então um urbanismo revolucionário uma forma universal de revolução política?
David Harvey: Eu diria que sim. A única razão pela qual me atenho à palavra “cidade” é que ela tem um significado icônico e é foco de sonhos e utopias. Ao mencioná-la, você está invocando o imaginário de uma cidade linda, uma cidade na colina, etc. Continuo com o termo “cidade”, mas entendo perfeitamente que, em um sentido estrito, diferenciado de todo o resto, ela essencialmente desapareceu.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Revolução Urbana segundo David Harvey (Parte 1)

Acaba de sair (por enquanto, em inglês), um livro indispensável para quem quer debater a crise do capitalismo, degradação social e ambiental das cidades e busca de alternativas. Numa obra intitulada “Cidades Rebeldes”, o geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey sustenta pelo menos três ideias polêmicas e indispensáveis, num tempo de crise financeira, ataque aos direitos sociais, risco de desastre ambiental e… Rebeliões contra o sistema. Elas estão expostas em detalhes na entrevista que Harvey concedeu a John Brissenden e Ed Lewis, do excelente site britânico New Left Project (1).
Como se trata de uma longa entrevista, prefiro postá-la em duas partes para que não se torne cansativa a sua leitura. Publico hoje  a primeira.

John: Você diria que há um argumento central em “As Cidades Rebeldes: Do direito à cidade à Revolução Urbana”, ou o livro reúne diversos temas?
David Harvey: Um pouco dos dois. Se há um argumento central, ele está nos capítulos 2 (“As raízes urbanas das crises capitalistas”) e 5 (“Reivindicando a cidade para a luta anticapitalista”). O capítulo 2 é essencialmente sobre as relações entre capital e urbanização; o 5, sobre a oposição entre o capital e a urbanização. O conflito de classes está basicamente nos capítulos 2 e 5.

John: Você fala sobre as rendas do monopólio e as contradições intrínsecas a esse processo. Poderia explicar essas contradições e o significado delas para sua análise?
David Harvey: Argumenta-se que capitalismo tem a ver com competição, algo muito repetido e valorizado. Mas basta falar com um capitalista para descobrir que ele prefere o monopólio, se houver essa possibilidade. O que existe na verdade, por parte do capital, é uma incessante tentativa de evitar situações competitivas por meio de algum truque monopolista.
Por exemplo, o fato de dar nome e marcas produtos é uma tentativa de colocar neles um selo do monopólio, É por isso temos o swoosh do Nike [a seta estilizada que caracteriza a marca], ou ícones parecidos, que tornam certos produtos diferentes de qualquer outra coisa. Esta tendência ao monopólio é permanente. Ao escrever A Arte da Renda, eu quis chamar atenção sobre como os capitalistas gostam de chamar algo de original, autêntico, único. Eles adoram o “marketing da arte”. Há, portanto, um fluxo enorme de capital em direção a qualquer coisa que se possa facilmente monopolizar.

John: Mas uma vez que esse processo começa…
David Harvey: Bem, num certo aquilo que não era uma mercadoria de marca transforma-se em algo menos exclusivo, uma commodity. Esta tensão sempre existe. Veja, por exemplo, a modernização dos portos urbanos. O primeiro processo foi muito bom, todos diziam “que interessante”. Agora, quando você a muitas cidades do mundo e lhe perguntam: “viu o porto?”, você responde: “Vi um, vi todos”. E Barcelona não parece mais tão única quanto antes, porque seu porto [modernizado] se parece com qualquer outro. Rotterdam, Cardiff e, claro, Londres, têm um. Não é mais uma coisa única, se tornou apenas um tipo de taxa urbana comum.

John: Você argumenta um espaço se abre, nessa tensão…
David Harvey: Sim, acho, por exemplo, que a qualidade de vida em uma cidade frequentemente é algo definido por seus habitantes, sua forma de vida, seu modo de ser. Para que isso se torne único, o capital depende da inventividade de uma população para fazer algo, para fazer algo diferente. O capital tende a ser homogenizante. As pessoas frequentemente fazem o diferencial, produzem atrações únicas, existe um tipo de relação aí. Isso significa que os movimentos populares podem ter espaço para florescer, para tentar definir alguma coisa que é radicalmente diferente.

