domingo, 12 de maio de 2013

Pensatas de domingo


Pela primeira vez na história da humanidade, a concentração do dióxido de carbono na atmosfera passou a marca das 400 ppm (partes por milhão). A última vez que tanto gás estufa estava no ar foi há muitos milhões de anos, quando o Ártico não era coberto de gelo, o Saara era coberto por savana e o nível do mar era até 40 metros mais elevado do que hoje.
A medição não significa que, instantaneamente, haverá mais problemas ou doenças relacionadas ao CO2. A questão tem todo um contexto simbólico.
Nas últimas décadas, os cientistas assinalaram que, para evitar um aquecimento excessivo da Terra, esse limite não deveria ser ultrapassado. O resultado de agora demonstra, em um certo sentido, que os esforços para controlar as emissões de carbono provocadas pelo homem estão falhando.
Atingir os 400 ppm é um marco que lembra a rapidez com a qual aumentamos a concentração de gases estufa na atmosfera.
"No começo da industrialização, a concentração de CO2 era de 280 ppm. A esperança é que cruzar esse marco vá trazer consciência da realidade científica da mudança climática e de como a humanidade deve lidar com esse desafio", afirmou Rajendra Pachauri, chefe do IPCC (Painel do Clima das Nações Unidas).
Os dados divulgados nesta sexta (10) mostram que a média diária ultrapassou 400 ppm pela primeira vez nesse meio século de medições.
Os níveis de CO2 sofrem picos a cada ano sempre em maio.
Análises de ar fóssil, que fica preso no gelo, indicam que esse nível de gás carbônico não é visto na Terra a cerca de três milhões de anos, desde o Plioceno. Naquela época, a média global de temperaturas era de três a quatro graus mais alta do que hoje e oito graus mais elevada nos polos.
Os corais sofreram um processo grande de extinção, enquanto que as florestas cresceram perto do Ártico, onde hoje existe tundra.
O clima terrestre leva tempo para se ajustar ao calor aprisionado pelos altos níveis de gases estufa e pode levar centenas de anos para que as calotas polares derretam até terem o tamanho pequeno que tinham no Plioceno e até o nível do mar se elevar.
Mas a rapidez com a qual os níveis de gás carbônico estão subindo --talvez 75% mais rápido do que no período pré-industrial-- nunca havia sido vista em recordes geológicos e alguns efeitos da mudança climática já estão sendo vistos, com ondas de calor extremas e inundações mais prováveis de ocorrer. O recente verão úmido e frio na Europa foi ligado a mudanças nas correntes de ar de grande altitude, por sua vez ligados ao derretimento mais rápido do gelo no Ártico, que bateu sua marca mais baixa em setembro.
"Estamos criando um clima pré-histórico em que sociedades humanas enfrentarão riscos enormes e potencialmente catastróficos", disse Bob Ward, diretor do Instituto Grantham de Pesquisa de Mudança Climática, da Escola de Economia de Londres.
"A marca de 400 ppm é uma marca grave e deveria servir de alerta para todos nós apoiarmos tecnologias de energia limpa e reduzir as emissões dos gases-estufa antes que seja muito tarde para nossos filhos e netos", afirmou o cientista Tim Lueker.
O pesquisador Jefferson Simões, diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), diz que a marca de 400 ppm já era esperada e que, no atual nível de emissões, a tendência é que a curva não pare de subir.
"Na verdade, havia até uma espécie de aposta entre os observatórios para ver quem faria a primeira medição da média de 400 ppm", disse o pesquisador.
"O importante disso não é o número em si. Ele é mais uma comprovação de que estamos provocando alterações sérias no ambiente", diz ele.
Segundo o cientista, não costuma levar muito tempo para que as concentrações de dióxido de carbono se equilibrem em toda a Terra. Ou seja: em breve a concentração maior do gás deve ser detectada nos outros observatórios, inclusive nos que são operados por pesquisadores brasileiros.
"Nós acompanhamos esses dados todos os dias na Antártida. E já percebemos esse aumento. Estamos muito próximos dos 400 ppm também."

