
O mais novo membro da família, a encantadora Dalila (4 meses) que amanhã completa seu primeiro mês conosco.
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Vivi uma Salvador, ou melhor dizendo, uma Bahia (1) barroca. Numa época em que Pituba era um lugar longe demais. Basta dizer que tinha uma tia que ia àquela praia para fazer topless. De uma Nazaré, símbolo da urbanidade latina, um lugar habitável, gostoso, um tanto quanto provinciano, mas como é bom o ar da província! Dali, descíamos a pé em direção da Baixa do Sapateiro, atravessando-a, subindo ladeiras tortuosas até alcançar a Praça da Sé. Reparem bem, da Sé, não da Catedral, ponto central de um Centro Velho que se dividia entre Cidade e Comércio, em outras palavras: Cidade Alta e Cidade Baixa.
Isto, há cerca de 45 anos atrás, quando a primeira capital do Brasil tinha pouco mais de 500.000 habitantes. Quer dizer, uma cidade populosa, mas ainda habitável, suportável, com resquícios de um convívio humano e “civilizado”. E uma latinidade evidente, mesclada pela negritude dos abarás, candomblés e capoeiras, numa fase pré-axé.
Tenho saudades daquilo tudo. De meus primos a caminhar comigo pelas tardes em busca de cinemas e noite adentro a caça de novas emoções. Duros, estudantes com o dinheiro contado, mas tantas vezes frequentando as casas noturnas de danças e meretrizes, as boates, os cabarés. Muitas vezes tendo que sair às pressas sob pressão de algum gerente mais exigente que não permitia menores no recinto.
Na primeira vez que lá voltei, depois que mudei – ainda criança – para o Rio de Janeiro, encantei-me tanto com tudo aquilo que pedi a meus pais que me transferisse para um colégio local e ficasse por lá. Visto concedido, fui estudar no Severino Vieira, no próprio bairro de Nazaré (aliás, na entrada da praça do mesmo nome) onde estudei por seis meses. Obriguei-me a sair de lá por encontrar uma professora de matemática que era um terror, logo na matéria que eu mais tinha horror.
A segunda, mais traumática, mas nem por isso menos gostosa. Perseguido pelos militares após quase dois anos de militância política, fui me esconder em fazendas de parentes amigos onde fiquei por um bom período. Mas, depois de algum tempo, lá estava eu, no aconchego da casa de minha avó... Em Nazaré. Pertinho de meus primos e primas, de minhas tias, das velhas tias-avós no final de seu curso vital, mas ali... No útero de minha existência.
O barulhinho do entroncamento do bonde, no 191 da Avenida Joana Angélica, onde moravam algumas de minhas tias, era algo que me levava a um passado distante, pois ali, quando meus pais se casaram, vivi meus primeiros momentos. Talvez viesse naquele ruído, uma recordação das mais antigas que poderia ter.E o “Jogo do Carneiro”? Por incrível que pareça era o nome de uma rua. Ali perto, os papos entre meu primo André, eu e um conhecido, num bar em que bebíamos uma cervejinha e comíamos uns sandubas como tira-gosto, trocando idéias sobre Bergman, Brecht e Marx.
Na esquina da Júlio Barbuda, a rua em que minha avó morava, bem no topo da ladeira, uma baiana preparava acarajés no mesmo local em que também se deliciavam milhos torradinhos na brasa, amendoins cozidos e deliciosos saquinhos de umbu, aquela fruta que só provando sabe-se o quanto é saborosa.
Fora as festas de carnaval. O lendário carnaval baiano dos tempos em que trio elétrico era exatamente isso. Um caminhãozinho com três sujeitos tocando músicas seguido pela multidão na Avenida Sete, cheia de cadeiras que as famílias colocavam para sentar-se e assistir ao espetáculo. O mesmo carnaval dos bailes à noite nos melhores clubes da cidade. O mesmo carnaval em que saíamos de “careta” (mascarados) a brincar com os conhecidos, voz de falsete para não sermos reconhecidos. Ou amanhecíamos, sol na cara, estendidos na praia do Porto da Barra, fantasiados de qualquer coisa que nos embalara nas festas da noite anterior. No Bahiano de Tênis, no Iate ou na Associação Atlética.
E as idas ao ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha) no Corredor da Vitória, onde assisti grande parte dos filmes do Expressionismo Alemão, quando era difícil se conseguir isto, pois não existia vídeo, muito menos DVD e outras facilidades de hoje em dia. Era uma época em que se tinha que correr atrás dos clássicos em exibições especiais, que geralmente eram únicas.
Tudo isto fez parte de uma velha Bahia barroca, única, inesquecível, na qual havia uma boa atividade cultural, no momento em que surgiam Glauber, Gal, Caetano e outros talentos. E que eu tive a feliz oportunidade de conhecer e da qual jamais me esquecerei.
(1) o bahiano, não se refere à cidade como Salvador, mas como Bahia mesmo.