John: Você pode apontar exemplos de onde isso está acontecendo?
David Harvey: Sim. Em Hamburgo, existe uma área, o bairro St. Pauli, que era cheio de squats [ocupações de prédios abandonados, em geral feitas por jovens e imigrantes]. Eles criaram um ambiente único, muito diverso. Múltiplas etnias, classes, uma vida urbana muito intensa. O setor imobiliário, muito presente em Hamburgo, havia transformado a cidade em algo muito homogêneo. De repente, perceberam que existe esse bairro incrível, e agora estão tentando apropriar-se dele, comprando casas e alugando-as por um preço diferenciado, porque “não é interessante viver nesse bairro vibrante?”. Esse tipo de coisa você vê nas cidades a toda hora: as pessoas criam um bairro único, ele se torna burguês e entediante.

John: Sabemos que, no interior do capitalismo urbanista, há forças de compensação muito poderosas. Como podemos reverter sua lógica?
David Harvey: Um exemplo: o movimento Occupy desencadeou, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada. Basta você tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos.
Tentei entender por que. Quando os Giants venceram o Superbowl [campeonato nacional de futebol americano], as pessoas tomaram as ruas, interromperam a atividade normal de maneira ainda mais clara e a polícia não fez nada. “Ah, eles estão apenas comemorando”. Mas o Occupy cria, por seu significado político, uma resposta violenta. E se você pergunta por quê, sinto que Wall Street enerva-se muito com a possibilidade de esse movimento virar moda. Se isso ocorrer, haverá uma clara demanda para responsabilizar pessoas por muito do que aconteceu à economia. E o pessoal de Wall Street sabe o que fez, sabe que tem responsabilidade e que pode acabar preso. Penso que dizem ao prefeito e a todas as demais autoridades: “acabe com esse movimento antes que vá longe demais”. Isole-o, faça com que pareça muito violento. Então você acaba com esse tipo de resposta política.

John: Que outras qualidades do movimento Occupy lhe parecem particularmente significativas?
David Harvey: Eu estive fora ano passado inteiro, realmente não acompanhei o Occupy em seu período mais ativo nos Estados Unidos. Mas algo que fizeram foi chamar muita atenção para a questão da desigualdade social, para os bônus enormes pagos aos altos executivos. Estes conceitos estão se espalhando. Antes do Occupy,nada disso era discutido. Agora o Partido Democrata nos Estados Unidos, e até Obama, estão dispostos a tratar a desigualdade social como um problema. Os acionistas das grandes empresas estão começando a votar contra os grandes pacotes de bônus. Acho que tudo isso foi consequência da agenda criada pelo movimento. Mas, como sempre acontece, os poderes políticos cooptam parte do discurso contra o sistema e tentam diluí-lo. Vivemos agora uma fase de certa cooptação, em que os acionistas estão assumindo parte da retórica e Obama.

Ed: Sobre isso, estamos interessados em suas discussões sobre estratégia. Como ponto de partida, é claro que a concepção tradicional que a esquerda tinha, da classe operária industrial como sujeito revolucionário e agente de mudança, não se encaixa mais no Ocidente. Você pode contar como reconcebeu o sujeito revolucionário, quem pode constituí-lo hoje e como está relacionado às cidades e à identidade urbana?
David Harvey: Para tratar deste tema, faço uma pergunta: quem está produzindo e reproduzindo a vida urbana? Se você olhar para o tipo de produção que prevalece hoje, definirá o proletariado de maneira totalmente distinta da que se contentava em associá-lo ao trabalhador fabril.
Este é o passo necessário. A partir daí, é possível pensar em quais formas de organização são possíveis hoje, entre as novas populações urbanas. Elas são mais difíceis de organizar, precisamente porque não estão em fábricas. Por exemplo, a imensa quantidade de trabalhadores que atuam no transporte de produtos e pessoas, de caminhoneiros a taxistas, Como organizá-los?
Há algumas experiências interessantes a respeito, em Nova York e Los Angeles. Politicamente, não é possível falar num sindicato nos termos tradicionais, é preciso criar organizações diferentes.
Ou tomemos o caso dos empregados domésticos. É extremamente difícil organizá-los, particularmente quando são, como em muitos países do Norte, ilegais. Porém, são uma força de trabalho bastante significativa, em muitas cidades. Parte do que estou dizendo é que todas estas formas de trabalho desenvolvem-se nas cidades e são vitais para a reprodução da vida urbana. Por isso, deveríamos nos preocupar em organizar politicamente estes trabalhadores, para influir na qualidade e natureza da vida nas cidades. Em alguns casos, a organização é muito difícil; em outros, pode ser muito vigorosa, mas assume frequentemente formas muito distintas das tradicionais.