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Francisco Fernández Buey, um marxista que amava Gramsci e Simone Weil





Salvador López Arnal
Traduzido para Novas Pensatas por Jorge Vital de Brito Moreira

Discípulo de Manuel Sacristán Luzón (1), destacado lutador anti franquista, comunista democrático com arestas libertárias, reconhecido estudioso da obra de Bartolomé de Las Casas, Francisco Fernández Buey [FFB], nasceu em Palencia, em 1943.  
Entre 1952 e 1960, ele estudou o colegial no Instituto Jorge Manrique em sua cidade natal. Lá ele conheceu dois professores que o marcaram profundamente: José Rodriguez Martinez e Xesús Alonso Montero.   
Entre 1961 e 1966, estudou Filosofia na Universidade de Barcelona. Foi então que ele conheceu Manuel Sacristán e tornou-se um líder admirado do movimento estudantil democrático. As duas primeiras manifestações que ele participou resume praticamente os eixos essenciais da sua trajetória política: a primeira, em 1962, foi em solidariedade com a luta dos mineiros asturianos;  a segunda, um ano mais tarde, para protestar contra o assassinato do líder comunista Julian Grimau pela ditadura do General Franco.
Nesse mesmo ano, iniciou sua militância na organização universitária do PSUC (Partido do Socialismo Unificado de Cataluña) e entre 1965 e 1966, contribuiu para a criação do Sindicato Democrático dos Estudantes da Universidade de Barcelona (SDEUB). Francisco F. Buey foi delegado  do sindicato clandestino e ajudou a organizar  “La Capuchinada” (2) uma decisiva reclusão dos estudantes que foram duramente reprimidos pela policia barcelonesa do regime franquista.
Francisco Buey foi preso três vezes em 1966, tendo estado várias semanas na “Prisão Modelo” de Barcelona.  O franquismo abriu  contra ele um processo disciplinar por três anos, sob a reitoria do farmacologista fascista Garcia Valdecasas; Francisco Buey foi despojado da bolsa de estudo com a qual tinha podido estudar desde o colegial , e foi obrigado a fazer o serviço militar no deserto do Saara, então colônia espanhola. Na África, incapaz de voltar ao continente, permaneceu de janeiro de 1967 a maio de 1968. 
Após seu retorno, em agosto de 1968, casou-se civilmente com a historiadora Neus Porta com quem teve um filho, o professor, ensaísta e escritor Eloy Fernández de Porta. FFB foi novamente preso em 11 de setembro de 1968, acusado de soltar pombas com bandeiras vermelhas de quatro barras (a bandeira não independentista da Catalunha).
FFB andou foragido a maior parte do ano de 1969 pelo estado de emergência introduzido pelo regime de Franco e sob a acusação de ter organizado - com Manuel Sacristán e outros companheiros -  a comissão de treinamento do PSUC. Salvou-se da  prisão graças à habilidade do advogado Josep Solé Barbera, outro lutador  memorável contra a ditadura de Franco. Durante esse ano e o seguinte, FFB ganhava a vida traduzindo (principalmente do francês e do italiano para o espanhol) para as editoras Ariel, Península, Fate e Grijalbo. Em 1970, ele ajudou a organizar a reclusão dos intelectuais catalães no Mosteiro de Montserrat em reação ao Conselho de Guerra  contra um grupo de revolucionários vascos.
Durante 1971-72 pode terminar o curso de Filosofia e Letras com Prêmio Especial da Licenciatura. Em 1973, começou a ensinar no Departamento de História da Filosofia da Universidade de Barcelona como assistente do professor Emilio Lledo.
Durante o período 1974-1975, colaborou na organização do movimento PNNS, foi membro da sua Coordenadoria Estadual, e ajudou a organizar uma das maiores greves de ensino sob o franquismo. Como resultado, ele foi expulso novamente da universidade, depois de ter sido readmitido pouco depois da morte do general criminoso Francisco Franco que morreu em novembro de 1975. 
