domingo, 7 de junho de 2009

Pensatas de domingo

Lembrei-me de um filme que assisti há tempos, e, na época achei surrealista Nunca pensei que fosse se tornar tão real. Trata-se de Pequenos Assassinatos (Little Murders), de 1971, dirigido por Alan Arkin, e estrelando Elliot Gold, além do próprio diretor. Esta Pensata foi originalmente publicada em fevereiro de 2007.

O filme retrata o terror que se instala em uma cidade dos Estados Unidos a partir do momento em que as pessoas, na santa paz de seus lares, começam a receber tiros, sabe-se lá de onde ou por que. Vivemos, hoje, uma situação, se não exata, pelo menos muito semelhante. Outro dia, assistindo a um telejornal, o locutor afirmava que, saímos de casa, mas não sabemos se vamos voltar.
Incrível, mas o mundo, e o Brasil muito em particular, transformou-se num campo de batalha. A “barbárie” em que vivemos, nos levou, por vezes, a ter medo de sair. À noite, nem se fala.
Estava recentemente a trocar e-mails com um primo de Salvador, e nos recordávamos do tempo em que vagávamos pelas tortuosas ruas daquela cidade, ao voltar do cinema ou de encontros com amigos. A pé, e à noite. Não havia o menor receio de coisa alguma. Na verdade, nem olhávamos se tinha alguém parado na próxima esquina. E se tivesse, nem era conosco.
Aliás, na mesma época, aqui no Rio de Janeiro, cansei de voltar de Copacabana, também a pé, atravessando o Túnel Velho, bem embaixo da favela da Ladeira dos Tabajaras (1), após tomar mais chopes do que meu bolso permitia, naqueles tempos em que era estudante e vivia de mesada.
Vai fazer uma coisa dessas hoje em dia! Aliás, as pessoas nem pensam na hipótese. Quem está de carro, fica fechado, mal parando nos sinais de trânsito. Às vezes, não saem de carro à noite, preferindo um táxi. Ali, ficam mais seguras e incógnitas. Seu padrão de vida não fica tão evidente. Afinal de contas, não é preciso ser rico para se pegar um táxi.
O pior é que se fala muito em repressão, em reforço policial, nisso e naquilo. Mas, e as origens do problema? E os quinhentos anos de colonização, de pobreza x ostentação? Obviamente é mais fácil matar, é mais seguro eliminar o sujeito, não a causa. Concordo até que, de imediato fica difícil. Sarar uma ferida tão antiga, não é coisa que se cure da noite para o dia.
Os governantes sempre usam uma retórica demagógica, em que até parece que se preocupam com o fato. Mesmo o governo Lula, promete uma redistribuição de renda, mas faz uma política apenas paternalista, como a de Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres”. Bolsa-família e outras ações, não passam de paliativos. Enquanto isso, beneficiam o grande capital financeiro dando continuidade à estratégia criminosa do famigerado governo antecessor.
Até admito que a eleição do “operário” Lula, foi um fato inédito na história brasileira. Mas, concretamente, ele não rompeu o estigma que nos assola desde o início. O Brasil não tem, ao longo de seus cinco séculos de existência, movimentos de massas relevantes. Os que teve, e que sempre foram escondidos ao máximo do domínio público, estão entre as toneladas de arquivos queimados na velha república, por ninguém menos que o “ilustre” senhor doutor Ruy Barbosa (2).
Elite e conta-elite são a dicotomia ao longo de nossa história. Isto quer dizer que a elite se degladia entre os que estão e aqueles que querem chegar ao poder. O “fenômeno” Lula não fugiu a essa realidade. Trocando em miúdos, o fato de ter sido operário não quer dizer que continue como tal, nem lute por sua classe. Hoje, faz parte da elite. Com ela, e por intermédio dela, chegou ao poder.
Além do mais, o seu próprio partido, o PT, foi fundado com o total apoio do governo estadunidense e da CIA, para combater aquele que eles viam como o “perigo real e imediato”: Leonel Brizola. E a prova maior disso é que quem destruiu (ou desconstruiu) a imagem dele – Brizola – foi, nada mais, nada menos que a Rede Globo, um dos maiores braços – e que braço! – do império no Brasil. Alguém, não me lembro quem, definiu este poderoso veículo da mídia como “o produto mais bem acabado da ditadura”.
Nesse ínterim, vamos vivendo a novela do dia-a-dia, o clima surrealista de Pequenos Assassinatos, um filme profético... uma antevisão de nossos tempos, realizada trinta e seis anos atrás.

(1) Naquela época, conhecia pessoas no Dona Marta, até porque meus pais moram na Humaitá desde 1958. Cresci naquelas cercanias, fiz amizades e subi várias vezes aquele morro, nunca tendo sofrido o menor sinal de violência.
(2) Ruy Barbosa foi incumbido de queimar todos os documentos arquivados sobre os movimentos sangrentos, principalmente quilombos e revoltas de escravos, tendo como finalidade reforçar a ideologia de que o povo brasileiro tem uma “índole pacífica”.

8 comentários:

Ieda Schimidt disse...

Esta tua pensata pode ter sido há mais de uma ano, mas continua atual. Isto porque o Brasil pouco mudou. Há uma forte propaganda tentando nos incutir isto, mas a verdade é que Lula faz o jogo das elites e forças reacionárias. Suas ações são paternalistas. Agradam o povão porque quem tem fome fica satisfeito com quem lhe oferece uma migalha qualquer. O resto é o mito que constrói, ao lado de Vargas, que muito bem soube fazer isto. São assim os "caudilhos" e populistas desta nossa América Latina. Pobre América.