Ed: Você acha que a esquerda está mergulhada neste tema, em compreender os desafios e oportunidades com que nos deparamos?
David Harvey: Penso que, historicamente, a esquerda sempre estabeleceu algum tipo de separação entre o que você poderia chamar de organizações de trabalhadores, ou baseadas em classes, e movimentos sociais. Uma de minhas batalhas nos últimos 30 ou 40 anos tem sido dizer que é preciso enxergar estes movimentos como movimentos de classe. Penso que houve uma relutância a aceitar isso, em muitos setores da esquerda.
Veja que esta relutância diminuiu, inclusive em razão da rapidez com que o trabalho fabril desapareceu. Quando cheguei em Baltimore, em 1969, havia algo como 35 mil operários na fábrica de aço. Quinze anos depois, eram 10 mil e na virada do século, apenas 2 mil. Se você quisesse organizar algo politicamente em 1970, você abria um diálogo com o sindicato dos metalúrgicos, porque eles tinham musculatura. Hoje, são irrelevantes. Mas se o sindicato já não conta, como organizar os trabalhadores? Diante desta questão, penso que a esquerda passou a compreender e valorizar melhor os movimentos sociais.

Ed: Em relação às dificuldades na organização dos grupos de que estamos falando, você investigou uma grande variedade de movimentos, em momentos diferentes. Existem lições particulares que devam ser generalizadas?
David Harvey: A maioria dos grupos desse tipo aparece como de organizações por direitos sociais. Sob esse guarda-chuva, eles podem criar formas organizativas menos restritas que as dos sindicatos convencionais. Agora, uma das coisas que vi em Baltimore foi que um movimento de sindicatos convencionais pode ser hostil a essas novas organizações. O movimento sindical convencional dividia-se: algumas vezes eles apoiavam; mas era mais comum considerarem essas formas de organização como uma ameaça a si próprios.
Penso que hoje, o movimento sindical convencional está preparado para enxergar essas organizações como cruciais para apoiar suas lutas. Começa a surgir um tipo de coalizão. Na marcha do Primeiro de Maio realizada em Nova York, há pouco, pessoas tradicionalmente ligadas ao movimento sindical juntaram-se aos movimentos sociais.
Sou muito a favor de uma forma diferente de organização sindical, de preferência local, e não por setor. Acredito que os sindicatos convencionais devem prestar mais atenção aos conselhos de comércio locais e aos conselhos municipais. Os sindicatos tendem se preocupar apenas com o bem estar de seus membros, e uma organização geográfica precisa pensar no proletariado em geral, na cidade. Desse ponto de vista, uma forma de organização diferente pode abranger uma cidade inteira, e unir pessoas  envolvidas em sindicatos diferentes, com todas as suas diferenças, em um tipo de sindicato da cidade, ou uma organização política da cidade.

(continua...)


Sobre o pensamento de David Harvey, clique em: http://davidharvey.org/ e saiba mais.

domingo, 22 de julho de 2012

PensataMinha dos outros*

Foto montagem (simbólica) de Cachoeira e Cabral... Tudo a ver!
Transcrevo abaixo (na íntegra) o corajoso texto assinado por Alice Haag (1) e que republico nesta “Pensata de domingo”. E é para ler e pensar, porque afinal Alice demonstra conhecer com profundidade e descreve com alguns detalhes e ousadia aquilo a que muitos se referem como a “quadrilha do Cabral”.