Em 1976, ele passou a trabalhar na Faculdade de Economia da Universidade de Barcelona como assistente de Manuel Sacristán. Simultaneamente, lecionava na Escola de Sociologia da Província de Barcelona e foi quando ele começou a escrever seus primeiros ensaios- “Escritos sobre Gramsci” e “Conhecer a obra de Lenin”, sem abandonar seu compromisso poliético, colaborando na fundação das Comissões de Ensino dos Trabalhadores.
Em 1977, com Manuel Sacristán, Jacobo Muñoz, Rafael Argullol e outros companheiros, fundou a revista Materiales e começou a trabalhar na revista El Viejo Topo. Nesse mesmo ano, ele descobriu a ecologia social e juntou-se à Comissão Antinuclear de Catalunha (CANC), ajudando a convocar os primeiros manifestações ecologistas e antinucleares em Barcelona. Em 1979, também com Manuel Sacristán e outros colegas, fundou a revista Mientras tanto.
Entre 1980 e 1982, FFB terminou de escrever sua tese de doutorado, dirigido por José María Valverde sobre o marxismo italiano dos anos sessenta (Contribuição Crítica do marxismo cientificista), ligando-se ao Instituto Gramsci de Roma, através do filosofo amigo Valentino Gerratana.
Entre 1983 e 1989, dirigiu uma cátedra interina na Universidade de Valladolid e viveu lá, na cidade de Leon, durante seis anos. Nesse período, e em suas próprias palavras: "1) Transformei-me em pacifista e entrei nos Comitês Anti-OTAN, 2);  Fundei um Centro para o Estudo dos Problemas da Paz e Desarmamento, vinculado à UNESCO; 3) Tornei-me um dos primeiros objectores fiscais dos gastos militares e trabalhei em favor da objeção de consciência; 4) Participei em várias conferencias gramscianas onde conheci e me relacionei com a família de António Gramsci”.  
Em 1990, ele retornou a Barcelona e ocupou a cátedra de Metodologia das Ciências Sociais (que tinha sido ocupada anteriormente por Manuel Sacristán), da Faculdade de Economia da UB. Ele continuou escrevendo, principalmente sobre os movimentos sociais alternativos para a revista Mientras tanto e trabalhou com seu amigo e companheiro Octavi Pellissa no Centro de Emprego e Documentação (CTD) de Barcelona.
Em 1993, ele estava ensinando ("e aprendendo"), em El Salvador e Equador, com uma ONG de professores solidários da Catalunha. Foi quando lhe ofereceram um cargo de professor de Ética e Filosofia Política da nova Faculdade de Ciências Humanas da UPF (Universidade Pompeu Fabregas), faculdade, onde permaneceu até o fim de seus dias. Na UPF, também foi diretor de uma cátedra da UNESCO para o estudo das relações interculturais. A partir de 1998, dirigiu - junto com o poeta, professor e ecosocialista Jorge Riechmann - uma importante coleção dos "Clássicos do pensamento crítico" para a editora “Los Libros de la Catarata”.
Desde 1975, FFB trabalhou academicamente diversos temas: história da filosofia, filosofia da ciência, filosofia das ciências sociais, história das ideias, história da ciência e, destacadamente, em ética e filosofia política. Foi membro de instituições acadêmicas como a Internacional Gramsci Society e a New York Academy of Sciences.
FFB publicou em vida uns quinze livros e inúmeros prefácios, ensaios e artigos, alguns deles traduzidos para línguas como o francês, italiano, inglês, alemão, português, polonês, russo e chinês. Entre esses ensaios caberia destacar: Discursos para insubmisos discretos [Escritos: 1976-1992], 1993; La gran perturbación. Discurso del indio metropolitano, 1995; Ni tribunos. Ideas y materiales para un programa ecosocialista, 1996 [em colaboração con Jorge Riechmann]; Marx (sin ismos), 1998 (2ª edición corregida, 1999); Leyendo a Gramsci, 2001;  Poliética, 2003; Guía  para una globalización alternativa. Otro mundo es posible, 2004; Albert Einstein. Ciencia y conciencia, 2005; Utopías e ilusiones naturales, 2007; Por una universidad democrática., 2009. A editora El Viejo Topo está prestes a publicar um livro póstumo: Humanismo y tercera cultura.
Ao internacionalista ecopacifista Francisco Fernández Buey, falecido prematuramente em agosto de 2012, um ano após a morte de sua esposa e parceira Neus Porta, o turismo lhe parecia a praga da sociedade pós-moderna.