Jonga Olivieri disse...

Costumo mesmo dizer que o sr. da Silva é o maior fenômeno político do Brasil depois de Vargas.
Mas, sem dúvida faz o jogo das elites, caso contrário teria caído em 2005, pois a CPI que ceifou muito de seus acessortes teria levado a sua cabeça sem muita dificuldade.
Você resumiu muito bem. A América ao sul do Rio Bravo é assim mesmo: uma sucessão de Perons, Vargas, Trujillos e tantos outros. Pobres paises!

André Setaro disse...

Esta é a grande verdade:

"Além do mais, o seu próprio partido, o PT, foi fundado com o total apoio do governo estadunidense e da CIA, para combater aquele que eles viam como o “perigo real e imediato”: Leonel Brizola. E a prova maior disso é que quem destruiu (ou desconstruiu) a imagem dele – Brizola"

Mas, mudando de um pólo a outro, lembro-me bem de 'Pequenos assassinatos' ('Little murders", 1971), que vi duas ou três vezes nos anos 70. Baseado em um peça do aclamado Jules Feiffer (também autor do roteiro), e dirigido por Alan Arkin (que fez o papel do embaixador sequestrado em 'O que é isso companheiro', de Bruno Barreto, e trabalhou no interessante e surpreendente ''Ardil 22', de Mike Nichols, entre muitos outros), é obra premonitória e de um tempo no qual Hollywood abriu as portas para produções mais independentes, como esta, 'Cada um vive como quer', de Bob Rafelson, 'Sem destino', de Dennis Hopper, etc. A partir dos meados da década, Hollywood começou a infantilizar seus temas até virar o 'cinema-montanha-russa' que toma conta do mercado.

Mas, voltando a Lula, vem aí o terceiro mandato e a implantação, se realmente efetivado, de um ditadura petista.

André Setaro disse...

Pergunta feita por Professor(a)da matéria Termodinâmica, no curso de engenharia química da UFBA em sua prova final.

Esse Professor é conhecido por fazer perguntas do tipo "Por que os aviões voam?" em suas provas finais. Sua única questão, nessa prova, foi:


"O inferno é exotérmico ou endotérmico?

Justifique sua resposta ."



Vários alunos justificaram suas opiniões baseadas na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma.

Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:

" Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas. Agora postulamos que as almas existem, assim elas devem ter alguma massa e ocupam algum volume . Então um conjunto de almas também tem massa e também ocupa um certo volume. Então, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno? Podemos assumir seguramente que,uma vez que uma alma entra no inferno, ela nunca mais sai de lá.
Por isso não há almas saindo. Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo e no que pregam algumas delas hoje em dia.
Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a ela, você vai para o inferno ... se você descumprir algum dos 10 mandamentos ou se desagradar a Deus você vai para o inferno.
Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno. A experiência mostra que pouca gente respeita os 10 mandamentos.
Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno.
Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno.
A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas,a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante.Existem , então, duas opções:
1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir, portanto EXOTÉRMICO.
2) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele, portanto ENDOTÉRMICO.
Se nós aceitarmos o que a menina mais gostosa da UFBA me disse, no primeiro ano: "Só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar", e levando-se em conta que AINDA NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações amorosas com ela, então a opção 2 não é verdadeira. Por isso, o inferno é exotérmico."

O aluno tirou 10 na prova.

CONCLUSÕES:

"A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original." (Albert Einstein)

"A imaginação é muito mais importante que o conhecimento" (Albert Einstein)

"Um raciocínio lógico leva você de A a B. A imaginação leva você a qualquer lugar que você quiser" (Albert Einstein) .

Jonga Olivieri disse...

Lembro bem de Arkin como embaixador estadunidense em "O que é isso companheiro", cuja embaixado dos EUA, era na verdade a da Inglaterra (hoje a Prefeitura do Rio).
De "Ardil 22" não posso me esquecer, pois é uma obra marcante sobre a II Guerra Mundial. Um filme que trata de forma irônica determinadas armadilhas montadas pelas forças armadas para evitar que se dê licença a combatentes criando um nó gordio na tentativa de consegui-la.
O terceiro mandato é certamente o "Ardil 2010", podemos dizer assim. Mais uma vez o sr. da Silva "ignora" o que se passa nas salas ao lado da sua e nega qualquer intento neste sentido...
hehehe!

Jonga Olivieri disse...

A tese chega a ser brilhante, com uma forte dose de ironia.
O aluno mereceu a nota 10, e também mereceria um passe livre para um mestrado no assunto.
Não sabia desta tese de Boyle, naturalmente o Robert e não a Susan...
Mas, será que além do "Big Bang", teremos o "Big Hell"? Porque eu não sei se existe (além do inferno em que vivemos, claro), mas tudo leva a crer que aquilo lá deve ser muito quente.

Stela Borges de Almeida disse...

Excelente protesto.
500 anos de colonização, de pobreza e ostentação, as causas estruturais permanecem na terra arrasada e como diz bem gauchesca, pobre América latina, pobre América.

Jonga Olivieri disse...

Sim Stela, por isso mesmo achei que valia republicar esta Pensata.
Quanto à frase da Ieda, é perfeita.