As entranhas do governo Cabral: o mais corrupto da história do Rio de Janeiro
  
Vamos começar pelos personagens que cercam Sérgio Cabral, os “generais” que comandam a pilhagem dos recursos públicos, que estão saqueando a população do Rio de Janeiro, através de farsas, negociatas, maracutaias e tramas nos bastidores. É a turma dos negócios promíscuos de Cabral. Vocês vão ver que por muito menos Collor e José Roberto Arruda (Distrito Federal) sofreram o impeachment. Preparem-se!
Os negócios em família, Adriana Ancelmo Cabral – a esposa. O escritório de advogacia, do qual é sócia majoritária, tem como clientes, empresas concessionárias de serviços públicos estaduais e outras que têm contratos de prestação de serviços com o Estado. O Metrô e a Supervia, apesar dos caóticos serviços prestados, conseguiram por intermédio de Adriana, que o marido, Cabral, renovasse por mais 30 anos os contratos de concessão (2). A esposa de Cabral também advoga para o Grupo Facility, do “Rei Arthur”, que tem contratos de mais de R$ 1,5 bilhão com o governo Cabral. A mulher de Cabral representa os interesses jurídicos de várias empresas que têm contratos milionários com o Estado e dependem de decisões do governador.
Mauricinho Cabral – o irmão de Cabral. Esse é um personagem que se move nas sombras, mas toda a mídia conhece muito bem, e o protege por interesse próprio. É publicitário e não tem nenhum cargo no governo. Mas é ele que controla a milionária verba de publicidade e se reúne com o pessoal dos grandes veículos de comunicação. Usa a agência FSB para distribuir as verbas e comprar a blindagem do irmão Cabral.
Outro que virou alma gêmea nos negócios, Luiz Fernando Pezão – o vice-governador, é o homem que cuida das obras do Estado e negocia os contratos milionários e está sujo dos pés grandes até a cabeça, passando pelas mãos ainda maiores, que lhe rendem o apelido de “Mão Grande”. Usa seu subsecretário, Hudson Braga para fazer a ponte com as empreiteiras, menos a Delta, que é linha direta Cabral – Fernando Cavendish. Está enrolado no TCU por conta do contrato da Delta, das obras do Arco Rodoviário. Um escândalo de superfaturamento. É o responsável pela reforma do Maracanã e vai ter que responder por que mandou pagar R$ 8 milhões à Delta antecipadamente, antes mesmo de realizar algumas intervenções previstas no contrato. Está metido numa negociata da desapropriação de um imóvel em Barra do Piraí, que pertencia à família de sua mulher, foi super avaliado e em seguida desapropriado por um valor muito acima do mercado.
Os amigos e braços direitos nos negócios: Régis Fichtner – o secretário da Casa Civil é um dos braços-direitos de Cabral desde que ele era deputado na ALERJ. Responsável pelas negociatas de imóveis desapropriados do banqueiro Daniel Dantas, denunciadas pela revista Carta Capital. O banqueiro ganhou milhões graças à generosidade da caneta de Cabral negociada com Régis Fichtner. Acertou e foi o autor da chamada Lei Luciano Huck, que legalizou centenas de imóveis de luxo construídos em área de preservação de Angra dos Reis, beneficiando o apresentador e muita gente graúda. É o interlocutor com a Justiça e o Ministério Público.
Wilson Carlos – o secretário de Governo. Amigo de Cabral desde os tempos de estudante é o homem que cuida dos negócios com os políticos. É o outro braço direito. Cuida do toma lá dá cá de Cabral. Foi flagrado em uma investigação da Polícia Federal como possuidor de contas não declaradas em paraísos fiscais na China.
Os secretários bons de negócios: Sérgio Côrtes – o secretário de Saúde  Esse é o campeão de negócios sujos. Grupo Facility, TOESA e as ambulâncias, TCI, Barrier e os remédios. Mansão, cobertura, joalheria. Luxos milionários que não têm como ser explicados.
José Mariano Beltrame – o secretário de segurança  responsável pelo contrato de aluguel dos carros da PM, a negociata com a Julio Simões cujo valor pago por viatura dá para comprar duas novas por ano. Acusado por seu ex-subsecretário de fazer escutas ilegais. Numa afronta à Constituição ganha mais que ministro do STF acumulando indevidamente salário da Polícia Federal. É o responsável pela política de acordos com as milícias. Tinha como assessores de confiança um falso tenente-coronel do Exército e o miliciano Chico Bala. Abafou as investigações da corrupção na Polícia Civil descobertas pela Operação Guilhotina e com medo da ameaça de revelações do delegado Allan Turnowski, de acusador virou sua testemunha de defesa. Turnowski sabe as relações de Beltrame com as milícias, que estão por trás da farsa das UPPs.