Notas do Tradutor:
  
1)  Manuel Sacristán Luzón (Madrid, 1925-Barcelona, 1985), filósofo, lógico, professor, tradutor e escritor é considerado o maior filosofo marxista espanhol do seculo XX.  O professor e escritor Salvador Lopez-Arnal, já foi apresentado aos leitores de Novas Pensatas, através do artigo “Manuel Sacristán, o compromisso do filósofo”,  publicado por este blogue em  8 de março de 2011.
  
2) “La Capuchinada” foi o nome que recebeu a reclusão dos estudantes no  convento de capuchinhos de Sarriá de em 1966, y que devido a sua repercussão na mídia passou a ser conhecido pela  imprensa da época como "La Capuchinada".

domingo, 5 de maio de 2013

Pensatas de domingo... Venezuela e distribuição de renda nos EUA

A insistência da oposição venezuelana em não aceitar a vitória de Nicolás Maduro está respaldada pelos EUA e sua política explícita em (tambem) não reconhecer o resultado das eleições naquele país, enquanto os votos não forem recontados.
Henrique Capriles Radonski (1) se esqueceu que nas eleições regionais de 16 de dezembro de 2012, foi reconduzido ao cargo de governador do estado de Miranda com apertado resultado de 51,86% dos votos, vencendo por uma pequena diferença percentual o seu adversário...
Na realidade, Maduro venceu por uma pequena diferença de votos. Na realidade, Maduro não tem a força e o carisma de Chávez. Para falar sinceramente, Maduro escorregou em sua campanha, ao apelar para uma “mística” que o levou a uma posição um tanto quanto delicada. Mas, verdadeiramente, a oposição representada por Capriles é golpista e direitista; extremamente direitista...
Em recente entrevista a Le Monde, no entanto, Maduro expressou de forma muito clara a situação venezuelana com as palavras abaixo:
“(...) Respeito. Respeito pela América Latina. Eles não nos respeitam. É uma história antiga. Existem duas doutrinas. A doutrina Monroe, que dizia: "A América para os americanos", ou seja, para os Estados Unidos da América. E a de Simón Bolívar, que dizia: "A união da América outrora colônia da Espanha". São duas doutrinas, uma imperial, a outra de libertação. Existe nos Estados Unidos um grupo ultraconservador e terrorista. Pesquisem sobre Roger Noriega, John Negroponte, Otto Reich... Todos esses homens estão por trás de planos de desestabilização violenta da Venezuela. Às vezes o governo americano exerce um certo controle sobre esses grupos, às vezes ele os deixa agirem. Os Estados Unidos são governados por um aparelho militar-industrial, midiático e financeiro. Obama sorri, mas mesmo assim ele bombardeia. Ele só passa uma imagem diferente da de Bush. Nesse sentido, ele serve mais aos interesses de dominação mundial dos Estados Unidos. Acabamos de despachar um novo encarregado de negócios [para Washington]. Estamos dispostos a avançar na direção de uma relação que possa ser positiva. Veremos...” 


