quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cenas & choros

Estava outro dia a trocar e-mails com meu primo em Salvador, o Professor Setaro; certamente um dos maiores conneisseurs de cinema neste país, sobre as cenas finais de The Searchers (1956) de Jonh Ford, que aqui passou com o título de “Rastros de ódio”, sem dúvida um dos melhores filmes a que assisti ao longo dos meus 63 anos de praia.
As cenas? Sim as cenas. Na primeira delas Tio Ethan (interpretado por Jonh Wayne) se aproxima de sua sobrinha Debbie (Natalie Wood). Atrás dele, corre Martin Pawley (Jeffrey Hunter), temeroso porque Ethan queria matar a jovem, seqüestrada alguns anos antes – quando ainda criança – pelo cacique Scar (Henry Brandon), um guerreiro comanche, alegando que já não era mais a sua sobrinha, mas uma índia (1).
Resumo da ópera: Ethan alcança Debbie. Ela cai ao chão empoeirado da pradaria. Seu olhar é de pavor frente àquele que pode ser o seu algoz. Pawley, atrás, estendido ao chão grita em desespero para Ethan, a tentar detê-lo. Repentinamente, entra a bela música tema do filme, de Max Steiner. Ele se abaixa a coloca no colo, aconchegando-a e diz carinhosamente: “Let’s gonna home, Debbie!”. A menina chora em seu ombro. E eu choro do lado de cá. Aliás, sempre chorei nas dezenas de vezes a que assisti.
A razão de ter passado o e-mail para meu primo era essa. Como choro quando assisto esta cena, me pergunto se ela será piegas. Não creio que Jonh Ford tenha feito algo piegas. A emoção ali é decorrente da intensa densidade da narrativa e do exímio domínio da linguagem cinematográfica por parte do irish-american que foi um dos maiores diretores do cinema de todos os tempos.
O pior de tudo é que a cena final propriamente dita, aquela em que Ethan entrega a sobrinha à família Jorgensen, dá a volta, e, no seu velho e característico estilo de andar, Jonh Wayne se afasta, a música sobe, a porta se fecha e aparece o letreiro The End. Uma cena perfeita nos mínimos detalhes. No dia em que o velho “reaça” (2) – mas que foi o herói da minha infância / juventude – morreu foi este final que pontuou em noticiário da TV uma reportagem sobre o seu desaparecimento. Naquela ocasião, entrou, depois do letreiro o ano em que nasceu e o ano em que ele morreu. Pergunta se naquele dia eu não me debulhei em lágrimas?

(1) Há toda uma dose de preconceito e intransigência por detrás da cena, mas retrata a realidade e aspectos visíveis na cultura estadunidense.
(2) Jonh Wayne, Duke para os íntimos, ou Marion Morrison (seu nome de nascença) foi dos atores mais alinhados com a direita em Hollywood. Dirigiu “Os boina verdes”, filme que lhe trouxe algumas dores de cabeça, por ter um roteiro pró-guerra do Vietnã, o que causou vários protestos em periodo de questionamento nos EUA.

12 comentários:

André Setaro disse...

Excelente a sua demonstração catártica ante a beleza das cenas citadas de 'Rastros de ódio' ('The seachers'), do grande John Ford. O fato é que se você se comoveu com a poética fordiana, pois se trata de uma poética oriunda de um artista singular, e não mera pieguice, é porque você, caríssimo Jonga, possui sensibilidade, emoção à flor da pele em contato com a arte e a beleza. Quem assiste ao final do filme em questão com indiferença é porque é destituído de capacidade perceptiva para os momentos de estesia e deveria, neste caso, fazer um concurso imediato e incontinenti para caixa do Bradesco ou comprar ações do Opportunity. Já lhe falei da minha idéia de comprar um genuflexório para pode rever sempre e sempre 'The seachers' de acordo com a sua grandeza, isto é, ajoelhado a seus 'pés'. A nova geração, infelizmente, constato no ensino, tem certo preconceito com o gênero, que André Bazin considerava 'o cinema americano por excelência'. Aliás, não daria, aqui, neste modesto comentário, refletir sobre a oposição entre o cinema de gênero e o cinema de autor, e Ford, bem entendido, é um autor. E a querela bizantina do 'filme de arte', como bem pontuou o Professor Jorge Coli em artigo recente para o 'Mais!' da 'Folha de S.Paulo'. Se o cinema é uma arte não seria um pleonasmo a noção de 'cinema de arte'? É bem verdade que nem todos os filmes - e a maioria não consegue atingir - possuem a expressão artística, assim como muitas tentativas em outras esferas da arte (pintura, música, etc). Os filmes de John Ford são penetrantes porque refletem a condição do homem. O personagem de John Wayne, na expressão heiddegeriana, tem seu 'estar-no-mundo' abalado quando, finda a perseguição à sobrinha, vê-se sem mais nada para fazer e sai por aquela porta que encerra com magnificência única 'Rastros de ódio'. É um filme, na verdade, sobre a solidão dos perdedores. Grande momento não somente do cinema como da arte do século XX.

André Setaro disse...

E digo mais: quem não gosta de 'Rastros de ódio' não gosta de John Ford e quem não gosta de John Ford não pode gostar de cinema.

Jonga Olivieri disse...

Respondendo a seus dois comentários, caro primo André, ou prezado Professor Setaro: as suas palavras podem ser sintetizadas em algumas de suas conclusões: "... é um filme, na verdade, sobre a solidão dos perdedores." ou "... quem não gosta de 'Rastros de ódio' não gosta de John Ford e quem não gosta de John Ford não pode gostar de cinema."
Porque, finalmente, é um filme que como você bem exprimiu, tem que ser visto de joelhos, com a humildade que nós, reles mortais devotamos a deuses no Olimpo da arte. E um deles é este autor de inegável brilhantismo.

Jonga Olivieri disse...

Conseguir falar de "The Searchers". mas falar tudo mesmo sobre este filme levaria horas. E quilos de papel... mas a sua cena inicial também é de uma beleza ímpar. A abertura da porta, que, vejam bem no final se fecha, mostrando que tudo ali é de um cuidado milimétrico. Nada é gratuito, nada acontece sem uma razão para acontecer.
E quanto mais se assiste, mais se aprende nesta lição de filme no filme.

ieda disse...

Que texto primoroso. Gostei da descrição que fizestes da cena.
Cheguei a vê-la quadro a quadro e me deu vontade de assistir o filme, pois não sou grande conhecedora de westerns.

Jonga Olivieri disse...

Vocês mulheres, nunca foram muito chegadas ao gênero.
Preconceito?
Mas não perca este filme, Ieda. Vale a pena.

jr disse...

Considero este um dos maiores faroestes que vi. mas gosto muito de Da Terra Nascem os Homens com Gregory Peck. Filmaço.

Anônimo disse...

A emoção que você conseguiu passar narrando a cena foi perfeita.
Tem filmes que levam ao choro mesmo.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Sim JR, um outro grande western. Sem dúvida um excelente filme. mas ainda tenho a minha preferência por "The Seachers".

Jonga Olivieri disse...

Veja bem Tavinho, existe o choro piegas e este choro motivado pela "poética fordiana", como bem definiu o André Setaro no seu primeiro comentário.

maria disse...

Jonga. Você escreveu uma beleza de texto sobre um filme que eu não vi, mas agora quero ver.
Fiquei tão motivada que vou na locadora neste fim de semana para pegar e assistir.
Se eu chorar eu falo com você pois sou uma manteiga derretida.

Jonga Olivieri disse...

Vai ser um excelente programa de fim de semana.
E chorar é tão bom quanto rir.