Wilson Risolia – o secretário de Educação. O economista do mercado imobiliário que desde o início do ano toca os negócios milionários de aluguel de aparelhos de ar condicionado e outros equipamentos; além das compras superfaturadas de computadores e outros. Julio Lopes – o secretário de Transportes, o homem que negocia com as empresas de ônibus, além do Metrô, das Barcas e da Supervia. Está por trás de toda a proteção às empresas e manda os passageiros terem paciência.
Os empresários parceiros de negócios, Arthur Cezar de Menezes Soares Filho, o “Rei Arthur” – Grupo Facility. O poderoso “Rei Arthur” vive escondido em Miami, numa mansão milionária – dizem que tem medo de ser preso no Brasil - e chegou a abrir uma filial do Porcão na cidade, para satisfazer seu gosto por churrasco. Tem no governo Cabral contratos de prestação de serviços que ultrapassam R$ 1,5 bilhão, muitos sem licitação. Tem funcionários terceirizados em praticamente todas as áreas do governo Cabral, além do Ministério Público e da Polícia Federal. Cabral viaja no seu jatinho e já se hospedou mais de uma vez na sua mansão de Miami.
Fernando Cavendish – Empreiteira Delta (3). Esse é o segundo mais poderoso empresário do grupo de Cabral pelo valor dos contratos, R$ 1 bilhão, grande parte sem licitação. Mas é o primeiro no coração de Cabral que intermediou a entrada da Delta em mais contratos milionários da prefeitura do Rio, além de outras. Está em maus lençóis depois de tudo o que está vindo à tona, por conta do acidente de helicóptero da Bahia. Segundo a revista Veja, bate no peito pra dizer que pode comprar políticos. De pequeno empreiteiro virou o campeão de obras no Rio, sob a benção do amigo Cabral, também seu vizinho do condomínio PortoBello, como o secretário Sérgio Côrtes. 
Natalino e Jerominho – Os irmãos milicianos e ex-políticos cassados  Um ex-deputado, o outro ex-vereador. Chefes da milícia Liga da Justiça fizeram acordo político com Cabral, que andava com eles pra cima e pra baixo e até cantou com eles num palanque na Zona Oeste. Depois foram traídos por Cabral que não confiava neles, e que usou a milícia rival de Chico Bala, por sugestão de Beltrame para destroná-los.
Eduardo Paes – O prefeito do Rio, afilhado político de Sérgio Cabral. Retribuiu o apoio do padrinho fraqueando os contratos da prefeitura aos amigos de Cabral, “Rei Arthur” (Facility) e Fernando Cavendish (Delta). Os dois multiplicaram por muitas vezes seus negócios com a prefeitura de Paes.
Jorge Picciani – O presidente do PMDB e ex-presidente da ALERJ  O homem que deu sustentação política a Cabral na ALERJ, durante os quatro anos que a presidiu. Barrou qualquer tentativa de investigação. Nos bastidores tentou de todas as formas, destruir adversários de Cabral, que podiam atrapalhar os negócios. Participa ativamente do governo Cabral. A secretaria de Educação é dele, e está por trás dos contratos da compra de computadores superfaturados e de aluguel de ar de condicionado. A empresa Investiplan, que pertence a Paulo Trindade, sócio de Picciani em negócios de gado, detém mais de 90% dos contratos de informática do governo Cabral. A Investiplan também está envolvida no Mensalão do Arruda, no Distrito Federal.
Paulo Melo, o presidente da ALERJ, era até o ano passado o Líder de Cabral e quem comandava a tropa de choque que protegia o governador. De vendedor de cocadas virou um dos maiores milionários da Região dos Lagos, onde os contratos do governo Cabral passam pela sua negociação. É o campeão da multiplicação do patrimônio pessoal entre os presidentes de assembléias legislativas do país, segundo revelou recente reportagem. Dono de inúmeros imóveis adquiriu recentemente uma fazenda milionária em Rio Bonito e é dono de hotel, em Araruama. Segundo ele ficou rico ganhando comissões como corretor de imóveis na Região dos Lagos.
Olha, e isso é apenas um breve resumo das participações de cada personagem. Esse é o time de Cabral que comanda o mar de lama no nosso Estado. Convenhamos que só pelo que mostrei aqui, e pelas pessoas envolvidas, da família e os principais cargos chave do governo, o escândalo do impeachment de Collor e do Mensalão do Arruda, no Distrito Federal não chegam nem perto. Ou como definiu há algum tempo o jornalista Cláudio Humberto, os dois primeiros casos parecem “Sessão da Tarde” perto do que acontece nas entranhas do governo Cabral. 

(*) A expressão é inspirada em “PoeMeu dos outros” de Millôr Fernandes.

1. Este artigo foi publicado no “SOS Bombeiros RJ” em 11 de julho de 2011. Imagina o que deve ter acontecido de um ano para cá?

2. Já havia comentado neste blogue sobre a renovação do contrato de concessão do metrô (Opportrans) até 2030 (um verdadeiro absurdo), mas desconhecia o fato de ter acontecido o mesmo procedimento com os trens suburbanos (Supervia).

3. Resta dizer que esta matéria foi escrita antes do ‘Escândalo Cachoeira”...