O patrimônio líquido das famílias estadunidenses (diferença entre o valor dos bens e as dívidas) aumentou, em média, 14% de 2009 a 2011, passando de US$ 35,2 trilhões para US$ 40,2 trilhões, o que poderia dar a entender que a maior parte da população do país está recuperando o padrão de vida perdido na crise de 2008.
No entanto, um estudo da Pew Research mostra que essa recuperação abrange apenas os 7% mais ricos, ou seja, as oito milhões de famílias com patrimônio líquido superior a US$ 836 mil. O valor médio das posses desse grupo aumentou 28% no período, passando de US$ 2,5 milhões para US$ 3,2 milhões. Já o restante da população – 111 milhões de famílias, que são 93% do total – viu seu patrimônio líquido diminuir em 4% desde 2009. Em média, esses lares possuíam bens no valor de US$ 140 mil em 2009. Hoje, eles têm US$ 134 mil. Como consequência dessa variação, houve aumento da desigualdade econômica nos EUA. Os 7% mais ricos eram donos de 56% do patrimônio líquido do total das famílias em 2009. Dois anos depois, essa proporção pulou para 63%.
   
   1. A família Capriles controla o diário “Últimas Notícias”, de grande difusão nacional, o jornal esportivo “Líder” e cadeias de rádios e um canal de televisão). Alem do mais, Capriles, que começou sua vida política no partido de direita COPEI, foi um dos organizadores do reacionário movimento ligado à igreja: “Tradição, Família, Propriedade” (TFP) na Venezuela.
 
 

domingo, 28 de abril de 2013

Pensatas de domingo. O silêncio criminoso da imprensa esportiva brasileira



Ilustração de Josetxo Ezcurra publicada em Rebelión.org de 22/04/2013

Neste domingo a Pensata é de Jorge Vital de Brito Moreira e um excelente texto sobre futebol e política.

“Eu não troco a minha camisa com assassinos”
“Je n’échange pas mon maillot avec des assassins”

               De acordo com o jornal francês “SPORT”, esta é a frase que utilizou Cristiano Ronaldo, a estrela da seleção portuguesa, no final do jogo de futebol entre as seleções de Israel e Portugal, realizado no dia 19 de abril de 2013 (última sexta feira). O jogo entre as duas seleções fazia parte da fase eliminatória para participar da Copa do Mundo que será realizada no Brasil em 2014.
               Ao terminar o encontro, um jogador israelense tirou a camisa e pediu a Ronaldo que trocasse pela sua. Ronaldo recusou o pedido, explicando que não podia vestir uma camisa com a bandeira do Estado de Israel.
               No vestuário, quando os jornalistas perguntaram a Cristiano Ronaldo porque havia recusado a troca de camisa com o jogador de Israel, Cristiano disse exatamente: “Eu não troco a minha camisa com assassinos” ("Je n’échange pas mon maillot avec des assassins" Cristiano Ronaldo après le match Portugal Israel).
            Esta importante notícia do mundo futebolístico, envolvendo a segunda maior estrela do futebol mundial, foi divulgado por diversos jornais espanhóis e latinoamericanos tais como La Republica, Cuba Debate, Kaos en la Red (e outros); também no YouTube.com (http://www.youtube.com/watch?v=o4KRqu2UtAQ), mas não achei nada nos jornais brasileiros.
               Não sou fã de Cristiano Ronaldo, mas me parece muito estranho (ainda que eu tenha buscado a notícia nos grandes e pequenos jornais brasileiros), não ter encontrado essa notícia em lugar nenhum, afora uns poucos blogs.  A inexistência surpreendente (ou não) desta notícia no país do futebol dá o que pensar.
               Não sou torcedor do Real Madrid (um clube de origens franquistas fascistas), nem admiro o estilo de jogar da seleção portuguesa, mas a pergunta continuou na minha cabeça. – Porque a ausência desta notícia na imprensa escrita e televisiva do país do futebol?
               Em alguns blogues na língua espanhola, pude ler comentários dos leitores e suas reações pró ou contra a atitude de Cristiano Ronaldo e decidi partir dessas reações para tentar analisar e compreender a razão para a ausência dessa notícia nos jornais do Brasil.
               Entre as reações que condenavam a atitude e a fala do jogador, selecionei algumas para comentar, e se possível, responder. Classifiquei as reações em 3 grupos.
            As reações do primeiro grupo poderiam ser caracterizadas sinteticamente pela pergunta: - Que culpa tem o jogador da seleção de Israel que seu país esteja assassinando palestinos?
               O segundo grupo poderia ser caracterizado pela frase muito comum entre os torcedores: - Não se deve misturar futebol com política, nem com religião, porque são coisas completamente separadas.
               O terceiro grupo poderia ser caraterizado pela reação mal humorada: - O que disse Cristiano Ronaldo não me interessa. O que me interessa é saber quem é o melhor jogador de futebol do mundo: Cristiano Ronaldo, Messi, Maradona ou Pelé?
               Tratarei de responder aos três grupos, começando pelo primeiro: Não se trata, caro leitor, da culpa de um jogador israelense sobre os crimes do Estado de Israel, pois quase toda a maioria silenciosa (de Israel e dos EUA), é cumplice e responsável (direta ou indiretamente) pela produção e reprodução desse abominável estado fascista de coisas no Oriente Médio.
              Trata, melhor, do seguinte: Cristiano Ronaldo (uma estrela do futebol internacional, sobre a qual os meios de comunicações internacionais não param de fotografar e reportar diariamente), na minha opinião, teve uma atitude completamente apropriada às circunstâncias: se ele tivesse dado sua camisa a um jogador da seleção que representa a nação e o Estado de Israel, estaria fazendo propaganda para um estado terrorista. E, desta forma, estaria sendo cúmplice (indireto) dos crimes de guerra que o Estado de Israel vem cometendo contra o povo palestino.
               Tratarei de dar uma resposta ao segundo grupo: Não se deve misturar futebol (ou esporte) com política, caro leitor, porque já não é necessário. Elas já estão misturadas desde sempre. Para confirmar o que acabo de dizer vou mostrar alguns exemplos que registram estreita relação entre esporte, futebol, poder e política no século XX, perguntando aos leitores:
              Quem poderá negar a relação explicita entre Hitler, o nazismo e os “Jogos Olímpicos de Verão” de 1936 na Alemanha hitlerista.
              Quem poderá ocultar a relação entre o futebol brasileiro (o sucesso na Copa do Mundo de 1970), a ditadura militar no Brasil e o aumento da tortura (do desaparecimento e assassinato) dos presos políticos dentro das prisões dirigidas pelos militares?
               Quem poderá negar que “as boas relações políticas” entre a ditadura militar brasileira, João Havelange e o genro Ricardo Teixeira, conduziram João à presidência da FIFA, e Ricardo, a presidência da CBF? Assim, quem poderá esconder que, como presidentes da FIFA e da CBF, os corruptos e corruptores Havelange e Teixeira realizaram uma das políticas mais desgraçadas da história do futebol Internacional e nacional? Tratar de não ver, esquecer, ou negar todas essas relações entre o esporte e a política me parece simplesmente uma grande estupidez.
               A relação entre futebol, política e religião, também pode ser mostrada através de um exemplo para a geração mais jovem: quando o famoso futebolista brasileiro Cacá (ex-membro da Igreja Universal do Reino de Deus, um milionário jogador do Real Madrid) depois de fazer um gol, olha pro céu, faz o sinal da cruz e agradece ao suposto “Deus”, (pretendendo que “Deus” está do seu lado e do lado da sua equipe), a maioria dos católicos ou protestantes não questionam a atitude de Cacá (ou de outros jogadores). Pelo contrário, esses religiosos afirmam que é uma atitude “normal”, “natural” ou “inocente”, completamente isenta de conotação política ou religiosa.
              Mas esta afirmação, dos católicos e dos protestantes, não é epistemologicamente correta, e me parece eticamente desonesta. Na minha opinião, quando Cacá pretende que Deus está do seu lado, está fazendo política: política econômica e política religiosa.
              No plano religioso, quem, atualmente, poderá negar as estreitas relações entre a Igreja Católica, (padres, bispos, arcebispos, cardeais e o Vaticano) à Máfia italiana e a organização política maçônico- fascista conhecida por “Propaganda 2”?
              Quem poderá ocultar que a principal ocupação e objetivo da Igreja católica é conseguir mais poder e riqueza, pois ela é uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo (veja o escândalo do Banco do Vaticano e do Banco Ambrosiano) e sua preocupação crucial é como evitar pagar indenizações às famílias cujos filhos(as) foram violados ou abusados sexualmente por autoridades católicas praticantes de pedofilia?
               Por último, tratarei de responder aos leitores do grupo 3: - Creio que reduzir a discussão esportiva sobre Cristiano Ronaldo às perguntas: Quem é melhor jogador, Messi ou Ronaldo? Quem é melhor, Cristiano Ronaldo ou Cacá?, é simplesmente uma grande bobagem.
               Pessoalmente, penso que na área futebolística, Leonel Messi é um gênio, e os excelentes Cristiano Ronaldo e Cacá não o são, mas a discussão, a rivalidade, a briga de egos, podem ser emocionantes para os fanáticos, mas para mim, é uma grande perda de tempo.  Como disse o inteligentíssimo e falecido jogador brasileiro Sócrates a respeito da velha discussão de mais de 30 anos (quem é melhor, Pelé ou Maradona?): “Este tipo de questão, é uma besteira...” “Essa briga de egos... é uma briga estupida.”
               Concordo com o jogador Sócrates e não entrarei na briga de egos entre Messi e Cristiano, mas continuarei aplaudindo, na área da solidariedade humana, ao extraordinário Cristiano Ronaldo. Por que? Porque no afã de ajudar a um povo oprimido colocou sua bota de ouro num leilão publico para arrecadar dinheiro.  Assim. o dinheiro arrecadado (um milhão e meio de euros) foi doado por ele à Palestina para ajudar às vítimas dos bombardeios israelenses.
               Agora podemos começar a entender porque a atitude e a fala de Cristiano Ronaldo não foram divulgadas pelos meios de (des)informação do Brasil: como sempre, a mídia corporativa brasileira e de outros países ignorou, escondeu ou evitou a publicação da declaração de Cristiano Ronaldo para não contrariar o poder dos EUA e de Israel:  Cristiano Ronaldo, é um jogador famoso, querido, reconhecido e respeitado em todo o mundo pelo talento, inteligência,  sensibilidade, riqueza e fama. E não é bom para os donos do poder que se divulgue pelo mundo que ele está defendendo os palestinos contra a injustiça e a barbaridade do estado de Israel e dos EUA.
               Mas o silencio não é a única tática para sabotar a atitude valente do jogador português contra a política criminosa de Barack Obama e Natanyahu para a Palestina..
               Outra forma usada pelo governo dos EUA, pela mídia corporativa e pelo American-Israel Public Afair Commit, AIPAC (o lobby judeu que controla a política externa dos EUA) para denegrir a CR é chama-lo de anti-semita. Aliás, esta é a forma mais eficiente (usada sistematicamente pelo governo, pela media coorporativa e pela AIPAC), para denegrir aos intelectuais, aos atletas,  aos artistas famosos e a toda gente decente que tem tido a coragem de criticar o apartheid criado pelo sionismo de Israel com a cumplicidade dos EUA. Brilhantes personalidades intelectuais e políticas como o finado Edward Said, Noam Chomsky, Cornel West, James Petras, o ex-presidente James Carter tem sidos chamados de anti-semitas e  atacados virulentamente por se oporem ao sionismo e defender aos palestinos.
               Recentemente, o presidente Barack Obama fez um discurso para os membros da IAPAC (e para o povo norteamericano), que evidencia eloquentemente o que venho afirmando neste texto: que a ausência no Brasil da notícia sobre a declaração de Cristiano Ronaldo estar relacionada com a subserviência (e o temor) da nossa mídia corporativa ao poder dos EUA e Israel.
               Sem mostrar o mínimo de vergonha, Barack Obama, nesse discurso, se auto proclamou agente político financiado pela AIPAC para servir aos interesses de Israel. Vejam e constatem com seus próprios olhos, o caráter entreguista da oratória do governo do presidente dos EUA:
               “O fato é que o compromisso do meu governo com a segurança de Israel tem sido sem precedentes. Nossa cooperação militar e de inteligência nunca esteve tão próxima. Nossos exercícios conjuntos e de formação nunca foram mais robustos. Apesar do nosso ambiente de orçamento difícil, a nossa assistência de segurança tem aumentado a cada ano. E assim como nós estivemos lá: com a nossa assistência à segurança de Israel e através da nossa diplomacia. Quando o “Relatório Goldstone” (1) criticou injustamente a Israel, nós o desafiamos. Quando Israel foi isolado pelo rescaldo do incidente da flotilha, nós apoiamos Israel. Quando a Conferência de Durban foi comemorada, nós a boicotamos, e sempre rejeitamos a noção de que sionismo é racismo. Quando as resoluções unilaterais são criadas no Conselho de Direitos Humanos da ONU, nós nos opomos a eles. Quando os diplomatas israelenses temiam por suas vidas no Cairo, nós intervimos para salvá-los. Quando existiram esforços para boicotar ou alienar Israel, nós ficamos contra eles. E sempre que iniciativas forem feitas para deslegitimar o estado de Israel, a minha administração tem se oposto às mesmas. Portanto, daqui pra frente não deve haver a mínima sombra de dúvida: quando as fichas estiverem em baixa, contarei com o apoio de Israel.” (2)

Notas:

1) Em 1º de junho de 2009, uma comissão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, chefiada pelo juiz judeu sul-africano Richard Goldstone, chegou à Faixa de Gaza, para investigar possíveis violações dos direitos humanos durante a ofensiva israelense contra os palestinos. Em 15 de setembro de 2009, a comissão, mesmo sendo comandada por um judeu sionista, apresentou seu relatório, concluindo que Israel "cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade", e que, "embora o governo israelense tenha procurado caracterizar suas operações essencialmente como uma resposta aos ataques de foguetes, no exercício do seu direito de autodefesa, a comissão considera que o plano visava, pelo menos em parte, um alvo diferente: a população de Gaza como um todo.

2) Este é o discurso original do Presidente Barack Obama: “The fact is, my administration’s commitment to Israel’s security has been unprecedented. Our military and intelligence cooperation has never been closer. Our joint exercises and training have never been more robust. Despite a tough budget environment, our security assistance has increased every single year. And just as we’ve been there with our security assistance, we’ve been there through our diplomacy. When the Goldstone Report (1) unfairly singled out Israel for criticism, we challenged it. When Israel was isolated in the aftermath of the flotilla incident, we supported them. When the Durban Conference was commemorated, we boycotted it, and we will always reject the notion that Zionism is racism. When one-sided resolutions are brought up at the Human Rights Council, we oppose them. When Israeli diplomats feared for their lives in Cairo, we intervened to save them. When there are efforts to boycott or divest from Israel, we will stand against them. And whenever an effort is made to delegitimize the state of Israel, my administration has opposed them. So there should not be a shred of doubt by now. When the chips are down, I have Israel’s back.”